Ao término de uma viagem apostólica marcada por muitos momentos fortes em cada cidade visitada, o arcebispo de Marselha e presidente da Conferência dos Bispos da França faz um balanço dos quatro dias “azul, branco, vermelho” de Leão XIV. Entrevista com o cardeal Jean-Marc Aveline.
Jean-Charles Putzolu – enviado especial a Paris Foram quatro dias de rara intensidade vividos pelos católicos da França, e particularmente pelo cardeal Jean-Marc Aveline, que acompanhou Leão XIV em cada um dos encontros de sua quinta viagem apostólica, de 25 a 28 de setembro.
Um pouco cansado, mas sempre sorridente e disponível, o presidente do episcopado francês concedeu uma entrevista aos meios de comunicação do Vaticano para fazer um balanço da visita do Sucessor de Pedro.
Da emoção com os jovens no Stade de France, incentivados a se comprometerem com o futuro da França, da Europa e do mundo, à confirmação do apoio incondicional à dignidade inviolável da vida, passando pelo comovente encontro de mais de duas horas, em Lourdes, com sete vítimas de abusos sexuais cometidos por membros do clero, o arcebispo de Marselha percorre novamente os momentos mais marcantes da visita do Papa.
Entrevista.
Eminência, de volta a Paris e antes de retornar à sua diocese de Marselha, que impressões lhe deixaram os quatro dias de Leão XIV em Paris, Lourdes e Metz?
Este encontro aconteceu num momento favorável entre um homem portador de uma mensagem e de uma responsabilidade para toda a Igreja e um povo da França, católico, cristão ou não, que estava presente e esperava alguma coisa.
A palavra de Leão XIV era esperada, mas, mais do que uma palavra, sentimos um encontro com uma pessoa.
Creio que, para os franceses que vieram, ou mesmo para aqueles que acompanharam esta visita pela televisão, senti que o Papa se dirigia a eles como a uma pessoa, com muito respeito e, ao mesmo tempo, com muita autenticidade.
Em uma coletiva de imprensa, antes desta viagem apostólica, o senhor dizia que a França intrigava o Papa Leão XIV.
Isso continua sendo assim?
Devo ir a Roma na próxima semana, onde permanecerei oito dias.
Terei tempo para lhe fazer essa pergunta.
No entanto, penso que ele foi tocado pelo fervor.
No avião, um jornalista fez-lhe uma pergunta sobre a Alemanha, e sua resposta foi: “vejam o que aconteceu na França”.
Dizia-se da França coisas que provavelmente ainda hoje podem ser ditas da Alemanha.
Ele ficou muito tocado tanto pelo fervor dos jovens, pelo entusiasmo deles, quanto pela esperança que trazem e que transmitiram.
É aí que acontece um encontro.
O Papa comunica alguma coisa, mas os jovens e as multidões presentes também lhe comunicam alguma coisa.
Penso, portanto, que, para além do fato de a França intrigá-lo, ela o tocou profundamente.
E isso também nos toca, porque nos remete à nossa responsabilidade aqui na França.
Embora já esperássemos por isso, ele também ficou muito tocado em Lourdes pela proximidade com as pessoas em dificuldade, quaisquer que sejam essas dificuldades.
Senti que isso realmente o comoveu.
Duas perguntas sobre Lourdes.
A primeira diz respeito ao encontro com as vítimas de abusos sexuais.
Tivemos a impressão de que elas saíram totalmente abaladas daquele momento, quando depois falaram à imprensa.
Sim, mas isso não é surpreendente.
Guardadas as devidas proporções, vemos bem — e eu mesmo já tive essa experiência — que, quando um bispo recebe uma pessoa, quando as condições são favoráveis para isso e é possível simplesmente escutá-la longamente, várias vezes, saber como ela está, acompanhar a evolução das coisas, sentimos que já estamos caminhando por uma via de cura.
Na medida em que esse encontro acontece com o Papa, ele tem ainda mais impacto, mais importância.
Nas palavras pronunciadas depois diante da imprensa pelas vítimas, percebe-se claramente que, para essa ferida, o remédio da escuta atenta e humilde é a coisa mais importante.
O fim da vida é outro tema abordado em Lourdes, assim como em outras circunstâncias.
Esta pequena frase de Leão XIV — “o que é legal não é necessariamente moral” — não recorda a firmeza com que a Igreja defende o respeito e a dignidade da vida?
Sim, mas não havia apenas a frase; havia também o tom, um tom muito marcado, que significava que, em determinado momento, é necessário gritar quando o grito dos outros não é ouvido.
É preciso elevar a voz quando aquilo que dizem os profissionais de saúde e outras pessoas não é ouvido.
É isso, aliás, que Cristo nos pede.
Falamos sobre isso com o Papa; eu também falei com o primeiro-ministro e com o presidente da República.
As coisas que, para mim, são mais dolorosas são pensar que, depois da adoção da lei [sobre a ajuda para morrer], as pessoas economicamente mais vulneráveis serão aquelas a quem será fácil dar a entender que, afinal, elas são mais um peso e que seria melhor que partissem.
Teremos passado do direito de morrer ao dever de partir rapidamente para não ser um peso.
Isso é muito grave.
É por essa razão que é preciso elevar a voz.
Esta viagem começou na noite de sexta-feira com a vigília com os jovens de 17 a 35 anos no Stade de France e terminou com um apelo aos jovens.
Leão XIV lhes pede que se comprometam com a França, com a Europa e com o mundo, num momento em que, segundo ele, a Europa se encontra numa encruzilhada de sua história.
Em Metz, ele destacou inclusive a importância do compromisso político.
Vemos claramente, ao reler a história da construção das instituições europeias que conhecemos hoje, que eram necessárias pessoas cheias de esperança e de fé — a maioria dos pais da Europa eram cristãos — para encontrar na fé na Ressurreição a certeza de que a reconciliação era possível.
Isso foi necessário para passar das intuições às instituições.
Precisamos de homens e mulheres comprometidos com a política para isso.
O apelo lançado pelo Papa é, portanto, muito importante, sobretudo porque, quando olhamos para o mundo de hoje, vemos claramente que essa capacidade, essa força política que homens e mulheres tiveram no final da Segunda Guerra Mundial — depois de três guerras que devastaram tudo — pode ser útil em muitos outros lugares do mundo atualmente.
Mas é preciso que a Europa reencontre essa força.
É preciso questionar novamente as instituições à luz das intuições que estiveram em sua origem.
É preciso também voltar ainda mais atrás do que a criação dessas instituições, como o Papa explicou em seu discurso, e retornar àquilo que está na origem da Europa: todas essas sínteses culturais, toda essa vontade de unidade, apesar de todas as guerras e de todas as rupturas.
Hoje, a Europa tem uma grande responsabilidade no mundo.
O senhor mesmo, Eminência, seus irmãos cardeais, bispos, sacerdotes, religiosos e leigos, os fiéis, todos não partiram novamente como missionários na noite de segunda-feira?
Sim, penso que a França precisava disso.
A Igreja da França também recebeu muito durante estes dias.
Muitas sementes foram lançadas.
Cabe a nós refletir bem para regá-las como convém.
Muitas vezes, o bispo é um jardineiro.
Ele deve ir regar todas as sementes, inclusive aquelas que caíram em lugares onde ele não imaginava que cairiam.
É isso que devemos fazer agora.