Pároco de Lampedusa se despede: “O contato com os migrantes mudou meu coração”

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Pároco de Lampedusa se despede: “O contato com os migrantes mudou meu coração”
Fonte: VATICANO

História do Padre Carmelo Rizzo, que após cinco anos deixa a sua comunidade paroquial, na Ilha de Lampedusa, para se transferir para outro destino: "Ver pessoas que morrem de sede por falta de um copo d’água nos ensina muitas coisas".

Alessandra Zaffiro Enquanto Lampedusa se prepara para recordar as 368 vítimas do trágico naufrágio de migrantes, em 3 de outubro de 2013, inclusive muitas crianças e mulheres, a comunidade da paróquia de São Gerlando despede-se do Padre Carmelo Rizzo, que ali trabalhou por cinco anos.

A propósito, ele disse comovido: "Estou deixando aqui um pedaço do meu coração, porque esta não é uma experiência como qualquer outra.

Aqui é diferente, porque, nesta ilha, vivemos como uma só família, com suas virtudes e defeitos; estamos sempre juntos, crescemos juntos, um fenômeno que nos leva a estar sempre no olho do furacão".

Semana de desespero O Padre Carmelo Rizzo será o novo pároco da igreja de Santo Antônio de Pádua, em Palma de Montechiaro, província de Agrigento, região da Sicília, no sul da Itália, que conta 21.500 habitantes.

O pároco falou à mídia do Vaticano sobre os desembarques de pessoas desesperadas em 2023: "Não consigo esquecer a onda de migrantes, cerca de 12.000, que, em uma semana, chegaram aqui; todos os protocolos foram ignorados e todos ficaram amontoados na ilha.

Não obstante, a comunidade foi muito acolhedora e eu me encontrei na linha de frente para enfrentar tantos problemas; porém, houve também tanta satisfação, uma alegria que enche o coração, porque quando a gente ajuda um irmão, lhe dá alguma coisa e até a própria vida, com gestos simples, a recompensa divina chega e enche o coração.

Esta experiência me mudou não só como homem, mas também como sacerdote, cujo ministério sacerdotal é estar em contato direto com a pobreza e a proximidade dos migrantes".

Um carinho, um copo d’água...

O pároco recorda a experiência humana de lidar com o fenômeno da migração, ao chegar à ilha no período pós-Covid: "Havia fortes restrições: os migrantes não podiam sair do centro assistência e os contatos eram limitados; na verdade, podíamos ir apenas ao cais.

Nossa acolhida era feita de gestos realmente evangélicos e humildes: um carinho, um copo-d'água, um sorriso, perguntar o nome... tudo isso poderia parecer trivial, mas para quem passa pelo que nossos irmãos migrantes passaram, até mesmo tortura, ver os mortos, por não terem conseguido... acolhê-los com um sorriso abre seus corações.

Nós, paroquianos e eu padre, realizamos esses gestos simples, porque, uma vez transferidos para o centro de assistência, perdíamos o contato com eles, porque não podiam sair dali, enquanto não fossem imediatamente transferidos em 24 a 48 horas".

Visitas pastorais de Francisco e Leão XIV, “um privilégio" A comunidade de Lampedusa acolheu o Papa Francisco, em 2013, e Leão XIV em julho próximo passado.

Para o Padre Carmelo Rizzo, a atenção de ambos os Pontífices para com esta ilha foi "um privilégio".

Padre Carmelo ainda não estava presente na ilha, em 2013, mas disse: "A experiência do Papa Francisco entre os insulanos ainda está viva, repleta de entusiasmo, alegria e apreensão.

Em 2013, antes da tragédia de 3 de outubro, já haviam ocorrido muitos naufrágios, que abalaram a comunidade.

O fato de um Pontífice ter vindo encorajar a comunidade, expressar sua gratidão pelo que ela faz, sobretudo, em relação à hospitalidade, é algo que valorizamos profundamente”.

E o sacerdote acrescenta: “Eu estava presente durante a visita do Papa Leão XIII: ele sempre agradeceu à Ilha por ser símbolo de hospitalidade, uma vez que ocupa uma posição geográfica bem no centro do Mediterrâneo.

O Papa Leão XIII disse também que queria dar continuidade ao ministério do Papa Francisco e confirmar a sua mensagem deixada para Lampedusa".

Padre Rizzo: “Simplicidade e pobreza mudam a perspectiva” Para o Padre Carmelo Rizzo, acolher Leão XIV e sua experiência entre os migrantes estão entre as maiores emoções destes cinco anos, em Lampedusa, porque ele disse: "Por meio do contato com a pobreza e a simplicidade, a gente entende muitas coisas: vemos as coisas sob um ponto de vista diferente, com um olhar especial... tudo isso me enriqueceu muito”.

O pároco explica ainda: “Geralmente, vivemos em meio a tantas superestruturas, enquanto aqui, as pessoas podem morrer de sede até por falta de um copo-d'água.

Isso me impressionou profundamente, além da visita do Papa Leão XIV".

O sacerdote sabe que, dependendo da compatibilidade do seu novo ministério de pároco, voltará a Lampedusa, porque ali "ele deixou seu coração, teve uma experiência viva, que afetou profundamente a sua vida”.

As iniciativas em memória do dia 3 de outubro de 2013, quando em Lampedusa 368 pessoas foram vítimas do trágico naufrágio de migrantes, se concluirão na paróquia de São Gerlando, com uma celebração noturna inter-religiosa.

O evento é promovido pelo Setor de Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso da Arquidiocese de Agrigento, pela Federação das Igrejas Evangélicas da Itália, com a participação da União das Comunidades Islâmicas da Itália.

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