Mas ninguém é o que vê nem é aquilo que os outros veem dela. Como dizia Santa Teresinha do Menino Jesus numa das cartas enviada à sua irmã Céline Martin: “Eu sou aquilo que Deus pensa de mim”.
Prof.
Dr.
Elvis Rezende Messias - Diocese da Campanha Vivemos na era das imagens das máquinas artificiais.
Dadosfera, infocracia, colonialidade algorítma, datacolonialismo, profilagem, pixel-vigilância, políticas da imagem, big brother pictológico, antropologia dos likes...
São muitos os nomes que ilustram nosso contexto.
Não vou me estender com isso.
Na era da inteligência artificial, vivemos também a visão artificial.
Você aponta o celular para seu próprio rosto, tira uma selfie, posta, curte a postagem de alguém, acessa uma página virtual, vê várias coisas...
E é “visto(a)” pelo vê.
Esse é o grande “paradoxo da vigilância imagética” que marca a nossa atualidade: “somos vistos (supervisionados) a partir daquilo que vemos (as imagens que produzimos e os lugares em que estamos).
Ou seja: os grandes olhos que nos monitoram veem pelos nossos olhos” (Giselle Beiguelman, Políticas da imagem: vigilância e resistência na dadosfera, p. 63).
Assim, vai sendo criado um grande banco de dados (big data) sobre nós em algum centro de processamento de dados (data center) por aí, que ninguém sabe onde, quem o usa, para que usa, baseado em quê, nem como esse conjunto de informações virtuais é interpretado.
O que sabemos é que uma imagem equivocada ou limitada de nós é produzida (data sense) e a máquina artificial delimita um perfil de cada um(a), a partir do que nós mesmos vemos.
Você com certeza já se estranhou e teve a sensação de estar sendo vigiado(a) quando começam a aparecer em seu celular ou computador propagandas sobre algo do qual falou ou viu há poucos minutos.
É isso!
Algum modelo de inteligência artificial te rotula.
Para ele, você é o que você vê.
Mas ninguém é o que vê nem é aquilo que os outros veem dela.
Como dizia Santa Teresinha do Menino Jesus numa das cartas enviada à sua irmã Céline Martin: “Eu sou aquilo que Deus pensa de mim”.
No “data sense” de Deus, não somos somente o que vemos, o que clicamos, não somos reduzidos aos nossos likes, nada disso.
O Coração de Deus é um “big data” muito mais complexo e completo, infinitamente perfeito e amoroso, que nenhuma lógica matemática de algoritmos computacionais é capaz de compreender.
Se no mundo das máquinas e inteligências artificiais o que vemos e clicamos geram dados que padronizam o que somos, determinando uma certa identidade algoritmizada nossa; se no mundo dos algoritmos somos vistos pelo que vemos, no Coração, na Mente, na Inteligência Divina, somos vistos pelo que somos.
E no Seu “data sense”, não somos padrão algorítmico, mas pessoas profundamente amadas, criadas à Sua imagem e semelhança (“imago Dei”).
É aí que está o tesouro de nossa magnífica humanidade. “Nenhum sistema de cálculo, por mais sofisticado que seja, gera um coração que se entrega ou uma consciência que discerne o bem” (Leão XIV, Magnifica humanitas, n. 233).
A política da imagem que Deus tem é, na verdade, uma Teologia da Imagem.
E, nela, somos “imagem Dele”, somos um coração segundo o Seu Coração Humano e Divino.
O ser humano é o seu coração, “verdade íntima de cada pessoa” (Papa Francisco, Dilexit nos, n. 6). “Em última análise, pode-se dizer que eu sou o meu coração, porque é ele que me distingue, que me molda na minha identidade espiritual e que me põe em comunhão com as outras pessoas.
O algoritmo que atua no mundo digital mostra que os nossos pensamentos e as decisões da nossa vontade são muito mais ‘standard’ do que pensávamos.
São facilmente previsíveis e manipuláveis.
Não é o caso do coração” (Dilexit nos, n. 14).
A imagem humana que Deus vê é o coração humano, tão superior a qualquer dado limitador, que a Escritura encontra uma elucidação mística sobre isso na expressão que diz: “o homem vê a imagem aparente, Deus vê o coração” (1Sm 16,7).
Ainda mais a inteligência artificial – que é produzida segundo à nossa própria imagem (“imago hominis”), a partir de aspectos limitados de nossa inteligência humana – somente “vê” dados padronizados, estatísticas, probabilidades.
Mas a Inteligência Divina, por mais que nossos dados testemunhem contra nós, Ela nos vê com outro olhar, com um olhar outro.
Assim, para além de toda política das imagens na dadosfera, não nos esqueçamos do que verdadeiramente somos na Teologia das Imagens na Teosfera.
Parafraseando o que está em Mt 10,31 e em Lc 12,7: Vós valeis mais do que muitos dados.
Prof.
Dr.
Elvis Rezende Messias (Filósofo, teólogo, doutor em Filosofia da Educação e assessor diocesano do Movimento Fé e Política da Diocese da Campanha).