Uma análise da questão da santidade e dos encontros entre São João Paulo II e uma santa brasileira e candidatos à santificação do nordeste brasileiro.
José Luís Lira - Diocese de Sobral., Ceará A Igreja Católica Apostólica Romana, em sua sabedoria, instituiu a Festum Omnium Sanctorum (Festa de Todos os Santos) em honra a todos os santos, conhecidos e desconhecidos.
A Igreja firma, portanto, em sua liturgia, o santo que é desconhecido por nós, mas glorificado por Deus.
Por isso, em 1º de novembro — ou, no caso do Brasil, no domingo que coincide com esta data ou a sucede —, celebramos a Solenidade de Todos os Santos.
Embora lembremos os inúmeros santos conhecidos, esta celebração nos faz rememorar aqueles que estão diante de Deus, mas que nem sempre são de conhecimento geral.
Isto nos recorda o pensamento de São Bernardo: “Para que louvar os santos, para que glorificá-los?
Para que, enfim, esta solenidade?
Que lhes importam as honras terrenas, a eles que, segundo a promessa do Filho, o Pai celeste glorifica?
Os santos não precisam de nossas homenagens.
Não há dúvida alguma: se veneramos os santos, o interesse é nosso, não deles”.
A santidade nunca foi um caminho solitário, mas uma sinfonia de almas que se reconhecem e se apoiam mutuamente na busca pelo Evangelho.
Ao longo do século XX, o mundo testemunhou o desabrochar de homens e mulheres extraordinários cujas vidas se cruzaram de maneira providencial.
No centro dessa constelação de fé, destaco a figura iluminada de São João Paulo II, o Papa peregrino, cujo longo pontificado serviu de ponte para o encontro de gigantes da fé, da justiça social e da caridade.
Neste elenco, destacam-se, de modo universal, Santa Teresa de Calcutá, muito amada e presente no Brasil e, nesta Terra de Santa Cruz, especialmente no nordeste brasileiro, Santa Dulce dos Pobres, o Venerável Frei Damião, o Servo de Deus Dom Helder Câmara e a Serva de Deus Irmã Rosita Paiva.
Esses encontros revelam que os santos não apenas partilhavam dos mesmos ideais, mas nutriam uma espiritualidade que fortalecia suas missões e seu amor a Deus.
Sintonia profética e universal deu-se entre o Papa e Santa Teresa de Calcutá.
Unidos por uma inabalável defesa da dignidade humana, os dois formaram uma dupla vigorosa em defesa da vida.
São João Paulo II fornecia o robusto arcabouço teológico e magisterial sobre o valor inestimável da vida, enquanto a Madre se tornava o ícone vivo e prático desse ensinamento nas sarjetas da Índia e do mundo.
O abraço entre São João Paulo II e Santa Dulce dos Pobres permanece como um dos registros mais emocionantes da história religiosa do Brasil.
Em julho de 1980, diante de uma multidão comovida, o Papa segurou as mãos debilitadas de Irmã Dulce, entregou-lhe um terço e proferiu palavras de profundo encorajamento para que ela continuasse sua obra junto aos mais necessitados.
Onze anos mais tarde, em 1991, o afeto se renovou de forma muito terna: João Paulo II retornou à Bahia e visitou Irmã Dulce em seu leito de morte, no Convento de Santo Antônio, oferecendo-lhe a bênção final em um claro reconhecimento de sua santidade em vida.
Ainda na histórica viagem de julho de 1980 ao Brasil, a passagem de São João Paulo II pelo Nordeste selou um momento inesquecível de comunhão com o Servo de Deus Dom Helder Câmara, então Arcebispo de Olinda e Recife.
Conhecido mundialmente por sua firme defesa dos direitos humanos e das populações vulneráveis, o "Dom da Paz" recebeu o Pontífice em solo pernambucano.
Sob os olhares atentos do país, o Papa quebrou o protocolo litúrgico para abraçar afetuosamente o arcebispo, proferindo diante da multidão a célebre frase: "Dom Helder, irmão dos pobres, meu irmão".
Nessa mesma passagem por Recife, a sensibilidade pastoral do Papa João Paulo II tocou outra expressão profunda da devoção popular ao acolher o Venerável Frei Damião de Bozzano.
O frade capuchinho — já idoso, fragilizado e com a postura curvada por décadas dedicadas às exaustivas frentes de confissão e pregação itinerante — foi recebido pelo Papa com reverência e profunda admiração.
Essa mesma teia de santidade alcança figuras discretas e fundamentais como a Serva de Deus Rosita Paiva.
Cofundadora do Instituto Josefino, em Fortaleza, Irmã Rosita construiu uma vida inteiramente pautada na confiança cega na Divina Providência, no zelo pelos sacerdotes e no serviço aos esquecidos.
Durante o Congresso Eucarístico Nacional de 1980, em Fortaleza, eles experimentaram a arte do encontro por intermédio do Cardeal Aloísio Lorscheider.
Suas vidas coincidiram no tempo e no propósito de reavivar a fidelidade a Cristo em um período de profundas transformações eclesiais.
Menos de um ano antes de voltar à eternidade, em 10 de dezembro de 1990, Sua Santidade o Papa João Paulo II concedeu a “Bênção Apostólica a Dna.
Rosita Paiva e à Congregação das Josefinas”.
Olhar para as vivências e conexões de São João Paulo II com essas almas iluminadas nos ajuda a compreender a própria natureza da Igreja.
Nesses encontros, a diversidade de dons e carismas da fé católica se manifesta plenamente.
Cada alma iluminada que cruzou o caminho do Santo João de Deus, como o aclamamos no Brasil, refletia uma faceta única do mistério divino, lembrando-nos de que a unidade da Igreja se fortalece na harmonia de suas diferentes expressões e na busca comum pela transcendência.
Eles, os santos, não competiam entre si, tampouco buscavam os holofotes do mundo; ao contrário, reconheciam nos olhos uns dos outros o mesmo brilho do Evangelho vivido de forma radical.
Ao se cruzarem nas estradas da história, esses gigantes da fé confirmaram que o amor ao próximo, a busca pela justiça e a fidelidade a Deus são os únicos caminhos capazes de deixar um legado eterno na humanidade.