.O secretário de Estado do Vaticano abriu, na manhã desta quarta-feira, na Universidade Gregoriana, com sua conferência inaugural, o congresso científico internacional intitulado “A Santa Sé diante dos sistemas totalitários no século XX: novos olhares e perspectivas de pesquisa”, que se encerra nesta quinta-feira, 29 de outubro. Em sintonia com Leão XIV, denunciou que ainda há quem queira “controlar o modo de viver e de pensar da humanidade” e “impor-lhe as próprias convicções ideológicas”.
Alessandro Di Bussolo – Cidade do Vaticano Se os regimes totalitários históricos, como o nacional-socialismo, o comunismo e o fascismo, pertencem agora ao passado, “o mesmo não se pode dizer do próprio fenômeno, que nasce da tentação humana de querer ‘ser como Deus’, controlar o modo de viver e de pensar da humanidade e impor-lhe as próprias convicções ideológicas”.
A afirmação é do cardeal secretário de Estado, Pietro Parolin, durante a conferência inaugural que abriu, na manhã desta quarta-feira, 28 de outubro, na Aula Magna da Pontifícia Universidade Gregoriana, o congresso científico internacional intitulado “A Santa Sé diante dos sistemas totalitários no século XX: novos olhares e perspectivas de pesquisa”.
Organizado pela Universidade Gregoriana e pelo Pontifício Comitê de Ciências Históricas, o encontro prossegue até esta quinta-feira, 29 de outubro.
Leão XIV e a Magnifica humanitas Os danos provocados por essa tentação humana de “querer ser como Deus”, representada biblicamente pela Torre de Babel, também são apontados pelo Papa Leão XIV em sua Carta Encíclica Magnifica humanitas.
Nela, recorda Parolin, o Pontífice ressalta que “a liberdade e a democracia não vivem apenas de regras e procedimentos”, mas também de “uma relação leal com os fatos e de uma orientação real para o bem das pessoas e do corpo social” e, portanto, “da fidelidade à verdade”.
A Santa Sé de Pio XI a São João Paulo II Em sua conferência inaugural, o secretário de Estado do Vaticano percorreu a posição da Santa Sé diante dos sistemas totalitários do século XX, durante os pontificados que vão de Pio XI a São João Paulo II.
Parolin reconstruiu o surgimento dos regimes totalitários, que “prometiam a realização de uma utopia social neste mundo”, alimentados pelo laicismo, que “havia excluído a religião da esfera pública, já não reconhecia Deus como centro e autoridade suprema da História e o substituía pelo homem”.
Os regimes totalitários como “religiões políticas” “Elevando a classe social, a raça ou o Estado ao altar, em lugar de Deus”, recorda o cardeal, natural de Vicenza, esses regimes “sacralizaram seus próprios conceitos ideológicos e deram vida a religiões políticas, com suas próprias ‘liturgias’, profetas, mártires e normas éticas, que dissolviam a pessoa humana em uma coletividade abrangente”.
Ideologias de caráter pseudorreligioso, como o comunismo e o nacional-socialismo, ressalta Parolin, “estavam em contradição insanável com o cristianismo e desencadearam, desde o início, uma onda de perseguições contra a Igreja Católica”.
A tentativa do “caminho da negociação” Na tentativa de proteger os católicos europeus que viviam sob esses regimes, Pio XI escolheu inicialmente “o caminho da negociação”, tanto com a União Soviética quanto com a Itália fascista, por meio dos Pactos de Latrão, e com a Alemanha nazista, mediante a Concordata.
Apenas as relações com a Itália tiveram continuidade, mas eram, de qualquer maneira, relações frágeis com parceiros “submetidos às ideologias inimigas do cristianismo”.
Em março de 1937, Pio XI publicou três cartas encíclicas que condenaram o nacional-socialismo, o comunismo e o regime liberal-socialista anticatólico no México.
Para Parolin, o Pontífice deixou claro “que todos esses desvios heréticos derivavam do mesmo materialismo que, ao negar Deus, pretendia oferecer ao mundo uma nova salvação por meio de instrumentos humanos revolucionários”.
Pio XII e a Summi Pontificatus Seu sucessor, Pio XII, manteve essa perspectiva fundamental.
Em sua primeira encíclica, Summi Pontificatus, publicada no início da Segunda Guerra Mundial, denunciou que a raiz última do conflito estava “no afastamento da sociedade da doutrina de Cristo, que outrora havia dado coesão espiritual à Europa, no esquecimento da lei natural e na rejeição de uma norma universal de moralidade”.
Somente o retorno a Deus e “à ordem fundamentada nos valores cristãos” poderia conduzir novamente a humanidade à verdadeira paz, baseada na justiça e na equidade.
Pacelli e a visão programática para o pós-guerra Fracassadas as tentativas de mediação para alcançar a paz entre as partes em conflito, o Papa Pacelli, recorda Parolin, colocou em ação “uma diplomacia da caridade sem precedentes”, em auxílio aos perseguidos e necessitados “de todas as categorias”.
Além disso, elaborou “uma visão programática para o pós-guerra, que garantiria uma paz justa e duradoura, inspirada nos princípios cristãos e fundamentada na solidariedade internacional e no respeito à dignidade e aos direitos naturais dos homens e das nações, incluindo as pequenas nações e as derrotadas”.
O Pontífice condenou os crimes indescritíveis cometidos durante o conflito, mas de maneira a “não desencadear perseguições ainda maiores”.
A tentativa frustrada de acordo com as “democracias populares” O firme anticomunismo de Pio XII, destaca o secretário de Estado, não o impediu, após o fim da guerra, de buscar um acordo com as chamadas “democracias populares”, a fim de aliviar o sofrimento dos católicos perseguidos.
O Papa tentou negociar com a Tchecoslováquia, a Hungria e a Polônia, mas foram os regimes comunistas que interromperam todo diálogo.
Entre os acontecimentos que marcaram esse processo estiveram a condenação do cardeal József Mindszenty, na Hungria, e o lançamento de uma “Ação Católica” cismática na Tchecoslováquia.
Essa situação levou à publicação de decretos de excomunhão entre 1949 e 1951, por meio dos quais eram condenadas todas as formas de colaboração com a ideologia comunista.
Ao mesmo tempo, manifestava-se solidariedade espiritual e concreta à chamada “Igreja do Silêncio”.
O período do diálogo: de São João XXIII a São Paulo VI Em seguida, o cardeal Parolin esclarece que “a novidade do ‘diálogo’ com os países do Leste Europeu, no rígido contexto da Guerra Fria, representou, sem dúvida, um dos aspectos mais complexos da ação diplomática da Santa Sé durante os pontificados de João XXIII e Paulo VI”.
Ambos, mas sobretudo o Papa Montini, procuraram o caminho do diálogo e da distensão, “com o objetivo prioritário de garantir à Igreja Católica, presente naquela parte da Europa, maiores espaços de liberdade e de atuação”.
Essa iniciativa partia da consciência de que os regimes políticos comunistas permaneceriam por muito tempo.
Nesse contexto, a Igreja Católica poderia desempenhar o papel de “força moral”, autônoma e independente da lógica dos blocos políticos.
A Ostpolitik vaticana e a distensão internacional Foi o que ficou conhecido como “Ostpolitik vaticana”, cuja prioridade “era fundamentalmente religiosa, e não política, embora sua realização devesse ser buscada por meio dos instrumentos tradicionais da política e da diplomacia”.
Um dos grandes articuladores desse diálogo foi o cardeal Agostino Casaroli, diante do dilema entre “resistir ou negociar”.
Em 1965, recorda o secretário de Estado, Paulo VI afirmou que “a Santa Sé se abstém de elevar com maior frequência e veemência sua legítima voz de protesto e de condenação” em defesa da Igreja que sofre “nos países submetidos a regimes ateus e totalitários”, “para não provocar males ainda maiores”.
Para Parolin, a política oriental da Santa Sé “teria contribuído de maneira significativa para a distensão no âmbito internacional”.
E, apesar dos resultados limitados, “aquela escolha foi acertada, segundo o julgamento unânime da historiografia”.
São João Paulo II e a queda do Muro Por fim, Parolin recordou São João Paulo II, o Papa da “queda do Muro”, que não interrompeu as negociações com os países do Leste Europeu, mas, “convencido da fragilidade dos regimes comunistas”, concentrou suas energias “na mobilização das consciências cristãs, no fortalecimento da identidade histórica e cultural dos povos europeus, enraizada no cristianismo, e na renovação da unidade do continente, que deveria voltar a respirar com ambos os pulmões”.
O objetivo não era apenas a queda do comunismo, “mas, sobretudo, a recristianização dos povos europeus”.
Essa esperança do Pontífice, concluiu o secretário de Estado, “permaneceu, porém, frustrada”.