Obra do padre Eleandro Teles propõe uma reflexão sobre a esperança cristã, a dignidade humana e a atualidade do pensamento de Joseph Ratzinger.
Leandro Ávila O pensamento de Bento XVI e sua profunda compreensão do ser humano ganham uma nova abordagem com a publicação do livro Uma Ética da Esperança: O Humanismo de Joseph Ratzinger – Bento XVI.
De autoria do padre Eleandro Teles e publicado pela Editora Benedictus, o livro será apresentado oficialmente no dia 19 de outubro de 2026, às 19h30, na Catholica Domus, em Caxias do Sul (RS).
A obra propõe uma reflexão profunda sobre o pensamento teológico e filosófico de Joseph Ratzinger, que, ao longo de sua vida e de seu pontificado como sucessor de São Pedro, ofereceu à Igreja e ao mundo importantes contribuições para a compreensão da esperança cristã, especialmente por meio da carta encíclica Spe Salvi, dedicada a esse tema.
A partir de suas reflexões, o autor destaca a esperança como fundamento da existência humana e elemento essencial para a construção de uma sociedade que reconheça e promova a dignidade de cada pessoa.
Ao aproximar o pensamento de Ratzinger dos desafios contemporâneos, o livro convida os leitores a aprofundar o diálogo entre fé e razão, esperança e responsabilidade, virtudes morais e vida em sociedade, oferecendo elementos para compreender como a mensagem cristã pode iluminar as inquietações e os desafios do nosso tempo.
A programação integra as atividades do Curso de Teologia de Caxias do Sul.
Durante o evento, o padre Eleandro Teles ministrará uma palestra sobre os principais temas da obra, proporcionando aos participantes um momento de reflexão e aprofundamento sobre o legado intelectual e espiritual de Bento XVI e a atualidade de seu pensamento.
O que o motivou a escrever Uma Ética da Esperança – O Humanismo de Joseph Ratzinger – Bento XVI e em que momento percebeu que o pensamento de Ratzinger poderia oferecer uma contribuição importante para os desafios do mundo atual?
Padre Eleandro - Essa publicação é fruto de longos anos de estudos sobre o pensamento do teólogo e Papa Bento XVI, especialmente no período de Doutorado em Teologia Moral, que realizei na Pontifícia Academia Alfonsiana, em Roma, Itália, concluído em 2025.
A escolha desse tema foi motivada por duas razões: a primeira diz respeito ao autor; a segunda razão se refere ao âmbito da pesquisa, a teologia moral fundamental, ou seja, os grandes temas da reflexão moral, como a verdade, a liberdade, a consciência, a dignidade humana, a lei moral natural e outros, dos quais Ratzinger se ocupa no arco de toda a sua obra teológica e magistério pontifício.
Em primeiro lugar, portanto, se trata de motivações de caráter pessoal, ou seja, o meu encontro com o pensamento ratzingeriano-beneditino, que se deu pela primeira vez através da Carta Encíclica Spe Salvi, quando ainda era seminarista estudante de teologia.
À medida que fui crescendo no conhecimento e estudo de seu magistério e de sua obra teológica, pude compreender que seu pensamento não correspondia em nada às críticas e caricaturas muito difundidas no Brasil, retratando-o como um teólogo retrógrado, “o grande inquisidor” do Vaticano e autor de uma “teologia desencarnada”, desligada da vida concreta, alheia aos problemas sociais e políticos e aos grandes dramas do homem contemporâneo.
Progressivamente fui me surpreendendo com a formidável lucidez, profundidade e, ao mesmo tempo, simplicidade do seu pensamento teológico.
Ratzinger se preocupa com as grandes questões éticas do nosso tempo, pois vê nelas o fundamental vínculo entre a doutrina cristã e a moral, entre fé e vida.
Para ele, a fé cristã ou é “performativa” ou não serve para nada.
Estamos diante de um pensador que sempre procurou chegar à raiz dos problemas humanos à luz da fé.
Em segundo lugar, a escolha do tema se deve à importância e à atualidade do assunto mediante o contexto cultural e sócio-político de todo o Ocidente e, de modo particular, da América Latina e Brasil, ou seja, o desafio de conceber um novo humanismo, integral e solidário, recuperando as raízes cristãs do Ocidente, capaz de dialogar com o novo milênio que se inicia marcado por um avançado processo de descristianização, secularismo cultural, relativismo ético e laicismo político.
O título fala em “ética da esperança”.
Como define esse conceito e de que maneira ele se relaciona com a visão de ser humano, fé, razão e verdade presente no pensamento de Joseph Ratzinger?
Padre Eleandro - A expressão “ética da esperança”, como eu a apresento na obra, significa um conjunto de princípios morais, ou seja, princípios e valores que orientam o agir consciente e responsável do ser humano nos diversos contextos e situações da vida concreta, recolhidos e sistematizados a partir da vasta obra do teólogo e de seu magistério como Papa.
O que eu procuro demonstrar é que esse pensamento ético e humanista de Ratzinger é totalmente fundamentado na “esperança”, ou seja, na escatologia cristã, que por sua vez “abraça” a antropologia.
Isso diz respeito à visão integral que Bento XVI possui sobre o ser humano, ou seja, um ser pessoal que se constitui a partir das relações com Deus, com os outros e com o mundo.
Nesse contexto, felicidade e liberdade, fé e razão, verdade e amor são os grandes temas da teologia moral e do humanismo que atravessam toda a obra de Ratzinger-Bento XVI.
Poderíamos sintetizá-los todos numa única ideia: a esperança.
Secular, imanente, cristã, ou simplesmente humanista, a esperança é sem dúvida um dos grandes temas da atualidade, talvez a questão mais enigmática e inquietante que o homem pós-moderno pode colocar-se.
O cristianismo pretende ser uma Boa Nova de esperança para um mundo cansado, que vem de grandes desilusões; um mundo que optou pela proposta moderna do humanismo ateu e, professando essa fé, acreditou religiosamente em sedutoras utopias políticas que prometiam o paraíso terrestre, mas criaram um verdadeiro inferno sobre a terra.
Para Ratzinger, o tema da moral está entre as maiores urgências do cenário atual.
Trata-se, mais do que nunca, de uma questão de sobrevivência da humanidade.
Em um contexto marcado por crises de valores, individualismo e incertezas, quais aspectos do humanismo de Ratzinger considera particularmente importantes para compreender o papel do cristão e da Igreja na sociedade contemporânea?
Padre Eleandro - No contexto atual, que Ratzinger chama de “crise da esperança”, diante dos desafios sempre maiores da secularização, laicismo, materialismo e niilismo pós-modernos, que produzem uma “ditadura do relativismo”, a Igreja e cada cristão batizado possuem a urgente missão de anunciar, de forma incansável e corajosa, a esperança do Evangelho.
Essa esperança tem o real poder de promover uma verdadeira revolução moral: a “revolução de Deus” na história humana.
Somos missionários dessa Esperança, que não é uma teoria filosófica e abstrata nem uma ideologia política ou pauta partidária, mas é uma pessoa: Jesus Cristo ressuscitado.
Viver conforme essa Esperança significa agir concretamente conforme o Evangelho, anunciando e defendendo aqueles “valores inegociáveis” da dignidade e inviolabilidade da vida humana, e os direitos fundamentais do ser humano, entre eles a liberdade religiosa; significa adotar uma visão integral da fé cristã, compreendendo corretamente e assumindo a “opção preferencial pelos pobres”, o cuidado com a “casa comum” e a “ecologia humana”, conceitos centrais no pensamento humanista do Papa teólogo, sempre em sintonia com o Concíclio Vaticano II e a Doutrina Social da Igreja.
No humanismo cristão, o primeiro grande humanista é o próprio Deus.
A mensagem cristã mostra quanto o homem é importante para Deus e Deus para o homem.
Na visão de Ratzinger, a raiz última do ódio e de todos os ataques contra a vida humana é a perda de Deus.
Onde Deus desaparece, desaparece também a dignidade absoluta da vida humana.
O que faz que o homem seja realmente homem, portanto, é Deus.
Só Ele é o penhor da humanização do homem.
Por isso, para recuperar o homem é preciso recuperar Deus.
Deus é hoje, mais do que nunca, a única força moral e existencial que pode salvar o homem e o mundo da autodestruição.
O lançamento acontece em Caxias do Sul, com uma palestra sobre o tema da obra.
O que espera provocar no leitor e nas pessoas que participarão deste encontro, e qual seria a principal mensagem que gostaria que elas levassem consigo após conhecerem o livro?
Padre Eleandro - “Estejam sempre prontos para dar razões de sua esperança” (1Pd 3,15).
Escatologia é essencialmente esperança; é o horizonte de toda a teologia cristã e, por conseguinte, também da teologia moral.
No entanto, a esperança cristã não está apenas no fim, não é somente a meta do peregrinar humano neste mundo, mas, exatamente por isso, a esperança é também o princípio, ou seja, a fonte de sentido para todo o agir moral do ser humano e o fundamento que o sustenta.
Este livro é um convite para viver respondendo a um amor que nos espera e nos ama.
Significa “viver na pretensão do eterno”.
Num mundo que havia declarado a morte de Deus, Ratzinger desafia o homem contemporâneo a viver ancorado na eternidade.
Desejo que essa obra possa inspirar aqueles que buscam “ancorar” suas vidas naquela Esperança que não decepciona (Rm 5,5).
Pe.
Eleandro Teles é presbítero do clero da Diocese de Caxias do Sul - RS.
Ordenado sacerdote em 2009, atualmente é Reitor do Seminário Maior São José, em Caxias do Sul - RS, e professor de Teologia Moral na Universidade Franciscana (UFN), em Santa Maria - RS, atuando na formação dos seminaristas e leigos.
Possui graduação em Filosofia pela Universidade de Caxias do Sul (UCS) e em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em Porto Alegre; mestrado em Teologia, também pela PUCRS; e doutorado em Teologia pela Pontifícia Academia Alfonsiana – Instituto Superior de Teologia Moral da Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma, Itália.
Você também pode adquirir o livro pelo site da Livraria Benedictus.