Nesta Sexta-feira da Paixão, Padre Robison Santos partilha sua experiência no Monte Athos e reflete sobre como a herança dos Padres do Deserto e a quietude interior podem nos ajudar a redescobrir a unidade cristã.
Pe. Rodrigo Rios – Vatican News Nesta Sexta-feira, nossos corações se voltam também para preces universais, nas quais, durante a solene Ação Litúrgica da Paixão, rezaremos inclusive pela unidade de todos os cristãos. Para iluminar este momento, trazemos hoje um diálogo com o Padre Robison Inácio de Souza Santos, sacerdote da Diocese de Guaxupé, no Brasil, e doutorando em Teologia Dogmática pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Recentemente, entre 19 e 27 de março de 2026, Padre Robison viveu uma experiência singular de mergulho nas fontes da espiritualidade oriental ao peregrinar pelo Monte Athos, na Grécia, um território de milenar tradição monástica ortodoxa onde o tempo é regido pela liturgia e pelo silêncio. Nesta entrevista, ele partilha como a herança dos Padres do Deserto e a prática do ecumenismo espiritual podem nos ajudar a derrubar os muros das divisões e a redescobrir a beleza da "unidade que Deus quer", vivenciada na oração e na caridade. O Monte Athos é um território autônomo dedicado exclusivamente à vida monástica ortodoxa, fechado para muitas das modernidades ocidentais. Como foi para o senhor, um sacerdote da Igreja Católica Romana, ser recebido naquele ambiente e qual foi o maior choque, ou a maior semelhança espiritual, que encontrou ao rezar com os monges ortodoxos? Fiz a peregrinação ao Monte Athos como membro de um grupo muito diversificado, organizado pela associação italiana Insieme per l’Athos que promove a espiritualidade athonita. No grupo havia ortodoxos e católicos provenientes da Itália, Romênia, Polônia e Ucrânia. Eu era o único brasileiro. Quanto à hospedagem, fomos acolhidos, caridosamente, nos Monastérios de Grigoriou, de Dionysiou e de Agiou Pavlou Xeropotamou e também numa Chilia (eremitério). Quanto aos membros, merecem destaque as formações e as motivações muito diversificadas. Havia profissionais formados no âmbito do direito, da medicina, da farmacologia, da química e trabalhadores da construção civil. Além de mim, havia outro sacerdote católico romano, da Diocese de Padova, na Itália. Alguns do grupo buscavam fazer aprofundamento espiritual, outros queriam conhecer a Santa Montanha e outros ainda buscavam milagres para problemas de saúde. Eu fiz a peregrinação com intuito de fazer uma experiência de aprofundamento espiritual e também de conhecer a Santa Montanha. Chamou-me a atenção o profundo espírito de acolhimento dos monges, especialmente, daqueles que habitam as chilias (eremitérios) e levam vida eremítica! Em todos os eremitérios visitados, fomos muito bem acolhidos com oferecimento de água, chá e algo para comer (pão ou fruta). A coisa mais preciosa que os monges têm para oferecer, além do belo testemunho evangélico, são os conselhos espirituais simples, profundos e de grande aplicabilidade! Durante a semana de peregrinação pelo Monte Athos, pude compartilhar experiências e momentos de oração litúrgica com muitos monges. O que me tocou, profundamente, foi o contato com a herança espiritual dos Padres do Deserto. Os monges athonitas conservam essa herança como tesouro preciosíssimo! Trata-se de uma herança compartilhada entre os ortodoxos e os católicos porque remonta aos tempos da Igreja indivisa. Hoje, durante a Oração Universal, a Igreja Católica reza solenemente pela unidade dos cristãos. Tendo convivido com os ortodoxos no Athos, o senhor acredita que a unidade é algo que encontraremos em acordos teológicos no futuro em Roma e Constantinopla, ou ela já acontece "no chão da oração", como o senhor vivenciou na Grécia? No âmbito ecumênico, os acordos teológicos têm a finalidade de clarificar pontos doutrinais sensíveis, superar as divergências e levar à celebração de consensos. Sem dúvida eles concorrem para a restauração da plena comunhão. Entretanto, é importante dizer que com a promulgação do decreto conciliar Unitatis Redintegratio em 1964 e, posteriormente, com a promulgação da encíclica Ut unum sint de São João Paulo II em 1995, a Igreja Católica investe, sobremaneira, no ecumenismo espiritual como força motriz de todo empreendimento ecumênico. Por ecumenismo espiritual entende-se uma constante abertura interior, fruto da conversão do coração e da santidade de vida, que leva o cristão a orar, incessantemente, pela unidade da Igreja de Jesus Cristo (cf. Unitatis Redintegratio 8). O ecumenismo espiritual baseia-se na convicção de que a plena unidade da Igreja há de ser, antes de tudo, um dom do próprio Deus e não um mero fruto de acordos e convenções humanas, embora esses sejam importantes no exigente caminho ecumênico. Acerca desse tema, eu gosto de usar a expressão cunhada pelo Padre Paul Couturier (1881-1953), grande promotor do ecumenismo, “a unidade que Deus quer, pelos meios que Ele quiser, no tempo que Ele quiser.” Durante a minha estadia no Monte Athos, pude experimentar aspectos da unidade cristã que já acontecem, mesmo antes da restauração da plena comunhão entre ortodoxos e católicos. Trata-se da unidade no âmbito prático da oração pessoal e comunitária, da penitência, do testemunho, da acolhida e da caridade. Na tradição ortodoxa, existe uma ênfase muito forte na "Hesicasmo" (a oração do estado silêncio, da profunda paz). Na Sexta-Feira da Paixão e no Sábado Santo, mergulhamos no silêncio da morte de Cristo. De que forma a sua peregrinação à "Montanha Sagrada" o ajudou na percepção sobre o silencio? Hesiquia significa quietude ou silêncio interior. Não se trata de ataraxia (imperturbabilidade ou indiferença) epicurista ou estoica. A hesiquia é o estado interior que envolve a integralidade da pessoa humana (corpo, alma e espírito). Na prática do hesicasmo, experimenta-se a paz profunda advinda da união com Deus que se dá por meio da purificação do coração e da mente e da invocação do nome de Jesus. Quietude e paz concorrem para conservação do silêncio que permite escutar a Palavra de Deus, contemplar os santos mistérios da salvação e deles participar. A quietude e o silêncio no Monte Athos não são momentâneos, são perenes e ajudam a forjar, espiritualmente, aquela realidade divino-humana. Eles permitem compreender o significado da “Filocalia” que é o amor à beleza de Deus que se manifesta, concretamente, na vida do homem espiritual que já venceu a si mesmo e já foi transfigurado. Muitos fiéis católicos desconhecem a riqueza da tradição oriental. O que o senhor trouxe do Monte Athos na sua "bagagem espiritual" que pretende compartilhar conosco neste Tríduo Pascal? Os monges athonitas conservam viva a herança espiritual dos Padres do Deserto. Isso significa que são, completamente, entregues às práticas ascéticas. Tudo na Santa Montanha concorre para o exercício constante da oração e da penitência. Por exemplo: mesmo sendo início de primavera, ainda fazia muito frio e não havia água quente para o banho. Por conta de ser Quaresma, foi-nos oferecida apenas uma refeição frugal por dia, ou seja, um pouco de pão, um prato de sopa de legumes e alguns vegetais crus. Algo que me tocou, profundamente, e que eu fiz questão de trazer na minha bagagem espiritual é que o tempo litúrgico dita as regras para a vida cotidiana. A vida acontece e é iluminada pelos mistérios que a Igreja está celebrando. Entre nós católicos romanos era assim também até algumas décadas atrás. Percebo que no ocidente, os processos de secularização e uma espécie de ditadura da praticidade levaram a uma dissociação entre fé e vida corrente e ao abandono de práticas ascéticas que são muito salutares para uma autêntica vida cristã. Urge superar essa dissociação e recuperar tais práticas. Muitas vezes, as diferenças históricas e dogmáticas criam muros entre católicos e ortodoxos. Diante da imagem de Cristo Crucificado, que não tem fronteiras, qual é a mensagem que o senhor deixa para os cristãos que hoje rezam pela unidade, mas que ainda olham com desconfiança para os irmãos de outras tradições? Olivier Clément, teólogo ortodoxo que foi muito ativo no movimento ecumênico do século XX, teceu uma crítica pertinente ao confessionalismo. No seu parecer, o confessionalismo se apoia, demasiadamente, nos pontos divergentes entre as diferentes denominações cristãs, dificultando a aproximação e o diálogo. Considero necessário estabelecer uma distinção entre confessionalismo e confissão de fé. O confessionalismo é uma estrutura que tem por substrato uma ideologia. Ele se consolida com base em condicionamentos geográficos, históricos e culturais. A confissão de fé é uma realidade viva imprescindível para uma Igreja. Ela se consolida com base nos dados revelados, conservados e transmitidos por meio da Sucessão Apostólica. Enquanto o confessionalismo erige muros de difícil transposição, a confissão de fé constrói pontes que possibilitam acesso recíproco e intercâmbio. Fiéis à nossa confissão de fé, que a nossa oração durante o dia em que celebramos a paixão e a morte do Senhor Jesus, ajude-nos a recordar e a compreender o sentido de uma das últimas vontades do nosso Mestre. Ele a verbalizou no contexto da última ceia, enquanto orava pelos seus discípulos: “Que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim, e eu em ti” (Jo 17, 21).