Da Basílica de Nossa Senhora de África, ao Centro de Acolhimento e de Amizade das Irmãs Agostinianas, em Bab El Oued, em Argel, até à Basílica de S. Agostinho em Annaba, onde terá lugar a Missa, tudo está em efervescência e alegria para acolher da melhor forma, Leão XIV que, nas pegadas do seu pai espiritual vem trazer uma palavra de paz e encorajamento à convivência entre pessoas de culturas e religiões diferentes e em que a Igreja católica é numericamente pequena, mas simbolica mente grande.
Dulce Araújo – Em Argel Séculos depois da marcante vivência de Santo Agostinho em terras da atual Argélia, este país charneira entre o Mediterrâneo e a África subsaariana, se prepara para receber pela primeira vez um Pontífice, por sinal um filho espiritual do famoso Santo. Não há sinais externos disso. À parte obras de embelezamento e adaptação pelos lugares por onde o Papa vai passar ou ter eventos, como em frente da Basílica de Nossa Senhora da África, nada de bandeirinhas do Vaticano pelas ruas ou cartazes a evocar a visita, na capital argelina. Mas, no coração de muitos dos seus habitantes e de modo particular da pequena minoria católica, o evento é de grande relevo socio-religioso. “A Paz esteja convosco”, as primeiras palavras de Leão XIV após a sua eleição à Sé de Pedro, é o mote desta sua visita à Argélia, país que passou na década de 90 por um terrível conflito entre forças internas e que provocou milhares de vítimas, entre os quais 19 figuras da Igreja católica entre os quais um bispo, religiosas e monges, mais tarde elevados às honras dos altares. O país superou, mas a paz precisa de ser consolidada. Leão XIV vem então como mensageiro de paz para todos, independentemente da religião, cor política ou condição social. E nesta República Democrática e Popular, de religião muçulmana, um dos momentos simbólicos da visita é precisamente o encontro com a comunidade argelina na Basílica Nossa Senhora da África, em Argel, em que tomarão a palavra uma católica, uma pentecostal e uma muçulmana. Essa bela Basílica, em estilo bizantino, erguida no cimo duma colina no centro norte de Argel, remonta ao século XIX e é “um lugar de encontro diálogo e partilha fraterna entre muçulmanos e cristãos” explica o P. Alain Mugisho, Missionário da África, natural da República Democrática do Congo, coordenador diocesano dos jovens em Argel, empenhado também nas paróquias de Tizi Ouzu e Boumerdés. Testemunho dessa partilha fraterna é a grande escrita em mosaico sob a circunferência da cúpula e que reza: “Nossa Senhora da África intercedei por nós e pelos muçulmanos”. E nesta especial ocasião do encontro com o Papa, para o qual se prevê cerca de 1500 participantes, dentro e fora da Basílica, menos do que os pedidos recebidos – revela o reitor, P. Peter Claver Kohg, ganês, falarão uma religiosa católica, uma pentecostal e uma muçulmana. A irmã Solange, religiosa da Imaculada Conceição de Ougadougou (Burkina Faso) veio de Oran para ajudar nas preparações. “Faço-o com muita alegria e amor” – sublinha, recordando que de Oran, onde trabalha no Centro de Acolhimento Piere Claverie, virá uma ampla delegação, como de resto doutras localidades do país, para ver e ouvir a mensagem do Papa. A Igreja na Argélia atua sobretudo na construção de relações amistosas com os argelinos. E é neste espírito que se inscrevem as atividades do Centro de Acolhimento e de Amizade das Irmãs Agostinianas Missionárias em Bab El Oued, Comuna popular de Argel, onde os preparativos eram também vistosos nesta vigília da chegada do Papa. A população do bairro, que muito aprecia a presença das irmãs e as atividades que desempenham com mulheres e crianças – educação para crianças, formação das mulheres na criação de bijou artesanal, entre outras atividades, até ofereceram um bolo às irmãs, em sinal de agradecimento por estarem na origem deste grande evento da vinda do Papa, ocasião de melhoramento da rua. “Eles sabem que somos cristãs e somos bem aceites” explica a irmã Julie, indiana, há 26 anos neste centro. Outrora uma das três comunidades das Agostinianas, o Centro permaneceu fechado por quase uma década, depois que duas delas, a irmã Esther Paniagua e a Irmã Caridade Alvares, espanholas, foram mortas no conflito a 23 de outubro de 1994. Tudo no centro recorda a sua vivência ali, inclusive na Capela, onde receberão o Papa. É uma presença viva e de encorajamento a estar sempre ao lado do povo, não obstante os momentos difíceis. Também Cristo sofreu, mas não desistiu, até à Ressurreição, diz visivelmente comovida, a Irmã Lourdes Miguélez, chilena, que as viu morrer e que agora gere o centro juntamente com a irmã Julie. Para esta última “receber o Papa é receber o nosso irmão, somos agostinianas, recebê-lo nos dá grande alegria” afirma, salientando a paz que o Papa vai trazer ao país todo e por isso é aguardado com grande alegria. E à pergunta como imagina o pós-visita para o país, sublinha que provavelmente a “Argélia vai abrir mais”, mas em todo o caso “somos já bem acolhidos, sentimo-nos em casa”, “não temos medo, eles nos amam e nós os amamos”. O Papa deter-se-á em oração na Capela e numa das salas ao lado, as artesãs preparam uma exposição das suas obras de arte para mostrar ao Papa. Uma partilha serena da vida quotidiana com os mais necessitados da cidade de Argel, onde sobressai com o seu alto e moderno minarete a Grande Mesquita. É a terceira maior do mundo, depois de da Meca e Medina e com o mais alto minarete: 267m. Tem capacidade para 120 mil fiéis, que a ela podem aceder 24 horas por dia. O Papa ali deter-se-á em oração silenciosa, depois de encontrar o Reitor, Mohamed Mamoun, em presença do Arcebispo de Argel, Cardel Jean-Paul Vesco e do Cardeal George Jacob Koovakad. Antes desses momentos socio-religiosos, o Papa lançará um olhar à situação no mundo a partir da realidade argelina ao encontrar primeiro o Presidente, Abdelmadjid Teboune e o Corpo Diplomático. Não menos importante a visita ao Monumento dos Mártires, onde Leão XIV depõe uma coroa de flores e presta homenagem aos tombados pela liberação da Argélia do jugo colonial francês, mediante uma terrível guerra que durou de 1954 a 1962, ano da independência. Argélia irá de facto dar o seu apoio em termos militar, diplomático e mesmo económico aos outros países ainda em luta pela independência, comos os PALOP, a Namíbia, e outros ao ponto de ter sido definido por alguns a “Meca dos Revolucionários”. Será assim o primeiro dia da visita de Prevost à Argélia, uma visita articulada em duas etapas, sendo a segunda, na terça-feira, dedicada a Annabá, ou Hipona, onde, nas pegadas de Santo Agostinho, em cuja Basílica terá lugar a Santa Missa. Para esta celebração acorrem muitos fiéis, inclusive, estudantes da África subsariana, que irão das quatro dioceses da Argélia, e quem os Padres agostinianos em Anabá procuram incutir o sentido do bem comum e a descoberta dos seus talentos próprios, diz o P. Fred Wekesa, agostiniano, do Quénia, reitor da Basílica Santo Agostinho em Annaba. Antes da Missa, o Papa visitará as ruínas da cidade, antigamente chamada Hipona e de que Santo Agostinho foi Bispo de 396 à sua morte em 430.