O projeto de restauração do “Estúdio de Mosaicos do Vaticano” ou Fábrica de São Pedro, envolveu 371 metros quadrados de decoração, criada entre 1601 e 1604. Das tesselas, que medem apenas alguns milímetros, à hipótese de algumas figuras terem sido compostas "em cavalete", o projeto também proporcionou novas perspectivas sobre a técnica dos mosaicistas do início do século XVII.
Paolo Ondarza – Vatican News Quem pensa na Basílica de São Pedro, Vaticano, dirige, imediatamente, seu pensamento à grande cúpula de Michelangelo.
São bem menos conhecidas as demais cúpulas, que compõem a Basílica, entre as quais a da Capela Clementina, no canto sudeste do transepto de Michelangelo, atrás do monumento funerário do Papa Pio VII.
Trata-se de um espaço isolado, quase escondido, cuja rica decoração pode agora ser apreciada novamente, graças à campanha de restauração realizada pelo “Estúdio de Mosaicos do Vaticano”. [ Photo Embed: Os estuques e os mosaicos restaurados] A Capela Clementina recebeu o nome de Clemente VIII Aldobrandini, que, em 1601, encomendou algumas obras decorativas, como parte de um programa ornamental mais amplo para a nova Basílica de São Pedro.
Os mosaicos da abóbada foram criados entre 1601 e 1604, com base em desenhos de Cristofano Roncalli, conhecido como Pomarancio, por Paolo Rossetti, Marcello Provenzale e seu ateliê.
A cúpula é dividida em oito segmentos, separados por elementos de estuque dourado, que apresenta um complexo programa iconográfico com simbolismo mariano recorrente: da pomba do Espírito Santo aos querubins, das fênix às estrelas, até às figuras da Virgem e São José. [ Photo Embed: A simbologia nos mosaicos da cúpula da Capela Clementina] Canteiro de obras de 371 metros quadrados A restauração, iniciada após um período crítico, relatado em 2008 e considerado seguro em 2015, permitiu um exame sistemático de toda a superfície da cúpula: cerca de 371 metros quadrados, cujo acesso era possível por meio de andaimes em nove níveis. [ In Evidence ] Depósitos superficiais, eflorescências salinas, tesselas móveis, descolamentos e desintegrações afetaram particularmente certas partes da decoração e as preciosas tesselas de ouro. [ Photo Embed: O andaime do canteiro de restauração] A intervenção foi possível de acordo com os critérios de reversibilidade, compatibilidade e intervenção mínima.
Em primeiro lugar, foram implementadas medidas de segurança, seguidas de limpeza e consolidação: um processo extremamente meticuloso, que também envolveu as tesselas individuais e as coberturas que protegiam a lâmina de ouro.
A remoção da eflorescência e dos depósitos restituiu a legibilidade das cores e uma nova luminosidade dourada. [ Photo Embed: Os mosaicos antes e depois da restauração] Tesselas de apenas alguns milímetros Os andaimes não ofereceram apenas a oportunidade de intervir sobre a deterioração, mas permitiram também que os visitantes vissem o mosaico a uma distância normalmente impossível de ser visto e observassem detalhes invisíveis do pavimento da Basílica. [ Photo Embed: Os detalhes dos mosaicos] "Algumas partes da decoração foram feitas com tesselas muito pequenas, às vezes de apenas 3 a 4 milímetros", explica Paolo di Buono, diretor do “Estúdio de Mosaicos do Vaticano”.
Esta foi uma escolha surpreendente, sobretudo, porque a cúpula foi projetada para ser vista de uma grande distância.
O tamanho extremamente pequeno das tesselas permitiu uma maior gradação de cores e nuances refinadas, especialmente nas tonalidades escarlates. [ Photo Embed: A cúpula da Capela Clementina] Uma observação atenta também levou a uma hipótese sobre a técnica de execução.
Em algumas partes anatômicas, especialmente nos rostos e figuras de anjos e querubins, foram identificadas diferenças de nível em relação ao fundo.
Isso poderia indicar que algumas partes não foram criadas diretamente na cúpula, mas em um laboratório, posteriormente transportadas e aplicadas no local.
Paolo di Buono esclarece que esta é uma hipótese, ainda não confirmada por documentos de arquivo. [ Photo Embed: O canteiro de obras da restauração] O relatório sobre a restauração considera esta interpretação com base também na delicadeza da execução e na presença de conexões e linhas de corte, que parecem indicar diferentes etapas de produção.
Se confirmada, seria um desenvolvimento significativo na história da decoração em mosaico da Basílica de São Pedro. [ Photo Embed: Os detalhes decorativos dos mosaicos] Ouro e azul A restauração também restituiu a evidência ao diálogo cromático entre o ouro e o azul, elemento de origem bizantina que caracteriza a cúpula. O trabalho em estuque ajudou a realçar o douramento das pilastras e nervuras, que destacam os oito segmentos da abóbada: um trabalho realizado em estreita colaboração entre mosaicistas, restauradores e estucadores. [ Photo Embed: Os estuques e os mosaicos restaurados] Também a técnica reflete o contexto cultural em que a decoração foi realizada.
A escolha do mosaico precioso, com esmaltes e ouro, inspirou-se na tradição da igreja antiga e da Basílica de Constantino, enquanto o programa figurativo se inseriu no clima da Contrarreforma e em temas queridos pela sensibilidade pós-Tridentina. [ Photo Embed: O arquivo digital da restauração] Restauração que se torna memória digital Finalmente, um novo desenvolvimento diz respeito à documentação do local da restauração.
Pela primeira vez, em uma campanha deste tipo na Fábrica de São Pedro, foi utilizado um sistema BIM (Building Information Model - Modelo de Informação da Construção), para coletar e organizar, digitalmente, as informações que emergem durante o trabalho. Fotografias em alta resolução, dados relativos às intervenções e mapeamentos dos azulejos podem ser vinculados à posição exata na superfície da cúpula. [ Photo Embed: Instalação do andaime] O sistema permite o mapeamento até ao centímetro quadrado e preserva um registro detalhado da restauração, acessível mesmo remotamente e útil para quaisquer intervenções futuras. [ Photo Embed: Os estuques restaurados] Assim, enquanto a limpeza trouxe à luz uma decoração, que data mais de quatro séculos, a tecnologia entrega ao futuro a memória do que foi feito para preservá-la. [ Photo Embed: Uma etapa dos trabalhos de restauração] Assinaturas de restauradores de um tempo Não foram apenas os mosaicistas e artistas do século XVII a deixar vestígios sobre seus trabalhos.
Uma observação cuidadosa, graças aos andaimes, também revelou anotações a lápis, datadas dos séculos XVIII e XIX, deixadas por funcionários da Fábrica de São Pietro que, periodicamente, trabalhavam na decoração.
Trata-se de anotações relacionadas às operações de manutenção e contagem das horas de trabalho: limpeza dos mosaicos, repintura de certas partes da douradura, trabalho nas pilastras.
Era uma espécie de diário da pré-construção (ante litteram), no qual os artesãos documentavam seu trabalho diretamente na superfície da capela. [ Photo Embed: As assinaturas a lápis dos “sampietrini”] "Eles anotavam tudo como fazemos hoje", - diz um dos restauradores, - "mas colocamos a documentação em um iPad, com tecnologias mais sofisticadas.
Eles faziam isso no momento, mas deixaram um testemunho do que fizeram". [ Photo Embed: O desprendimento no brasão de Clemente VIII, que deu origem à campanha de restauração] Memória da restauração Este, talvez, era um dos aspectos mais evocativos que emergem do projeto de restauração: a conservação não se refere apenas à obra em si, mas também à memória dos que dela cuidaram ao longo dos séculos.
As anotações a lápis deixadas pelos restauradores nos séculos XVIII e XIX hoje são colocadas na documentação digital, destinada a relatar as intervenções realizadas no presente. [ Photo Embed: Detalhe da obra de restauração] A restauração da cúpula da Capela Clementina conclui-se, assim, com uma dupla restituição: a decoração retoma seu brilho original, enquanto a sua história é confiada a uma nova memória, para que os que virão no futuro saibam não só o que foi preservado, mas também o trabalho necessário para continuar a preservá-lo.