Relatos e imagens da capital francesa que receberá o Papa nesta sexta-feira (25/09). Uma visita que vai além da imagem romântica da cidade, durante a qual o Pontífice poderá vivenciar em primeira mão a integração social na Maison Bakhita, a pobreza material de Saint-Denis e aquela espiritual — que pode ser suprida pelo patrimônio histórico e artístico preservado na Notre-Dame e promovido pela Unesco, símbolo de uma beleza que, na Cidade-Luz, está mais que presente.
Edoardo Giribaldi – enviado a Paris “Paris é uma festa itinerante”, escrevia Ernest Hemingway em seu livro de memórias inacabado, transfigurando a sacralidade das celebrações religiosas que não têm data fixa no espírito da capital francesa dos Anos 20 do século passado.
O manifesto Lost Generation, que lamentava a busca às cegas pelos “bons velhos tempos, quando éramos muito pobres e muito felizes”.
Cem anos depois, a ideia oxímora de uma festa tingida de melancolia se traduz no olhar dos beneficiários do centro periférico de acompanhamento e integração social Maison Bakhita e nos jovens de Saint-Denis, cidade situada a nordeste da Cidade-Luz.
Aqui, “brutalista” não se refere tanto ao estilo arquitetônico do famoso complexo residencial de habitação social Îlot 8, mas à condição de um bairro onde 30% da população vive abaixo da linha da pobreza.
Olhos, os das novas gerações, que olham para os próprios sapatos, intimidados com reverência diante da ideia de que na noite de sexta-feira, 25 de setembro, o Papa Leão XIV os encontrará no Stade de France: um estádio que simboliza uma tentativa, parcialmente bem-sucedida, de conciliar ambições de requalificação urbana com a superação de estigmas sociais persistentes.
A “meia-noite” dos jovens parisienses A vigília de oração será o último ato do primeiro dia do Pontífice na capital francesa.
Com início previsto para as 21h, é provável que a “Midnight in Paris” — título do filme de Woody Allen em que a ideia de Paris como uma “festa itinerante” se torna o eixo narrativo da trama — seja vivida pelos 80 mil jovens que participarão do evento, e por aqueles que o acompanharão de fora, com as palavras do Papa ainda no coração. “Espero simplicidade e leveza”, diz Nicola à mídia vaticana; ele faz parte da Missão Católica Italiana de Paris, confiada desde 1936 aos cuidados pastorais dos missionários scalabrinianos. “A mensagem de Jesus nos dá serenidade em um momento de enorme ansiedade”, explica, por sua vez, Isabelle, imagem do paradoxo de um Estado que, historicamente, fez da laicidade seu pilar fundamental, mas que, ao mesmo tempo, vê crescer o número de catecúmenos, especialmente entre os jovens. [ Photo Embed: Em uma vetrine, o anúncio da chegada do Papa em Paris] A antítese visual dos grandes eventos Assim como em “Midnight in Paris”, refletir sobre os locais que Leão XIV visitará durante sua estadia em Paris significa transformar a cidade em um portal espiritual e temporal que ultrapassa as barreiras do tempo.
Percorre-se os 2,5 quilômetros que o Papa irá fazer no papamóvel, seguindo o fio condutor das bandeirinhas amarelo-brancas do Vaticano (foram distribuídas cerca de 350 mil) que pontuam as avenidas do Montparnasse e Saint-Michel.
Já se percebe a antítese visual que caracteriza os grandes eventos: a leveza dos quase 500 mil peregrinos esperados em Paris e a austeridade daqueles que garantirão o normal desenrolar da viagem apostólica: 15 mil policiais, gendarmes e forças militares da Opération Sentinelle, a missão do exército francês criada em 12 de janeiro de 2015, após os atentados terroristas ocorridos justamente em Paris, na redação do jornal Charlie Hebdo.
Vale destacar que também haverá 15 mil voluntários envolvidos, apoiados por mais de 30 quilômetros de barreiras instaladas em todos os locais e 50 telões montados para acompanhar os diversos momentos da visita.
Entre aqueles que prestarão serviço está também Pierre-Alexis Le Marchand, que contou à mídia do Vaticano sobre a expectativa dele e de seus colegas por palavras de reconciliação e unidade por parte do Bispo de Roma.
Lux Nova Se a Basílica de Saint-Denis é o berço da arquitetura gótica, o edifício em que se reconhece seu apogeu é a Catedral de Notre-Dame de Paris, no coração pulsante da cidade, a Île de la Cité, onde o Papa celebrará as vésperas no final da tarde com a comunidade eclesial local.
A luz que se infiltra pelas vitrais incrustadas nas laterais das naves vertiginosas não representa um mero elemento físico, mas a síntese da ideia de Lux Nova, desenvolvida no século XII, segundo a qual os raios de luz representam a manifestação concreta de Deus na Terra. [ Photo Embed: A Catedral de Notre-Dame de Paris com as bandeirinhas do Vaticano] A missa entre rupturas históricas Seguindo ao longo do Sena, a ordem da Idade Média choca-se com a ruptura iluminista, naquela Place de la Concorde onde jorrou o sangue das cabeças dos guilhotinados libertados do Ancien Régime, mas que, na tarde de sábado (26/09), será palco da missa presidida pelo Papa, para a qual já foram montadas tendas gigantescas e preparada uma tonelada de hóstias. [ Photo Embed: Place de la Concorde, onde o Papa irá presidir a missa] O Eliseu e a Unesco A uma curta distância, seguindo pela Rue du Faubourg Saint-Honoré, chega-se ao Palácio do Eliseu, construído em 1722 e hoje residência oficial de Emmanuel Macron, presidente da República Francesa, com quem Leão XIV se encontrará logo após seu desembarque no Aeroporto Internacional de Paris/Orly.
Contornando a Rive Gauche, chega-se finalmente, na Place de Fontenoy, à sede da Unesco, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, inaugurada em 1958, já visitada por São João Paulo II em 2 de junho de 1980 e concebida como um museu a céu aberto, integrando, entre outras obras, a obra-prima de Pablo Picasso, "A Queda de Ícaro".
A elas se somarão uma série de obras dedicadas à paz e outros tantos desenhos, sempre sobre o mesmo tema, criados por meninos e meninas parisienses.
Livres, de braços abertos Da Île de la Cité às periferias de Paris, as banlieues onde se desenvolve o projeto de integração social Maison Bakhita.
Na estrutura não se ouve o estrondo da história, mas o silêncio do mal-estar presente: o tilintar de correntes que antes eram externas, como as sofridas por Santa Josefina Bakhita, religiosa sudanesa e símbolo da luta contra a escravidão a quem o centro é dedicado, hoje tornadas mais internas.
E não menos prementes.
O Papa ouvirá histórias de “Libérations”, de libertações que chegaram “À bras ouverts”, de braços abertos, como os nomes das associações que levarão seus testemunhos perante o Pontífice.
Além disso, histórias “a mãos nuas”, sem nada mais a oferecer em troca além do próprio tempo: a filosofia que orienta a atuação da Aux Captifs la Libération, como contou seu diretor-geral, Thierry Desjuzeur.
Aqui e agora A celebração que o Papa levará a Paris será, portanto, literalmente itinerante; percorrerá locais que representam as diversas épocas da humanidade, estabelecendo uma conexão entre épocas, símbolos e sensibilidades diferentes entre si.
Talvez a mensagem de Leão XIV possa se assemelhar à do filme “Midnight in Paris”, onde personagens de épocas diferentes sentem saudades das épocas anteriores.
Do presente à Belle Époque, passando pelo Renascimento, cada um considera o que já foi como melhor do que o que é.
Os jovens de Saint-Denis, os assistidos na Maison Bakhita e suas esperanças pela chegada do Papa são, talvez, a síntese humana de uma juventude e beleza que, além da nostalgia, devem ser vividas aqui e agora.