Apenas dois eventos, mas muito intensos: a visita ao Lar da Pessoa Idosa e a missa na esplanada de Saurimo, para cerca de 40 mil fiéis que, não obstante o sol escaldante do meio dia, não deixaram de acorrer ao lugar para estar com o Santo Padre. E em Luanda a fechar as atividades o encontro com as forças vivas da Igreja: Bispos, sacerdotes, religiosas e religiosos e catequistas.
Dulce Araújo – Luanda Foi pelo Lar de Idosos, a cerca de 10km do centro da cidade, que Leão XIV iniciou a sua breve e histórica visita a Saurimo, a primeira de um Papa a essa cidade do Leste de Angola, na Província de Lunda Sul. Os 74 idosos ali residentes, mais de metade mulheres, acolheram-no com cânticos, manifestando a imensa alegria pela sua visita, o que tornou o seu dia “especial” – disse o Sr. Miguel, de 72 anos, a viver no Lar há cinco porque, afirmou, há parentes que não querem saber de ajudar os de “cabelo branco” e arranjam desculpas para os maltratar. Uma clara referência à feitiçaria, algo que emergiu com clareza do veemente testemunho de uma senhora, em língua chokwe. Referiu que os filhos a acusaram de ser a responsável de mortes na família e por isso ia ter um fim horrível. E ela respondeu: “Cresci-vos com amor e carinho e agora quereis matar-me?!.” Felizmente, conseguiu entrar para o Lar, onde se encontra há já algum tempo. O senhor Miguel explicou que a vida no Lar corre mais ou menos, por vezes falta alguma coisa, mesmo comida, mas quando acontece a Diretora faz todo o possível por resolver. Costumavam cultivar “mandioca” nas imediações do Lar, mas apareceu alguém a reclamar o terreno como sua propriedade e não puderam mais continuar. Quanto à questão alimentar, Maria Luiza Martins, Diretora de Gabinete Provincial da Ação Social e Igualdade de Género, sublinhou que o Lar goza de um orçamento mensal do Estado e que quando se lida com idosos é preciso ter em conta as falhas de memória. Ela deu, no início, as boas-vindas ao Santo Padre, sublinhando quão importante essa visita era para eles. Lar, sinónimo de família Leão XIV, partiu da palavra lar, que evoca família, para exprimir o desejo de que todos nesse Lar possam viver “num ambiente familiar” e mostrou-se certo de que Jesus, que gostava de visitar os seus familiares, também habita entre eles, quando - disse - “procurais amar-vos e ajudar-vos mutuamente, como irmãos e irmãs. Sempre que, depois de um mal-entendido ou de uma pequena ofensa, sois capazes de vos perdoar e reconciliar. Sempre que, alguns de vós ou todos juntos, rezais com simplicidade e humildade.” Leão XIV salientou a relação entre os cuidados aos mais frágeis e a qualidade de vida social e recordou que os idosos devem ser assistidos, mas sobretudo escutados, porque guardam a sabedoria de um povo e fizeram muitos sacrifícios, pelo que há que os agradecer. E agradecendo a todos quantos cuidam deles, assim como ao governo angolano, Prevost despediu-se, deixando-lhes a sua bênção e assegurando-lhes que leva no coração esse encontro com eles. Um povo sedento de ver e estar com Leão XIV Fora do Lar e ao longo do percurso, imensa gente, crianças, jovens, entre os quais muitíssimos escuteiros, adultos a querer testemunhar que o Papa é estimado em Angola, país de grande efervescência católica, como se viu também na missa numa esplanada, já na cidade de Saurimo. Ali, como já noutros momentos desta sua viagem apostólica, o Papa pôs em relação a Palavra de Deus com as disparidades sociais que as pessoas estão a viver em Angola, país rico em recursos não só humanos como também materiais. Basta pensar nesta região do Leste, rica em diamantes e com imensas potencialidades agrícolas, riquezas que nem sempre se revertem a favor de todos. Então há que se interrogar sobre o verdadeiro significado da palavra de Deus e sobre o uso que fazemos dele, se deixamos realmente que ilumine o nosso mundo, frisou o Papa. Concluída a missa nessa jornada histórica para Saurimo, Leão voltou a percorrer com um voo nacional os quase mil km que separam Lunda Sul de Luanda, onde teve a sua última atividade em Angola foi o encontro na Igreja Nossa Senhora de Fátima com aqueles que definiu de “forças vivas da Igreja”: bispos, sacerdotes, consagrados e consagradas, catequistas. Um encontro aqui também animado por cânticos conduzidos pelo P. Manuel dos Santos, da Diocese de Benguela; pelos testemunhos do catequista, Manuel de Almeida, e pela Irmã Margarida Adelaide que fez um retrato da vida religiosa no país. Tudo isso, deu a dimensão das alegrias, proezas e desafios desses responsáveis pela condução dos católicos em Angola. O Papa apreciou os planos que têm, realçou o papel do catequista em África que, disse, pode ser um modelo para o mundo; recomendou afirmação da própria identidade; formação permanente; ser bons testemunhos do Evangelho; a valorização da dimensão contemplativa; a perseverança no anúncio do Evangelho; a abraçar, sem medo, a Palavra de Cristo, denunciando injustiças e propondo a via da caridade cristã e o desenvolvimento integral. País destinado à paz e ao progresso Os angolanos anseiam por essa forma de desenvolvimento. Passos já se deram nesses 50 anos de independência, cuja primeira, infelizmente de guerra, mas muito, muito resta por fazer. Meios para fazer deste imenso e belo país uma perla, não faltam. Há só que saber usá-los a favor do bem de todos. É este, no fundo, a mensagem que Leão XIV deixa a Angola, país que – disse, citando João Paulo II, está destinado à paz e ao progresso. E o povo está pronto, ansioso disso, como demonstraram muitos testemunhos recolhidos ao longo desta viagem: desde representantes dos movimentos laicais, a escuteiros, a religiosos, sem falar em bispos e sacerdotes. O povo, quanto a ele, não perde um momento para sentir o calor da presença de Leão XIV, esperando horas a fio nas ruas, em frente da Nunciatura, onde o Papa pernoita, nos lugares das missas como Kilamba em Luanda e no belo cenário do Santuário da Muxima onde se rezou o terço. Mais um marco papal neste país, que recebera já João Paulo (1992) e Bento XVI (2009). Resta agora, da parte das autoridades, da Igreja, chamada a ser fermento na massa, ao povo todo, ruminar as reflexões que deixa e fazer delas um tesouro para o bem de toda a Nação angolana.