A missão da educação: conversa com o padre Anderson, Reitor PUC-Rio

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A missão da educação: conversa com o padre Anderson, Reitor PUC-Rio
Fonte: VATICANO

Por meio de reflexões profundas sobre secularização, pluralismo e a missão social da Igreja, a presença da educação católica renova sua vocação de serviço, fraternidade e construção de pontes em um mundo fragmentado. Conversa com o padre Anderson Pedroso, SJ, Reitor PUC-Rio.

Silvonei José – enviado a Montevidéu Em um cenário global e regional marcado pela polarização, pelas transformações culturais aceleradas e pelos desafiadores debates sobre a secularização, a educação católica emerge não apenas como um espaço de preservação do saber, mas como um campo dinâmico de encontro, escuta e diálogo transformador.

O encontro em Montevidéu na tarde deste sábado na Universidade Católica do Uruguai, reunindo ao redor do Papa Leão XIV lideranças educacionais, autoridades eclesiásticas e acadêmicos de toda a América Latina e Caribe, tornou-se o palco de uma profunda reflexão sobre o papel das universidades católicas na contemporaneidade.

O evento foi marcado pelo acompanhamento das orientações pontifícias e pelo resgate de marcos históricos de evangelização e promoção da dignidade humana no continente.

Entre as vozes mais ativas e expressivas desse debate está o padre Anderson Pedroso, SJ, Reitor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e Presidente da Organização das Universidades Católicas do Sul da América Latina e do Caribe (ODUCAL), que participou do encontro com o Santo Padre.

Em entrevista concedida às margens do evento à Rádio Vaticano – Vatican News, padre Anderson articulou uma visão esperançosa, realista e corajosa do papel da Igreja na sociedade plural, destacando que a “educação é o instrumento humilde, porém fundamental, de serviço ao bem comum”.

A escolha da capital uruguaia para sediar o encontro do Papa Leão com o mundo da educação não foi casual.

Montevidéu carrega uma trajetória histórica singular no tecido sociopolítico e religioso do Cone Sul.

Padre Anderson recordou que se trata de uma metrópole que sintetiza a convivência entre a tradição humanista e uma profunda cultura de secularismo estatal, oferecendo o ambiente ideal para testar e praticar a "cultura do encontro" preconizada pelo Magistério da Igreja.

O ambiente do encontro com o Papa esteve imbuído de um sentimento de comunhão transfronteiriça.

Conforme destacado pelo Reitor da PUC Rio, o sentimento de solidariedade entre nações vizinhas — como Brasil e Uruguai — fortalece a percepção de que os desafios da educação superior transcenderam as fronteiras nacionais e exigem respostas integradas de toda a América Latina. [ Photo Embed: Padre Anderson e Silvonei José] Memória e continuidade Ao refletir sobre o significado do momento presente, é impossível não olhar pelo prisma da história.

Há quase quatro décadas, Montevidéu acolhia a visita apostólica de São João Paulo II.

Naquela época, no final dos anos 1980, a Universidade Católica local dava seus primeiros passos, contando apenas três anos de fundação.

Hoje, - disse o sacerdote - essa mesma instituição consolidou-se como uma belíssima e incontestável realidade de excelência acadêmica e compromisso social.

O retorno das atenções pontifícias e do episcopado latino-americano a este mesmo solo simboliza um fio condutor de continuidade pastoral.

Nos anos o anúncio inicial, a coragem de fundar instituições de ensino confessional em tempos de transição política e social na América Latina.

Hoje, - disse - temos a maturidade institucional de uma universidade que dialoga abertamente com a cultura contemporânea, sem abdicar de sua identidade essencial.

A continuidade pedagógica e espiritual entre as visitas pontifícias ao longo das décadas demonstra que o compromisso da Igreja com o ensino, com a ciência e com a cultura não é passageiro ou pontual, mas uma dimensão permanente da sua missão evangélica.

O carisma de servir Um dos pontos centrais abordados pelo Reitor da PUC-Rio reside na redefinição do papel institucional das universidades confessionais.

A educação católica não existe para competir no mercado acadêmico com o intuito de exercer hegemonia cultural ou dogmática.

Pelo contrário, sua vocação mais autêntica é o serviço. "A educação é um instrumento de serviço, humilde de serviço, mas fundamental.

Presença da Igreja, serviço, e as palavras do Papa nos confirmam nessa missão".

O conceito de "serviço humilde" resgata a essência da pedagogia cristã.

A universidade não é uma fortaleza isolada do mundo, mas um hospital de campanha intelectual e social, onde os grandes dilemas da humanidade — a pobreza, a desigualdade, a crise ecológica, o sofrimento ético — são examinados à luz da razão e da fé.

O Papel da ODUCAL Na condição de Presidente da ODUCAL, o padre Anderson sublinha o compromisso pedagógico e social das instituições afiliadas.

A organização articula dezenas de universidades de todo o continente americano, promovendo: Mobilidade acadêmica e inclusão.

Criação de redes de intercâmbio para estudantes de diferentes realidades socioeconômicas, ampliando as oportunidades de formação integral.

Pesquisa aplicada às vulnerabilidades.

Fomento de investigações científicas focadas na resolução de problemas concretos das comunidades locais da América Latina e do Caribe.

Formação ética e cidadã.

Garantia de que a inovação tecnológica e o avanço científico caminhem lado a lado com os valores fundamentais da dignidade humana.

A pluralidade no Campus Um dos aspectos mais reveladores da identidade universitária católica moderna – recordou padre Anderson - é sua capacidade de acolher o diferente e construir caminhos comuns de cooperação.

O exemplo trazido pela PUC-Rio serve como um modelo paradigmático de convivência pluralista. “Embora seja uma universidade de matriz católica sob a orientação da Companhia de Jesus e da Arquidiocese do Rio de Janeiro, a PUC-Rio abriga uma vibrante e expressiva comunidade judaica — tanto entre o corpo discente quanto no corpo docente e em posições de liderança acadêmica.

A universidade é frequentemente reconhecida no ambiente carioca como um espaço seguro e fecundo para a intelectualidade judaica”.

Identidade que se afirma pelo diálogo Esse fenômeno demonstra uma verdade profunda sobre a natureza da identidade cristã no mundo contemporâneo: Falsa identidade: Baseia-se no isolamento, na rejeição do outro, na defensiva identitária e na afirmação por oposição ("sou isto porque rejeito aquilo").

Identidade católica autêntica: Afirma-se na integração, no reconhecimento mudo e explícito do valor do próximo, no enriquecimento mútuo através da alteridade.

Conforme enfatizado pelo padre Anderson, a identidade católica não perde sua força ao abrir suas portas para estudantes e professores judeus, evangélicos, de religiões de matriz africana, de outras tradições de fé ou até mesmo sem religião.

Pelo contrário: ela reafirma o significado etimológico da palavra católico (universal).

A presença do outro não descaracteriza a universidade; fortalece a sua missão de ser um ambiente de busca incansável pela verdade.

O fenômeno uruguaio: secularismo não significa ausência de fé O Uruguai é historicamente reconhecido na América Latina como o estado mais laico do continente.

Desde o início do século XX, o país vivenciou um processo profundo de separação entre Igreja e Estado, que se refletiu na cultura, no calendário oficial e no debate público.

No entanto, uma leitura superficial poderia diagnosticar equivocadamente o país como uma sociedade "ateia" ou estéril à experiência religiosa.

O debate travado em Montevidéu revelou uma realidade muito mais complexa e sutil: a laicidade institucional uruguaia garantiu a neutralidade do estado, mas não eliminou as indagações constitutivas da condição humana (o sentido da vida, a dor, a esperança, a transcendência).

Assim como se observa em países europeus com histórico de forte secularização — a exemplo da França —, o Uruguai registra um fenômeno crescente de adultos que solicitam espontaneamente os sacramentos da iniciação cristã.

Como interpretar esse movimento de redescoberta da fé em ambientes altamente secularizados?

A resposta sintetiza-se em uma expressão poética e teológica precisa: a "saudade de Deus".

Padre Anderson recordou que em sociedades onde o consumo, a tecnologia e a autossuficiência individual não conseguem preencher o vazio existencial da pessoa humana, surge um desejo renovado por transcendência e comunidade.

O secularismo, ao despojar o espaço público de imposições confessionais, acabou por purificar a opção religiosa.

Hoje, ser cristão nessas realidades não é fruto de concordância social ou tradição herdada automaticamente, mas uma escolha consciente, livre e desejada.

Eis íntegra da conversa:  [ Audio Embed Ouça e compartilhe]

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