No discurso que Leão dirigiu aos jovens no Uruguai, a missão dos cristãos em todos os cantos do mundo.
Andrea Tornielli Foi um discurso que, em uma noite fria e ventosa, aqueceu os corações de 70 mil jovens que se reuniram no Estádio do Centenário, em Montevidéu.
No país considerado o mais europeu da América Latina, o Papa Leão apresentou uma síntese da missão da Igreja em nosso tempo, especialmente ali onde a transmissão da fé foi interrompida, a secularização avança e os cristãos correm o risco de se fecharem em si mesmos e começarem a julgar sua situação “com critérios muito humanos”, talvez com nostalgia do passado, ou seja, de quando eram numericamente mais fortes, mais presentes na sociedade e dispunham de muito mais estruturas.
Os fiéis que trilham seu caminho no Uruguai, disse o Sucessor de Pedro, “tiveram que aprender a viver e a anunciar sua fé nesse contexto”, tiveram que aprender a ser minoria.
Em primeiro lugar, Leão convidou a contemplar a vida gerada pela graça que ainda existe: “pais que rezam com seus filhos, professores que procuram viver e testemunhar a fé, jovens que descobriram Cristo e desejam segui-lo mesmo quando se sentem sozinhos, comunidades que continuam a se reunir e sacerdotes que percorrem grandes distâncias para levar os sacramentos aos fiéis”.
E, então, apontou Belém como exemplo para interpretar essa situação.
Belém, a “pequena”, que permaneceu assim mesmo após o nascimento do Salvador, é o convite a adotar a lógica do Evangelho para olhar para a realidade: “Deus escolheu Belém, e essa escolha basta para que não identifiquemos a pequenez com a insignificância”.
Ser poucos, ser pequenos, não poder mais contar com o poder dos números e das estruturas, não significa ser insignificante.
Pois, disse Leão XIV, “para iluminar muito, não é preciso ser muitos, mas refletir a luz do Senhor”.
Ou seja, refletir a luz de Outro, não a própria.
Significa confiar apenas na força de Deus, não na própria, nos próprios números ou nas próprias estruturas.
Por isso, o Bispo de Roma pôde dizer às novas gerações do Uruguai — mas, na verdade, a todos os cristãos em todos os cantos do mundo — que, em todas as situações, “com humildade e simplicidade”, podem refletir a luz de Cristo em suas vidas.
Esse é o cerne do testemunho cristão: vidas que, apesar das limitações e dos pecados, fazem brilhar a luz de Cristo.
O Papa entusiasmou e aqueceu os corações das 70 mil pessoas presentes no estádio de Montevidéu, convidando os jovens a ousarem, a formarem uma família dizendo um “sim” “para sempre” no matrimônio, a abrirem suas casas à vida mesmo quando o mundo apresenta os filhos como um fardo, a não terem medo se sentirem a vocação ao sacerdócio ou à vida consagrada.
Ele os convidou a serem justos e honestos, pagando o preço por isso, a perdoarem mesmo quando isso parecer uma derrota, a ajudarem quem sofre e quem é pobre, apesar de todos dizerem que é preciso pensar primeiro em si mesmo: “que quem os observa possa se perguntar: por que vivem assim?
De onde tiram essa liberdade?
Por que se amam tanto?”.
A fé cristã se espalhou dessa forma e chegou até nós, graças ao testemunho daqueles que viram o mundo como um campo de colheita e não como um abismo de perdição, apostando suas vidas no Evangelho e refletindo, pela graça, a luz.