“O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia; e o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados.” Mateus 10,27.
Leandro Ávila A missão de todo cristão, além de viver segundo os ensinamentos de Cristo, é anunciar Aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida.
A própria palavra “Evangelho” significa Boa-Nova: uma mensagem que precisa ser anunciada, proclamada e, sobretudo, ouvida.
Mas uma pergunta precisa ser feita: em nossas comunidades, paróquias e catedrais, temos dado a devida atenção à qualidade técnica necessária para que a Palavra de Deus seja ouvida com a dignidade que merece?
Ao observar os relatos do Evangelho, percebe-se que Jesus não apenas anunciava sua mensagem às multidões.
Havia também uma preocupação concreta com a forma como suas palavras chegariam às pessoas.
Isso ganha ainda mais significado quando lembramos que Cristo é o Verbo encarnado.
Jesus é verdadeiro homem e verdadeiro Deus e, como Criador, conhece toda a criação, pois tudo foi criado n’Ele e por meio d’Ele.
Por isso, podemos perceber, nas ocasiões em que Cristo se dirigia a grandes multidões, também um conhecimento prático de como sua voz alcançaria aqueles que estavam ao seu redor.
À beira do mar, Jesus se colocava de maneira que as características naturais daquele ambiente favorecessem a propagação de sua voz.
Em outras ocasiões, falava do alto dos montes, utilizando-se também das condições do local para que sua voz alcançasse aqueles que o ouviam.
Em um tempo de evolução tão veloz das tecnologias, é necessário também primar para que a Palavra de Deus chegue aos ouvidos e, por meio deles, alcance os corações dos fiéis.
Ao longo da história, a própria Igreja também desenvolveu seus espaços de celebração levando em consideração a transmissão da voz.
A arquitetura dos templos, os púlpitos, a disposição dos ambientes litúrgicos e, posteriormente, os sistemas de sonorização foram sendo aprimorados para favorecer a proclamação da Palavra.
Diante disso, surge outra pergunta: estamos utilizando esses recursos de maneira adequada para anunciar o Evangelho?
Em conversa com Tiago Cassol Schvarstzhaupt, bacharel em Tecnologias Digitais, consultor e projetista de som em espaços litúrgicos, o questionamos sobre os principais desafios e soluções para a sonorização dos templos.
Tiago Cassol Schvarstzhaupt: Bem, o principal desafio para sonorizar a liturgia nas igrejas está relacionado às características arquitetônicas dos templos.
Uma das primeiras questões que podemos destacar é o elevado tempo de reverberação.
Falando especificamente das igrejas no Brasil, encontramos, em muitos casos, um tempo de reverberação entre quatro e oito segundos.
Esse é o período que o som leva para se extinguir depois que produzimos um estímulo sonoro.
Quando falamos, proclamamos a Palavra ou cantamos, estamos constantemente gerando novos estímulos sonoros enquanto os anteriores ainda permanecem ressoando no ambiente.
Dessa forma, uma palavra acaba se sobrepondo à outra, o que provoca uma dificuldade significativa de inteligibilidade daquilo que se pretende transmitir.
Esse é, portanto, um dos principais desafios que precisamos superar.
Hoje, existem diversas tecnologias capazes de melhorar significativamente a inteligibilidade do som.
Na engenharia acústica, por exemplo, trabalhamos com índices específicos de inteligibilidade que permitem avaliar a qualidade da transmissão da fala.
Com equipamentos adequados, é possível alcançar resultados bastante satisfatórios, ainda que nem sempre ideais.
Em algumas situações, seria necessária uma intervenção arquitetônica para controlar o tempo de reverberação.
Entretanto, muitas vezes, esse tipo de intervenção é inviável, especialmente quando estamos falando de igrejas históricas ou de edifícios que possuem características arquitetônicas que precisam ser preservadas.
Temos ainda outro desafio importante: a infraestrutura necessária para a instalação dos equipamentos.
Em um prédio histórico, por exemplo, precisamos posicionar as caixas acústicas em locais estratégicos, mas nem sempre existe um caminho adequado para a passagem da fiação.
Portanto, podemos identificar pelo menos três grandes desafios: as características arquitetônicas do templo, o elevado tempo de reverberação e a infraestrutura necessária para a instalação dos equipamentos.
Apesar dessas dificuldades, muitas vezes conseguimos encontrar soluções com o apoio de equipes de arquitetura e engenharia.
Normalmente, buscamos resolver grande parte dessas questões por meio dos próprios equipamentos, sem necessariamente realizar um tratamento acústico no ambiente, embora essa fosse, em muitos casos, a solução mais recomendada.
Atualmente, existem caixas acústicas com diretividade muito controlada, capazes de direcionar o som de maneira mais precisa para os locais onde ele realmente precisa chegar.
Além disso, os equipamentos modernos contam com algoritmos que permitem realizar a mixagem e o controle do áudio de forma mais eficiente, reduzindo o risco de realimentação do sistema, aquilo que conhecemos no Brasil como microfonia.
Também existem recursos para o controle automático do volume.
Independentemente de a pessoa possuir uma voz mais forte ou mais suave, o sistema consegue realizar ajustes automaticamente, mantendo o nível adequado de áudio.
Isso é especialmente importante porque muitas igrejas não contam com um operador de som durante todas as celebrações.
Dessa forma, os sistemas atuais conseguem compensar, de maneira automática, diversas dificuldades e desafios relacionados à acústica do ambiente, ao tempo de reverberação e até mesmo à ausência de um técnico especializado.
Ou seja, hoje conseguimos reunir diferentes tecnologias em um único sistema e encontrar soluções bastante eficientes para os desafios da sonorização litúrgica.
Existem recursos tecnológicos capazes de contribuir significativamente para melhorar a qualidade do som e, principalmente, a compreensão daquilo que está sendo proclamado e celebrado.