O terceiro dia de trabalhos do encontro do Papa com os chefes das Igrejas Orientais e os presidentes das Conferências Episcopais, dez anos após a exortação pós-sinodal, é dedicado aos jovens na descoberta da vocação matrimonial. O arcebispo australiano Costelloe: “apresentar a teologia da intimidade conjugal como um ideal pelo qual vale a pena lutar”. O bispo Fernandes, de Bombaim: “antes que a Igreja possa falar de forma convincente, ela deve, antes de tudo, ouvir”.
Lorena Leonardi – Vatican News “Buscaremos identificar sinais de esperança” e espaços, iniciativas, pessoas e eventos capazes de “abrir novos caminhos para o matrimônio”.
Foi assim que o cardeal Kevin Joseph Farrell, prefeito do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, apresentou na manhã desta sexta-feira, 9 de outubro, na Sala Paulo VI, o terceiro dia do encontro Dez anos depois de Amoris laetitia: anunciar o Evangelho com as famílias hoje.
O encontro, que se estende até 14 de outubro, reúne o Papa Leão XIV com os chefes das Igrejas Orientais, os presidentes das Conferências Episcopais, casais e diversos especialistas.
Casamentos em declínio Ao introduzir, após a oração, os trabalhos sobre o tema desta sexta-feira Os jovens e a descoberta da vocação matrimonial, o cardeal partiu de uma constatação amarga: “não podemos ignorar o fato de que, atualmente, o número de casamentos está diminuindo em todo o mundo, tanto os civis quanto os celebrados na Igreja”.
Daí a tentativa de interpretar as diversas causas do fenômeno, que não preocupa apenas os pastores, mas também os “muitos pais cristãos cujos filhos sofrem de solidão, hesitam em assumir um compromisso duradouro ou se recusam categoricamente a trilhar o caminho que seus próprios pais haviam abraçado com alegria”.
Entre os fatores contribuintes mencionados por Farrell, “o número de divórcios, a variedade de formas de vida em casal e a influência das tendências culturais dominantes”.
Também está sendo analisado até que ponto as comunidades estão “atentas ao testemunho daqueles que, apesar de tudo, optam pelo casamento” e como a experiência deles pode ajudar “a compreender e a propor de maneira mais eficaz a vocação para o casamento”.
Indivíduos únicos, não um grupo sociológico O arcebispo metropolitano e presidente da Conferência dos Bispos Católicos da Austrália, Timothy John Costelloe, compartilhou elementos adquiridos a partir de sua experiência pessoal como educador salesiano de jovens e relatou as reflexões do clero e dos leigos de Perth.
Ao falar do “desafio pastoral” com “múltiplas facetas”, o prelado esclareceu, em primeiro lugar, os riscos de tratar os jovens “como um grupo sociológico homogêneo”, em vez de como “indivíduos únicos, com suas próprias histórias, experiências e personalidades distintas”.
Mesmo entre os católicos, existem “vários níveis de envolvimento na Igreja”, a ponto de, devido a tais diversidades, “não haver respostas fáceis nem soluções institucionais simples”: programas específicos, recursos catequéticos renovados e grupos juvenis paroquiais revitalizados são importantes, explicou ele, mas a questão é “de cultura”.
Começar pela escuta No relacionamento com moças e rapazes, o estilo de interação — o sinodal — é, para Costelloe, “de fundamental importância: devemos levá-los a sério, devemos tanto cultivar quanto demonstrar nosso respeito por eles, e devemos ouvi-los com atenção”.
Por exemplo, na Austrália, não se compreende a “ligação necessária entre atividade sexual e procriação” e muitos “podem até compreender a posição da Igreja, mas não acham fácil aceitá-la”.
Isso coloca em evidência a “tensão” entre a visão católica e as correntes da sociedade contemporânea, onde as redes sociais apresentam uma visão das relações humanas que privilegia “a felicidade imediata em detrimento da permanência, do sacrifício e da aliança”.
Sem contar o legado emocional deixado por divórcios na família, violência doméstica, desigualdades de gênero e perda de credibilidade dos líderes eclesiásticos.
A atração pelo “para sempre” Por outro lado, os jovens sentem-se atraídos por um vínculo duradouro que possa trazer à tona o melhor de si mesmos e constituir um ponto de partida para um futuro “digno de ser vivido”.
É aqui que eles devem ser “apoiados nesses desejos e acompanhados em sua caminhada rumo à construção dessas relações”.
Em todos os níveis, é necessário “um compromisso renovado no desenvolvimento de formas de envolver os jovens neste momento crucial de suas vidas”, para que não cedam à crença de que os relacionamentos estão, mais cedo ou mais tarde, destinados a desmoronar.
Nesse contexto, ressaltou o presidente da Conferência Episcopal Australiana, “o testemunho de casais casados e famílias estáveis representa um instrumento poderoso” para amenizar “o medo do compromisso e as dúvidas sobre a durabilidade”.
Nesse sentido, o ministério do testemunho fiel “poderia muito bem receber um reconhecimento formal nas comunidades paroquiais e diocesanas”.
Não são regras a serem seguidas, mas ideais a serem perseguidos A respeito da “teologia elevada da Igreja sobre a intimidade conjugal”, a sugestão é apresentá-la “de forma positiva”, como “um ideal pelo qual vale a pena lutar” e não como “uma lista de regras e normas a serem seguidas”, aumentando assim as chances de “conquistar” as pessoas e “permitir que elas compreendam os valores” subjacentes às normas e regulamentos.
Costelloe observou, por fim, a respeito daqueles que vivem em união estável, que não é verdade que não haja “nada de bom em seus relacionamentos” e que eles devem ser acompanhados “à medida que avançam rumo a uma expressão mais plena do ideal cristão”, de acordo com aquela “tensão criativa” que sempre levou a Igreja a conciliar a fidelidade aos ideais e o respeito por aqueles que têm dificuldade em estar à altura deles ou que, em certos momentos, “os consideram irrealistas ou pouco convincentes”.
Ao centrar o ministério da Igreja e a prática pastoral “em relações de amor, compaixão e paciência”, empenhados no “árduo caminho” de um “acompanhamento respeitoso”, então, concluiu Costelloe, “plantaremos sementes que outros colherão”.
A sede de amor Ao tomar a palavra, o bispo auxiliar de Bombaim, Stephen Eustace Victor Fernandes, disse estar convencido de que os jovens “não deixaram de ter sede de amor”; simplesmente enfraqueceu “a confiança de que o amor possa durar”.
A distinção, segundo o bispo, é importante, pois se continuarmos a enfatizar “o que falta” — fé, compromisso, estabilidade ou disposição para o casamento —, deixamos de compreender o que se transmite na maneira como moças e rapazes “vivem e buscam relacionamentos”.
Suas hesitações escondem “aspirações profundas: ser amados e aceitos, sentir-se parte de algo, ser tratados com dignidade, encontrar a autenticidade e construir um futuro significativo”.
Uma nova forma de se relacionar À luz disso, a Igreja não deve se perguntar por que os jovens “não conseguem aceitar o casamento”, mas o que eles buscam “quando falam de amor, liberdade, dignidade” e como acompanhá-los “na descoberta de se o seu desejo mais profundo de amor pode se tornar uma vocação, uma entrega de si ao outro, livre, fiel e duradoura”.
Certamente, o contexto é diferente daquele vivido pelas gerações anteriores, devido à comunicação digital e à cultura do imediato e da escolha contínua; no entanto, nas relações, é forte o “desejo de autenticidade”.
Não mais dispostos a aceitar relações “caracterizadas por domínio, manipulação ou desigualdade”, meninas e meninos esperam “respeito mútuo e igual dignidade”.
Longe de representar um obstáculo à apresentação da visão cristã do casamento, isso “pode se tornar um ponto de contato com o Evangelho”.
Quanto à situação específica na Índia, segundo o bispo, não se pode ignorar, ao falar de casamento, “a realidade concreta das castas, da desigualdade econômica, da discriminação de gênero, da migração, das expectativas relacionadas ao dote e, em alguns casos, da violência contra as mulheres”.
A crise de confiança É por isso que a família cristã “deve se tornar um lugar onde a dignidade, a igualdade, a reconciliação e a não violência sejam vividas concretamente”; e, portanto, é preciso não apenas encontrar “novas formas” de falar sobre o casamento, mas também verificar se há correspondência com o que é proclamado.
Muitas vezes, adiar o casamento “não é simplesmente uma recusa”, mas reflete “uma crise de confiança na possibilidade de construir uma vida estável e duradoura com outra pessoa”.
Liberdade é doar-se O bispo deteve-se, então, no conceito de liberdade, que, para a antropologia cristã, não significa opções em aberto e mudanças de rumo, mas sim “a capacidade de doar-se”.
No contexto da sensibilidade geral em relação às questões da justiça social, do meio ambiente e do bem comum, o casamento deve, portanto, ser apresentado não como um “espaço privado de realização pessoal”, mas como uma “comunhão de pessoas com responsabilidades para com a sociedade e a criação”, por um futuro que possa ser moldado e que valha a pena ser vivido.
Portanto, a formação para uma “vocação enraizada no amor” deveria ser iniciada bem antes da preparação imediata para o casamento: em vez de apresentar a moral cristã em termos de proibições e obrigações, Fernandes convida a falar “do amor como dom, da liberdade como doação de si mesmo, da sexualidade como capacidade da pessoa de amar e se doar, da fidelidade como fundamento da confiança e da estabilidade, e do casamento como aliança capaz de dar sentido à vida”.
Formar “para” e “com” os jovens A teologia moral e o acompanhamento pastoral se encontram justamente ali onde uma norma moral “identifica o bem” e uma “formação saudável ajuda a pessoa a adquirir a liberdade e as virtudes necessárias para escolher esse bem”.
E, cada vez mais, a formação deveria ser pensada não “para os jovens”, mas “com os jovens”, aproveitando a credibilidade das testemunhas da mesma faixa etária.
Conjugar verdade e misericórdia “Mas, antes que a Igreja possa falar de maneira convincente, ela deve, antes de tudo, ouvir”, advertiu o bispo auxiliar de Bombaim, a fim de “distinguir entre a rejeição do casamento e o temor de que um amor comprometido para toda a vida não seja mais possível”, especialmente entre aqueles que já viveram experiências de desintegração familiar, separação, violência, abandono ou relacionamentos fracassados.
A resposta dada deve “aliar verdade e misericórdia”, mantendo a credibilidade justamente nas qualidades que lhes são exigidas: fidelidade, reconciliação, misericórdia, respeito mútuo e perseverança.
Em busca de uma vocação plena Com relação aos casais que vivem juntos, o bispo destacou que “eles podem conter amor autêntico e elementos importantes de compromisso, mesmo que não tenham as condições necessárias para um pacto matrimonial maduro”; portanto, nesse caso, o acompanhamento pode conduzir o casal ao casamento, mas também ajudá-lo a reconhecer que ainda não está pronto para assumir tal compromisso.
De qualquer forma, a gradualidade nunca significa que “o bem se torne relativo”, mas que é preciso “respeitar o caminho da pessoa, continuando a apontar para a plenitude da vocação”.
Um amor livre e fiel ainda é possível E se o Evangelho é único, “os caminhos pastorais não podem ser idênticos em todos os lugares”; a resposta eclesial deve, portanto, “ir além” da simples instrução, incluindo “testemunho, formação, discernimento e acompanhamento”.
Em particular, Fernandes destacou o valor de testemunhas que não se limitem a dizer “o casamento é belo”, mas “vivemos suas dificuldades, conhecemos o fracasso e o perdão, o sacrifício e a alegria, e descobrimos que o amor pode durar”.
É daí que começa a missão da Igreja: não “menosprezando” a beleza da vocação cristã, mas “tornando essa beleza crível por meio da vida daqueles que descobriram, com a graça, que um amor livre e fiel ainda é possível”.