Nasce o “Within Your Gates: The Forum for the Universal Vocation of Jerusalem”, o novo fórum interdisciplinar promovido pelo cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém, e desenvolvido em colaboração com o centro acadêmico da Universidade de Notre Dame.
[ Read Also ] Alessandra Buzzetti* O caminho é longo e árduo, mas necessário e não impossível: construir uma narrativa alternativa, séria e sólida, compartilhada pelas diversas tradições religiosas para redescobrir a missão autêntica e universal de Jerusalém.
A direção dessa jornada ficou clara no centro acadêmico da Universidade de Notre Dame da cidade.
No palco, uma professora judia israelense e um professor muçulmano dialogavam a partir da visão expressa pelo cardeal Pizzaballa na sua Carta à Diocese “Eles voltaram a Jerusalém com alegria”.
Karma Ben-Johanan, historiadora das religiões e da teologia moderna e professora da Universidade Judaica de Jerusalém, e Sari Nusseibeh, intelectual e filósofo, ex-reitor da Universidade de Al Quds, são membros da “Às tuas portas – Within Your Gates: The Forum for the Universal Vocation of Jerusalem”, a plataforma acadêmica e interdisciplinar promovida e presidida pelo Patriarca Latino, cardeal Pierbattista Pizzaballa, apresentada publicamente em 7 de setembro.
É o resultado de quase três anos de trabalho, marcados por relações, diálogos e discussões a portas fechadas com estudiosos e representantes de Israel e da Palestina, logo após o dia 7 de outubro de 2023, o momento mais sombrio da história recente do conflito na Terra Santa. “Cada um sentia que algo em nossas almas havia morrido.
O convite do cardeal Pizzaballa foi, antes de tudo, o de colocar-se à escuta dos outros com profundidade e compaixão, sem atitudes de superioridade moral, mas para poder aprender com os outros", explica Daniel Schwake, diretor da Notre Dame Jerusalem e do Comitê Consultivo de Às tuas portas: "a plataforma surgiu assim; não tem como objetivo ocupar mais espaços institucionais, mas sim dar início a processos e fornecer ferramentas de aprofundamento e reflexão para uso de todos.
Não temos uma voz única, nem interesse em apresentar soluções políticas.
Nosso interesse é buscar juntos a verdade, ancorada na realidade e na história de todas as partes envolvidas”.
É por isso que o primeiro tema objeto de debate e diálogo nos últimos meses foi a linguagem, pois ela pode ser uma arma mortal de divisão e fechamento total ou um instrumento de compreensão e abertura mútuas.
Não é algo óbvio que cristãos, judeus e muçulmanos que vivem em Jerusalém conheçam — antes mesmo de compreender — o significado histórico e de fé que o outro atribui aos mesmos lugares, onde cada pedra é disputada. “Jerusalém, para mim, é um dilema.
Não sei se a amo ou não, se meu apego a ela é saudável ou não.
Luto continuamente com meus sentimentos", admite Sari Nusseibeh, "não acho que a Jerusalém que desejo seja aquela que herdei.
Acho que a Jerusalém que desejo é uma Jerusalém prometida para o futuro.
Precisamos trabalhar juntos para construí-la.
Isso foi possível no passado e agora, que estamos novamente na escuridão, não significa que não possamos ver a luz.
Aprendi muito com as discussões e os workshops dos quais participei no ‘Às tuas portas’.
Podemos ter visões diferentes, mas temos os mesmos interesses espirituais.” Ainda não é o momento da purificação da memória almejada pelo cardeal Pizzaballa em sua Carta Pastoral e em seu discurso no palco, mas é preciso começar a trabalhar para criar contextos diferentes, porém, serenos, onde todas essas posições e almas diferentes possam se confrontar de uma maneira nova. “Precisamos ouvir a todos e nos manter firmes diante dessa realidade dolorosa, mas rica em oportunidades.
Não vamos mudar a sociedade, não vamos mudar tudo", explicou o Patriarca, "mas queremos dar nossa contribuição e ser uma presença discreta, clara, incômoda se necessário, que lembre a cada um que esta terra pertence a todos”.
Esse é o desejo comum do Comitê Diretor e Consultivo do “Às tuas portas”, que se reuniu a portas fechadas antes do evento aberto ao público.
Presente em Jerusalém estava Ninive Sandouka, ativista palestina de Jerusalém Oriental que coordena a Aliança pela Paz no Oriente Médio, uma rede de associações na qual israelenses e palestinos trabalham juntos; Margaret Karram, nascida em Haifa e que viveu muitos anos em Jerusalém, hoje presidente do Movimento dos Focolares; e Sarah Stroumsa, israelense, especialista em islamismo e arabismo, ex-reitora da Universidade Hebraica de Jerusalém. “A ideia de buscar novas formas de alcançar as pessoas no debate público me atrai muito.
Nos últimos anos, repetiram-se sempre as mesmas fórmulas”, diz Sarah Stroumsa: “vejo na plataforma ‘Às tuas portas’ uma oportunidade para uma narrativa diferente que atraia a atenção das pessoas e lhes permita refletir sobre o que está acontecendo.” É um projeto em andamento, sem prazos forçados, que convida outros estudiosos, educadores, mas também historiadores e filósofos — e já há iniciativas internacionais, na Itália e nos Estados Unidos — a participarem desta primeira etapa da jornada.
Pois essa é a verdadeira missão de Jerusalém, cidade de portas abertas. * jornalista, correspondente para o Oriente Médio da Tv2000 e da InBlu2000