Bamenda: histórias de coragem ao Papa em uma terra devastada pela violência - Vatican News via Acervo Católico

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Bamenda: histórias de coragem ao Papa em uma terra devastada pela violência - Vatican News via Acervo Católico
Fonte: VATICANO

Na Catedral de São José, a dor dos refugiados e dos agentes da paz transforma-se em oferta. No Encontro pela Paz, os depoimentos do Chefe Tradicional Supremo de Mankon, Fon Fru Asaah Angwafor IV; do Moderador Emérito da Igreja Presbiteriana, Fonki Samuel Forba; do Imã da Mesquita Central de Buea, Mohammad Abubakar. E ainda Carine Tangiri Mangu, das Irmãs de Santa Ana, e uma família de deslocados internos.

Lorena Leonardi - Vatican News «Nem todos os males vêm para prejudicar»: são palavras que, proferidas diante de Leão XIV durante o Encontro pela Paz realizado na Catedral de São José, em Bamenda, poderiam surpreender pela aparente dissonância em relação ao contexto. No entanto, foram as primeiras palavras que Denis Salo dirigiu ao Papa na manhã de quinta-feira, 16 de abril, com uma voz que não esconde o peso de sua história. «Nunca poderia sequer sonhar que um dia da minha vida falaria com o Santo Padre», confessou, mas «graças à desgraça que nos aconteceu, aqui estou». Enquanto o homem resume, em inglês, assim como as outras testemunhas, a triste história que o levou, com a família, a viver como deslocados internos, a esposa e os filhos estão ao seu lado, de mãos postas, na proximidade composta e consciente de quem conheceu o desânimo da incerteza e cultivou a esperança mesmo contra todas as evidências. Quando a vida cotidiana se desfaz em pedaços Natural de Mbiame, na diocese de Kumbo, Salo contou a história de uma vida destruída. Trabalhava como atacadista de bebidas, uma rotina construída com esforço e dignidade, até 2017, quando “a guerra eclodiu”. «Essas atividades foram proibidas e nós, comerciantes, fomos alvos», disse ele, relembrando uma época em que a normalidade se desfez repentinamente. A voz treme ao recordar «cinco vizinhos mortos» e o rosto desfigurado de «um dos amigos mais queridos», perdido de forma tão injusta. Um lampejo atravessa o olhar de Salo, quando ele relembra os soldados do governo que incendiavam as casas “enquanto estávamos sob o fogo dos combatentes separatistas”. No mesmo ano, vem a fuga. Uma escolha necessária, mas dolorosa: deixar Mbiame junto com a família, interromper a escola das crianças e “abandonar tudo: a casa, as fazendas, os animais” para tentar a sorte em Bamenda. Tudo o que havia sido construído, em um instante, não existe mais. Assim começa, percorrendo cem quilômetros de estradas empoeiradas, um novo capítulo, feito de precariedade e resistência. Primeiro a passagem por Douala em busca de trabalho, depois o retorno a Bamenda, onde hoje Salo vive “em uma pequena casa alugada com toda a família”. Para sustentá-la, ele trabalha como zelador no Hospital Maria Soledad e como jardineiro na paróquia da Imaculada Conceição em Ngomgham. No fim das contas, sobre o drama da separação prevalece a força da resiliência e, apesar da ruptura, ainda há espaço para a gratidão. Antes de concluir, Salo olhou para o Papa e dirigiu-lhe um agradecimento simples, mas cheio de significado: «obrigado por ter vindo nos consolar». A evangelização e a promoção da reconciliação Sobre a crise anglófona, vivida pelos chefes tradicionais como “um colapso da autoridade” que os tornou “alvos fáceis”, assassinados ou afastados de seus reinos e de palácios em chamas, falou Fon Fru Asaah Angwafor IV, dando as boas-vindas ao Papa em nome dos chefes tradicionais e guardiões das tradições das regiões do Noroeste e do Sudoeste. Definindo a presença do Pontífice como uma «grande honra», o chefe tradicional supremo de Mankon, vestindo trajes coloridos característicos, destacou o «papel muito importante» desempenhado pelos fon «na difusão e no crescimento do cristianismo» a oeste do rio Mungo.  Foram eles, relatou, que acolheram os missionários que chegaram a Bonjongo em 1894, nos primeiros anos da difusão do catolicismo nos Camarões. E pertenciam aos chefes tradicionais «a maior parte das terras sobre as quais foram construídas as igrejas e as escolas», explicou, ressaltando com orgulho que, de certa forma, «por extensão, também nós fomos evangelizadores». Fon Fru Asaah Angwafor IV disse-se «feliz» de forma especial por receber o Papa em terra Mankon, onde a catedral foi construída em 1935 «em um terreno doado por meu pai», confiou. Em seguida, agradeceu ao Bispo de Roma «pela grande obra de evangelização realizada pela Igreja nos anos passados e ainda hoje», bem como «pelos serviços sociais que ela prestou ao nosso povo». O chefe também fez referência a algumas práticas “tradicionais” — incompatíveis com os valores cristãos — que foram desaparecendo gradualmente com a educação e a civilização, e ao estudo em andamento sobre a poligamia iniciado pelos bispos africanos a partir de uma sugestão do Sínodo sobre a Sinodalidade: «Estamos aguardando os resultados, para que os chefes tradicionais e as pessoas que vivem essa situação possam adorar a Deus livremente na igreja, sem serem julgados ou rejeitados». Por fim, Fon Fru Asaah Angwafor IV assegurou o compromisso de «trabalhar para promover a paz e a reconciliação» e de «ter esperança na restauração da autoridade em nosso país».  O diálogo inter-religioso e a mediação pela paz Fonki Samuel Forba, moderador emérito da Igreja Presbiteriana de Camarões, refletiu sobre como o conflito teve o mérito inesperado de aproximar as Igrejas cristãs e a religião muçulmana. «A perseguição e o sofrimento não conhecem nem fé, nem raça, nem língua, nem cor», afirmou. “A pessoa que sofre precisa de consolo, e o ser humano que está em guerra precisa de paz, seja qual for sua crença”, continuou ele, destacando que, justamente por causa das “sofrimentos comuns” enfrentados, os líderes religiosos anglófonos “se uniram e fundaram um movimento de paz por meio do qual tentamos mediar a paz e o diálogo entre o governo dos Camarões e os combatentes separatistas”. Definindo a situação na região como uma «crise esquecida», Fonki Samuel Forba citou diante de Leão XIV o antigo provérbio africano «Quando dois elefantes lutam, quem sofre é a grama» para destacar os sofrimentos das «pessoas comuns», entre elas mulheres e crianças. «Na prática, todos nós aqui reunidos estamos traumatizados e precisamos de cura, tanto psicológica quanto espiritual», resumiu ele, pedindo ao Papa ajuda «para encontrar uma solução duradoura para este conflito» e para «apoiar as iniciativas de paz».  Fome de paz A fome de paz é o denominador comum em Camarões: fiéis de todas as crenças, unidos além das pertenças religiosas, compartilham o peso de anos marcados pelo sofrimento e pela violência. Nesse contexto, inseriu-se também o testemunho do imã Mohamad Abubakar, da Mesquita Central de Buea, que relembrou o último período doloroso vivido pela comunidade islâmica. Em particular, ele relembrou o ataque à mesquita de Sagba em 14 de novembro, quando três pessoas foram mortas e nove ficaram feridas, e os atos de violência cometidos em 14 de janeiro seguinte por homens armados que abriram fogo contra criadores de gado da comunidade étnica Mbororo, causando pelo menos quinze mortos, entre os quais oito crianças. Entre as 23 vítimas do massacre de Ngabur, observou tristemente o líder religioso, havia também civis muçulmanos. Muitos sofreram a perda de gado e suas atividades foram interrompidas devido à crise que, observou Mohamad Abubakar, felizmente «não degenerou em uma guerra religiosa», já que homens e mulheres de várias crenças continuam com força «a amar-se uns aos outros». Os sequestros, a resiliência e a coragem, a confiança em Deus Também tomou a palavra a Irmã Carine Tangiri Mangu, jovem religiosa das Irmãs de Santa Ana, da província eclesiástica de Bamenda, empenhada na assistência pastoral a pessoas carentes nos âmbitos hospitalar, educacional e social. Todas «circunstâncias muito difíceis» que, disse ela sorrindo, tornam a presença do Papa «um incentivo ainda mais forte», especialmente desde que, com a eclosão da violência, aumentaram «o medo e a insegurança». A religiosa vivenciou isso em primeira mão quando, em 14 de novembro, ao voltar de Bamenda para Elak-Oku, onde leciona na escola primária, ela e outra religiosa foram sequestradas e levadas para a mata, permanecendo lá como reféns por três dias e três noites. «Nunca dormimos nem comemos», lembrou ela, virando-se e tocando por um instante o ombro da Irmã Mediatrix, logo ao dela. Naqueles dias de tribulação e vários deslocamentos “feitos à noite para evitar de sermos localizadas”, as duas corajosamente iniciaram uma greve de fome e explicaram aos sequestradores “que estávamos simplesmente realizando nosso trabalho pelos pobres e não tínhamos nada a ver com política”. Privadas da liberdade, da possibilidade de se lavar, comer, beber e descansar, elas rezavam continuamente o terço, “a única forma disponível para manter viva a esperança” até o momento da libertação, que ocorreu graças à intervenção dos cristãos daquela região. Dirigindo-se a Leão XIV, a Ir. Carine Tangiri Mangu destacou que são exatamente essas as condições em que “muitas mulheres consagradas realizam seu trabalho nesta zona de guerra”, algumas passando por experiências ainda mais dramáticas e traumáticas, mas sempre, concluiu ela, “confiando na ajuda de Deus”.

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