A visita do Pontífice desperta uma profunda esperança de paz, unidade e renovação espiritual em um país marcado por tensões e desigualdades. O Pe. Alfonso Romero, sacerdote espanhol que atua como missionário no país há 15 anos, vê nessa viagem um impulso decisivo para a reconciliação e o fortalecimento do papel social da Igreja.
Sebastián Sansón Ferrari - enviado especial a Yaoundé, Camarões Camarões vive dias de intensa preparação para a iminente visita de Leão XIV. Nas ruas, paróquias e comunidades, o ambiente reflete uma mistura de entusiasmo, expectativa e profunda oração. “As pessoas estão se dedicando totalmente a isso”, afirma o Pe. Alfonso Romero, que há mais de 15 anos está em missão no país africano. “Não apenas do ponto de vista material, com bandeiras e cartazes, mas também espiritualmente: em todas as igrejas se reza por esta visita”. A viagem apostólica do Pontífice terá como cenários três cidades-chave: Yaoundé, Douala e Bamenda. Cada uma representa uma dimensão distinta do país: a política, a econômica e a social, sendo essa última marcada por um prolongado conflito nas regiões anglófonas. “Bamenda simboliza uma realidade dolorosa”, explica o Pe. Romero. Há mais de uma década, a região ocidental do país vive uma crise marcada por tensões separatistas, violência e deslocamentos: “houve muitos mortos e a visita do Papa será, além de corajosa, uma ocasião para falar de paz e unidade”. De fato, a reconciliação se perfila como um dos eixos centrais da viagem. Camarões, dividido entre oito regiões francófonas e duas anglófonas, carrega tensões históricas que se intensificaram por volta de 2015. “Somos um mesmo país, mas com diferenças que devem ser assumidas a partir da unidade”, ressalta o missionário. A esperança, no entanto, prevalece. Em Yaoundé, onde se respira um clima de expectativa crescente, a Igreja promoveu orações comunitárias pelos frutos da viagem. “O Papa pode dar um impulso definitivo para que a paz e a tranquilidade retornem”, afirma Romero, refletindo o sentimento de muitos fiéis. Juventude entre esperança e desafio Um dos pontos altos da visita será o encontro com jovens e universitários, particularmente na Universidade Católica da África Central. Lá, o Papa buscará dialogar com uma geração marcada pelo desejo de progresso, mas também pela incerteza. “Os jovens são muito bons, mas às vezes lhes falta esperança”, reconhece o sacerdote. A falta de oportunidades leva muitos a emigrar, seja por rotas perigosas rumo à Europa, seja por vias legais para países como Canadá, Estados Unidos ou França: “até mesmo jovens bem formados sentem que precisam sair para garantir seu futuro”. Mesmo assim, o interesse pela visita de Leão XIV é palpável. “Eles estão muito interessados em saber quem é o Papa, por que ele vem, o que significa sua presença aqui”, acrescenta Romero. Para muitos, esse encontro poderá fortalecer seu vínculo com a Igreja e oferecer uma nova perspectiva de futuro. Uma Igreja presente em todas as frentes Além dos grandes eventos, a visita também destacará o papel fundamental da Igreja Católica em Camarões. Da educação à saúde, sua presença é ampla e decisiva. “O trabalho da Igreja é impressionante”, afirma o Pe. Romero. Com centenas de escolas, universidades e centros de saúde, bem como uma extensa rede de congregações religiosas, a obra eclesial supre, em muitos casos, as carências do sistema público: “há religiosas que trabalham com total dedicação, sempre com alegria, em condições muitas vezes difíceis”. A dimensão caritativa será um dos momentos de destaque da viagem, com visitas a instituições como orfanatos e hospitais, onde se torna visível o rosto mais concreto da solidariedade. Desigualdade e desafios estruturais No entanto, o país não está isento de profundas desigualdades. Em cidades como Yaoundé, o contraste entre bairros humildes e zonas abastadas é evidente. “Você encontra famílias vivendo em um único cômodo e, ao mesmo tempo, mansões impressionantes”, descreve Romero. A escassa classe média evidencia um dos grandes desafios estruturais do país. Um apelo à transformação Além do impacto imediato, o verdadeiro desafio começará após a partida do Pontífice. Para o sacerdote, o objetivo é claro: que a visita não seja um evento isolado, mas um ponto de inflexão. “Queremos que não sejam apenas alguns dias bonitos, mas uma transformação real, tanto interior quanto do país em geral”, conclui. Uma mudança que, segundo ele ressalta, deverá se basear na reflexão e na aplicação prática das mensagens que o Papa deixar. Em uma nação marcada por contrastes, feridas abertas e grandes potencialidades, a visita de Leão XIV se apresenta como uma oportunidade histórica. Camarões, “terra de esperança”, aguarda agora um gesto que possa aproximá-la, um pouco mais, do tão almejado abraço de paz.