Uma semana antes da viagem de Leão XIV, entrevista com o diplomata, ex-presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina e embaixador do Uruguai junto à Santa Sé: “Os povos serão chamados a uma unidade que supere polarizações políticas, às vezes mesquinhas”. Sobre a etapa no país banhado pelo Rio da Prata: “Será muito importante para a Igreja, que deverá reavivar a evangelização diante de uma liberdade que perdeu sua ancoragem nos valores”.
Antonella Palermo – Cidade do Vaticano A viagem poderia ter começado pelo Peru, país de adoção do Pontífice.
No entanto, será justamente nessa terra que a longa viagem papal chegará ao seu término, em um crescendo de sentimento de pertença, intimidade e familiaridade.
O percurso começará em 6 de novembro, no Uruguai, país banhado pelo Rio da Prata, e passará também pela Argentina.
A história oficial do Uruguai começa em 1516, quando, segundo as crônicas espanholas, Juan Díaz de Solís descobriu o território ao alcançar a foz do rio.
Um século depois, começaram os confrontos com os portugueses, que reivindicavam sua soberania.
Em 1828, também graças à mediação diplomática do Reino Unido, nasceu oficialmente o Estado independente do Uruguai, como um país-tampão entre Argentina e Brasil.
Depois das visitas de São João Paulo II, em 1987 e 1988, o Uruguai se prepara para acolher Leão XIV, que permanecerá no país até 8 de novembro.
Após os encontros institucionais em Montevidéu, no segundo dia o Papa irá a Paysandú para celebrar a primeira Missa da viagem.
Em seguida, retornará à capital para encontrar a realidade social do bairro periférico de Casavalle e o mundo acadêmico na Universidade Católica.
À noite, está prevista uma vigília de oração no Estádio Centenário.
No dia seguinte, o Pontífice irá a Florida, lugar simbólico da independência uruguaia e sede do santuário da Virgen de los Treinta y Tres, padroeira do país.
É grande o desejo do Sucessor de Pedro de participar, nesse local, das celebrações nacionais de 8 de novembro.
Será o ponto alto da visita papal ao Uruguai, cujo lema, “Eu vos anuncio uma grande alegria”, sintetiza o relançamento de uma proposta de encontro com Cristo, em um país que, nos últimos anos, registrou uma diminuição da prática religiosa e da participação nos sacramentos.
O jurista uruguaio Guzmán Miguel Carriquiry Lecour, nascido na capital Montevidéu, ex-embaixador do Uruguai junto à Santa Sé e ex-secretário da Pontifícia Comissão para a América Latina, apresenta alguns aspectos particulares desta viagem.
A etapa no Uruguai da viagem apostólica do Papa é considerada, por muitos, a mais europeia, levando em conta as características do país, que se diferenciam bastante das dos demais países latino-americanos.
O fenômeno da crescente secularização, que também atinge fortemente o Velho Continente, aponta para algumas semelhanças.
O senhor poderia nos ajudar a compreender melhor o que está por trás dessa dimensão tão acentuada da laicidade no país?
E como a visita do Papa poderá incidir nesse contexto?
Sim, certamente é o país mais secularizado da América Latina.
Apenas 55% da população é batizada, enquanto normalmente, nos outros países, chegamos a aproximadamente 90%.
A participação na Missa dominical é muito reduzida, embora o Uruguai tenha uma tradição católica.
No final do século XIX, sob a influência de algumas correntes de pensamento provenientes da Europa, o país começou a viver um processo de secularização muito agressivo, com fortes manifestações anticlericais, expressas também por setores anarquistas.
A Igreja não conseguiu inserir esses imigrantes na matriz católica do país.
Chegou-se a mudar os nomes de todas as ruas, aprovou-se a lei do divórcio e a descristianização foi tão acentuada que, ainda hoje, amplos setores da população não apenas não são católicos, mas também não possuem qualquer inquietação religiosa.
Esse é um grande desafio para a nossa Igreja.
A presença do Papa Leão será, portanto, muito importante.
Há alguns dias, o cardeal Sturla, de Montevidéu (arcebispo metropolitano da capital uruguaia, ndr), me dizia que existe uma expectativa surpreendente em relação à chegada do Papa.
Como o senhor explica isso?
Porque, na realidade, o laicismo é algo envelhecido, ultrapassado.
Não tem capacidade nem potencial para educar as novas gerações.
No Uruguai, as pessoas vivem um dia de cada vez, boa parte da população não cultiva perguntas sobre o sentido da vida e não se coloca as questões fundamentais da existência.
Penso que a simples presença do Papa começará a fazer florescer novamente os desejos de amor e de verdade, de justiça e de felicidade, que sempre estiveram presentes no coração das pessoas.
Será um grande estímulo para uma evangelização fundamentada em maior parresia (coragem e franqueza no anúncio da verdade).
Nossa Igreja preparou a visita do Papa de maneira extraordinária.
Nunca se viram, na história deste país, tantas imagens sacras pelas ruas.
Isso é realmente uma notícia.
Em 8 de novembro, Leão XIV irá a Florida, ao santuário nacional da Virgen de los Treinta y Tres.
Essa etapa permitirá ao Papa retomar toda a tradição católica que deu origem ao Uruguai, reapresentá-la, atualizá-la e colocá-la diante da consciência do país.
Será um momento muito importante.
Ainda é verdade que o Uruguai é a “Suíça da América Latina”?
Há bastante tempo deixou de ser.
A crise do Uruguai, entre as décadas de 1950 e 1960, agravou-se com o movimento dos Tupamaros (organização armada de guerrilha urbana de inspiração marxista-leninista, ndr), após o golpe de Estado.
Mas o Uruguai foi capaz de preservar sua tradicional cultura democrática.
É um país que valoriza muito a liberdade, embora, nas condições de individualismo que estamos vivendo, muitas vezes seja uma liberdade sem valores, que facilmente degenera em uma espécie de libertinagem de massa.
Em 8 de janeiro de 1979, justamente em Montevidéu, foi a Santa Sé que mediou o acordo entre Argentina e Chile para resolver pacificamente a disputa de fronteiras no Canal de Beagle, evitando uma guerra iminente.
Hoje, como o senhor recordou, o Uruguai é um país democraticamente estável.
Qual poderá ser seu papel no cenário latino-americano, tão marcado por polarizações?
As polarizações exacerbadas estão, de fato, sobretudo nos dois grandes países vizinhos: Brasil e Argentina.
No Uruguai existe certa capacidade de diálogo político e de respeito às diferentes convicções políticas e culturais.
Há um diálogo positivo entre o governo e as autoridades eclesiásticas.
Além disso, é preciso dizer que o Uruguai sempre desempenhou um papel muito ativo no plano internacional, apoiando as Nações Unidas, repudiando a guerra, afirmando a proteção dos direitos humanos e o multilateralismo.
Também manteve boas relações com a Santa Sé.
Como o senhor avalia, de maneira geral, esta viagem à América Latina?
Para o continente, esta viagem papal é fundamental.
Serão os povos que ocuparão o espaço público, que se descobrirão protagonistas.
Os povos serão chamados pelo Papa a uma unidade superior às polarizações políticas, às vezes mesquinhas e odiosas.
Por sua vez, nossa Igreja não pode se conformar com o declínio do número daqueles que se professam católicos.
Deverá reavivar sua missão catequética e evangelizadora no coração de nossos povos, indo além da piedade popular que, por exemplo, no Peru — como veremos — será impressionante.
Mas essa piedade popular deverá passar por uma conversão e tornar-se expressão de uma fé que alimente todas as dimensões da existência.