Todos os anos, em 29 de agosto, a comunidade internacional celebra o Dia Internacional contra os Testes Nucleares. No Cazaquistão, esta data tem um significado profundamente simbólico: em 1991, o campo de testes nucleares de Semipalatinsk foi fechado. Quarenta e dois anos antes, em 29 de agosto de 1949, ocorreu a primeira explosão nuclear soviética naquele mesmo local. Essa data simboliza, na história do país, tanto o início de uma era trágica quanto uma escolha consciente pela paz.
Vatican News O dia 29 de agosto ocupa um lugar singular na história do Cazaquistão e na luta internacional contra as armas nucleares.
Foi nessa data, em 1991, que o país fechou definitivamente o polígono de testes nucleares de Semipalatinsk, encerrando décadas de experiências que provocaram consequências profundas sobre a população e o meio ambiente.
A mesma data, porém, remete a um episódio trágico: em 29 de agosto de 1949, havia ocorrido no local a primeira explosão nuclear soviética.
Entre 1949 e 1989, Semipalatinsk foi cenário de 456 testes nucleares, sendo 30 realizados em superfície, 86 na atmosfera e 340 no subsolo.
As consequências da exposição à radiação atingiram vastas áreas e aproximadamente 1,5 milhão de pessoas, incluindo descendentes daqueles que foram diretamente expostos.
Estudos continuam a documentar os impactos médicos, psicológicos e sociais provocados a longo prazo pela radiação.
A história do local tornou-se, assim, um dos mais contundentes exemplos do custo humano, ambiental e social dos testes nucleares.
A tragédia também deu origem a uma forte mobilização popular.
Em 1989 surgiu o movimento antinuclear internacional Nevada-Semipalatinsk, que reuniu milhões de pessoas em defesa do fim dos testes.
A pressão da sociedade contribuiu para a interrupção das experiências e, em 29 de agosto de 1991, o local foi fechado definitivamente, pouco antes de o Cazaquistão proclamar sua independência.
Depois do fim da União Soviética, o novo Estado herdou cerca de 1.400 ogivas nucleares, tornando-se detentor de um dos maiores arsenais do mundo naquele momento.
Em uma decisão histórica, optou por renunciar voluntariamente a esse arsenal.
O processo de desnuclearização avançou nos anos seguintes.
Em 1994, o Cazaquistão aderiu ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) como Estado não nuclear e, até 1995, as últimas ogivas haviam sido retiradas de seu território.
O país assinou o Tratado de Proibição Completa dos Testes Nucleares (CTBT) em 30 de setembro de 1996 e o ratificou em 14 de maio de 2002.
A experiência de Semipalatinsk também levou o governo a investir na recuperação e no monitoramento da região.
Entre 2008 e 2021, foram realizadas mais de dois milhões de medições de campo e mais de 100 mil análises laboratoriais em uma ampla investigação ambiental do antigo polígono.
Em 2023, foi criada a Zona de Segurança Nuclear de Semipalatinsk, com regras especiais para controlar o acesso, realizar ações de descontaminação e acompanhar continuamente os níveis de radiação.
A experiência cazaque também adquiriu uma dimensão regional.
Em 8 de setembro de 2006, foi assinado em Semipalatinsk o tratado que estabeleceu uma zona livre de armas nucleares na Ásia Central, reunindo Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão.
O acordo entrou em vigor em 2009 e transformou a região, que havia sido palco de testes e armazenamento de armas nucleares, em uma zona desnuclearizada.
No âmbito internacional, por iniciativa do Cazaquistão, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, em 2 de dezembro de 2009, a Resolução 64/35, que proclamou 29 de agosto como o Dia Internacional contra os Testes Nucleares.
A agenda de desarmamento também aproximou o Cazaquistão da Santa Sé.
O país apoiou a Declaração Universal para a Construção de um Mundo Livre de Armas Nucleares, adotada pela Assembleia Geral da ONU em 2015, e aderiu ao Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares, assinado em 2018 e ratificado em 29 de agosto de 2019.
A Santa Sé, por sua vez, assinou e ratificou o tratado em 20 de setembro de 2017, estando entre os primeiros Estados a fazê-lo.
O ano de 2026 reúne três marcos importantes dessa trajetória: os 35 anos do fechamento do polígono de Semipalatinsk, os 30 anos da abertura para assinatura do Tratado de Proibição Completa dos Testes Nucleares e os 20 anos da assinatura do Tratado que criou a Zona Livre de Armas Nucleares na Ásia Central.
Para a Embaixada do Cazaquistão junto à Santa Sé, esses aniversários conectam a memória nacional aos esforços internacionais para impedir que tragédias nucleares semelhantes voltem a acontecer.
O presidente cazaque, Kassym-Jomart Tokayev, tem defendido a retomada do diálogo entre as potências nucleares e ações multilaterais destinadas a reduzir o risco de utilização dessas armas.
Em mensagem de 5 de março de 2026, o Papa Leão XIV também expressou o desejo de que “a ameaça nuclear não condicione nunca mais o futuro da humanidade”.
Para o Cazaquistão e a Santa Sé, a memória de Semipalatinsk não deve permanecer apenas como lembrança de uma tragédia do passado, mas transformar-se em responsabilidade diante do futuro: um futuro construído sobre a dignidade humana, a confiança, a cooperação internacional e a paz, e não sobre a ameaça nuclear e o medo. *Com informações de Agência Fides