Coltrane – Um espírito iluminado que escreveu a Deus

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Coltrane – Um espírito iluminado que escreveu a Deus
Fonte: VATICANO

No Centenário do saxofonista e compositor norte-americano John William Coltrane, um dos melhores músicos de jazz de sempre, o mundo rendeu homenagem a um espírito iluminado, cuja obra-prima A Love Supreme, foi considerada uma carta de amor e devoção a Deus. O seu poder de ainda inspirar músicos de todo o Planeta não se restringe apenas aos círculos do jazz, mas aos vários círculos da música popular e erudita contemporânea.

Filinto Elísio - Poeta, ensaísta, editor - Lisboa Nasceu a 23 de setembro de 1926, em Hamlet, Carolina do Norte, no mesmo ano que outro dos músicos mais importantes do século XX, o trompetista Miles Davis, que seria um dos homens responsáveis por trazer o saxofonista para os holofotes do jazz.  A sua infância foi marcada por crescer no seio de uma família religiosa e envolvida com os direitos dos negros nos Estados Unidos.

Ambos os pais tocavam música de forma amadora, sendo o pai alfaiate e a mãe costureira.

Os avós de John Coltrane, pastores metodistas, levam-no a crescer sempre rodeado de música, quer fosse em casa com os pais a tocar ou a ouvir rádio ou os salmos e hinos na Igreja.

Tocou vários instrumentos de sopro na banda escolar até se decidir definitivamente pelo saxofone.

Durante a adolescência mudou-se com a família para Filadélfia, cidade com uma forte comunidade negra e onde a música jazz reinava.

Aos 19 alinha-se na Marinha e, em 1945, é enviado para o Hawai, integrando a banda militar Melody Masters.

De regresso, inscreve-se na Granoff School of Music onde aprende a teoria clássica que mais tarde irá desafiar, mas não sem antes dominá-la como poucos.  Uma epifania espiritual Em 1955, aos 29 anos, casou com Juanita Grubbs - que mais tarde viria a adotar o nome Naime, nome eternizado numa das mais famosas composições de Coltrane.

É o ano em que John Coltrane é convidado por Miles Davis a integrar o seu novo quinteto que incluía ainda Red Garland no piano, Paul Chambers no contrabaixo e Philly Joe Jones na bateria.

Deste quinteto resultaram alguns dos melhores discos da carreira de Miles Davis: 'Round About Midnight, Walkin' e Cookin'.

Este Primeiro Grande Quinteto desagrupou-se devido ao abuso de drogas e heroína por parte de Coltrane.  Livrou-se do vício ainda em 1957.

De acordo com as notas de A Love Supreme, o músico teve uma epifania espiritual que biógrafos acreditam estar relacionada com o ter ultrapassado a sua adição. "Com a graça de Deus, tive um despertar espiritual que me levou a uma vida mais rica, preenchida e produtiva.

Nessa altura, em agradecimento, pedi humildemente que me fosse concedido o dom e o privilégio de fazer os outros felizes através da música." Blue Train e Soultrane Em 1957 foi também o ano em que Coltrane tocou com o grupo do pianista Theolonius Monk, um dos maiores revolucionários do jazz e outro dos mentores que o ajudou a encontrar o seu som único, com várias notas disparadas a uma velocidade estonteante sem sacrificar o volume das notas.

Data também deste ano o primeiro disco como líder (um disco menos conhecido chamado Coltrane).

Mas em 1958 edita Blue Train e Soultrane, dois dos seus discos mais importantes.

Em simultâneo volta a integrar a banda de Davis e em breve estará nas sessões de gravação do disco mais vendido da história do jazz: Kind of Blue, o disco insígnia de Miles Davis, que escancarou as portas do modalismo (umas das várias revoluções iniciadas pelo trompetista). 1959 é também o ano em que Coltrane edita Giant Steps, pela Atlantic, um marco da música do século XX, em grande parte graças à sua composição título que muitos estudiosos consideram a planta de todo o jazz que estava por vir.  Anos estrondosos Os anos seguintes são estrondosos.

My Favorie Things é um portento em que Coltrane transfigura standards de forma magistral particularmente a canção de Rodgers e Hammerstein escrita para o musical The Sound of Music numa viagem transcendental.

Olé Coltrane é um mergulho na música espanhola - no ano anterior Miles Davis gravara uma versão do Concierto de Aranjuéz - e africana (gravou na mesma altura Africa/Brass, disco inaugural com a Impulse!).

Há também dessa época o disco Coltrane Plays the Blues e a soberba colaboração entre Coltrane e Johnny Hartman, único disco que o saxofonista gravou com um vocalista.

Em apenas seis anos, John Coltrane participou em dez dos discos mais importantes da história do jazz.  Em 1963, Coltrane iniciara uma relação com a pianista Alice McLeod.

Depois de casarem, em 1966, Alice Coltrane entra para a banda do marido e depois teria uma carreira a solo na qual unia o jazz à música indiana, numa continuação do trabalho que vinha a desenvolver com John Coltrane.  Musica, espiritualidade e direitos dos negros Esta espiritualidade e procura por um caminho iluminado acompanhavam o ar dos tempos.

A década de 60 foi um dos períodos de maiores lutas pelos direitos civis dos afroamericanos, numa sociedade marcada pelo racismo e discriminação.

Enquanto Coltrane fazia músicas espirituais, ganhava consciência política e as refletia nas suas músicas, compaginando-as com o ativismo de nomes como Martin Luther King Jr., Malcolm X Angela Davis e Muhammad Ali.  Esta consciência cívica levou Coltrane a explorar novas formas de música, abrindo o seu quarteto à entrada de mais músicos, incluindo Pharoah Sanders, Archie Shepp ou Freddie Hubbard e gravando discos menos presos à forma e mais abertos ao improviso.

A Love Supreme, uma carta de amor a Deus e à humanidade Apesar do sucesso, Coltrane ainda surpreenderia o mundo em 1965.

Criou o chamado quarteto perfeito.

Ele como líder e compositor, McCoy Tyner como o pianista que o entendia melhor do que ninguém e criava texturas que permitia a circularidade e a visibilidade de todos os músicos.

Este foi o quarteto que gravou com Johnny Hartman, Ballads, Live at Birdland e A Love Supreme, uma carta de amor a Deus e à humanidade, um dos marcos incontornáveis de toda a arte do século XX.

Ainda hoje este disco é alvo de reedições que esgotam e é uma porta de entrada para milhares de ouvintes no mundo do jazz.

Nos anos seguintes, Coltrane procurava novas sonoridades, como a que resultou em Meditations, em que se voltou a unir ao quarteto Tyner-Jones-Garrison, Pharoah Sanders e Rashied Ali.  A sua criatividade continua a marcar anos depois da sua morte Coltrane acabaria por morrer em 17 de julho de 1967, vítima de um cancro do fígado.

Esta figura seminal do jazz morreu aos 41 anos, mas a sua vida criativa foi de tal forma marcante que é proclamada como influenciadora como uma das figuras mais distintas da música contemporânea.

O autor de A Love Supreme e Ascension foi elevado à condição de santo pela Igreja Ortodoxa Africana.

A Igreja de São John Coltrane foi fundada por Franzo W.

King e Marina King, em 1969, e está sedeada em São Francisco, na Califórnia.

Depois da elevação de John Coltrane à santidade, foi-lhe adotado o nome Santo John Will-I-Am Coltrane.  [ Audio Embed Oiça]

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