A Comunidade Católica Shalom está presente na Argélia há cerca de uma década e meia. Para além de Argel, está também em Bejaia. Ali, a Comunidade é coordenada pelo irmão Jackson Santos e desempenha diversas atividades, em particular com os estudantes cristãos que chegam da África subsaariana e para os quais constitui um importante ponto de referência social e religioso. Juntos aguardam, com muita alegria, a visita do Papa Leão XIV à Argélia.
Dulce Araújo - Vatican News Os católicos na Argélia não chegam a 1% dos cerca de 48 milhões de argelinos que são, na sua grande maioria, muçulmanos. A Igreja católica no país é constituída sobretudo de migrantes que chegam da África a sul do Sahara para trabalhar ou estudar. Bejaia é uma cidade do litoral da Argélia, com uma única paróquia intitulada a São José e pertencente à Diocese de Constantina, uma das quatro Dioceses do país. A paróquia - que não dispõe de pároco e só tem missa três vezes por mês, celebrada por um padre que percorre cerca de três horas de carro, por entre montanhas, para lá ir - é animada pelo irmão Jackson Santos, leigo consagrado, missionário brasileiro-português da Comunidade Católica Shalom, que lá está há dois anos. Uma referência importante para os estudantes cristãos Bejaia é, de certo modo, uma cidade universitária. Ali se encontra a Universidade Abderrhamane Miro, frequentada por muitos estudantes do continente africano, alguns oriundos dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) que gozam de bolsas de estudo, fruto da cooperação entre a Argélia e os seus países. A paróquia é para eles um importante ponto de referência - sublinha o missionário, definindo a presença da Comunidade Católica Shalom ali como uma “bela missão”, que os faz “sentir felizes”. Diversas atividades As atividades que desempenha a Comunidade vão de formação cristã, animação da missa, (que acontece às sextas-feiras, porque domingo é dia de trabalho e de aulas) ensaio coral de cânticos, grupos de oração, retiros, momentos de lazer, passeios à praia e mesmo aulas de francês. Enfim, um “um pouco de tudo para ajudar esses jovens e ficamos muito felizes por ser missionários nessa terra tão necessitada duma presenta cristã” - explica o irmão Jackson com profundo sentimento de “gratidão” pela oportunidade de estar ali em missão e “de ser instrumento de acolhimento como Igreja.” Uma Igreja formada de estrangeiros A Igreja católica na Argélia, a única Igreja cristã autorizada no país, é formada essencialmente por estrangeiros. Ela acolhe igualmente pessoas doutras confissões cristãs no país e os poucos argelinos que tenham eventualmente abraçado o cristianismo. Mas todos têm bem claro que a Igreja não está ali para fazer proselitismo que é considerado “crime” pela lei no país. Embora haja “liberdade religiosa” - salienta Jackson Santos - a sociedade “não aceita muito bem” as conversões, que são realmente poucas, podendo o convertido ter mesmo algum problema familiar e ou social. Igreja católica está hoje a viver um tempo novo na Argélia A presença católica “não é tolerada, mas aceite” e há “um bom diálogo com o governo”, considera o responsável da missão em Bejaia ao partilhar com a Vatican News a alegria de contar ir com uma caravana de umas 50 pessoas à missa do Papa Leão na Basílica de Santo Agostinho, em Annaba, na tarde do dia 14 de abril. Antiga Hipona, de cuja Diocese Santo Agostinho foi Bispo do ano 354 a 430, Annaba conserva importantes vestígios das longínquas raízes cristãs na Argélia, onde o cristianismo passou, ao longo da história, por várias fazes, sendo uma das de maior florescimento durante a ocupação francesa (1830-1962). Nos anos 90 do século XX passou-se por um período difícil em todo o país, tendo havido mesmo mártires católicos, entre os quais um bispo, padres, monges e freiras. Hoje, a Igreja católica está, todavia, a viver “um tempo novo” e os católicos veem a visita do Papa Leão XIV, a primeira de um Papa ao país, como algo que poderá “criar uma relação nova de diálogo com a Igreja católica”. Os missionários - refere Jackson Santos - se sentem “muito honrados e felizes” com esta visita. É sinal de que “o Papa olha para nós como Igreja e nos abençoa com a sua oração e presença” - remata. E se por um lado, os cristãos e mesmo muitos muçulmanos se alegraram com o anúncio da visita do Papa, vendo nele um retorno à Argélia antiga em que cada um respeitava a fé do outro, não falta, todavia, quem considere a visita um “erro” - afirma ainda o missionário português, citando reações nas redes sociais. Vistos para a entrada de mais missionários e sacerdotes Embora o responsável da Comunidade Católica Shalom em Bejaia considere que a Igreja católica na Argélia esteja a viver “um tempo novo”, os católicos no país sofrem, todavia, pela falta de padres e mais missionários. Basta pensar, como referido acima, que em Bejaia, a única paróquia das cinco da Diocese de Constantina, não tem padre, a paróquia mais próxima fica a cerca de três horas de distância e por isso só têm missa três vezes por mês. Isto devido às dificuldades em ter vistos de acesso ao país. Então - frisa o missionário - “temos esperança de que esse diálogo do Papa com o governo possa mudar um pouco esta situação” e haja “abertura para a chegada de novos missionários”. “Nos faz falta ter um sacerdote” em Bijaia. Comunidade Católica Shalom em África A Comunidade Católica Shalom surgiu no Brasil em 1982 por iniciativa de Moysés Louro de Azevedo Filho que, juntamente com outros jovens universitários e encorajados pelo Cardeal Lorscheider, abriu o Centro de Evangelização Shalom. O Centro evoluiu até ser reconhecido em 2007 pelo Pontifício Conselho para os Leigos como Associação internacional de fiéis, denominada Comunidade Católica Shalom. A sua missão é a difusão e vivência do Evangelho, com especial atenção para o acolhimento e apostolado da juventude. Hoje a Comunidade Católica Shalom está presente em vários países do mundo, sobretudo nas Américas, Europa e na África, onde figuram Angola, Cabo Verde, Moçambique, Marrocos e Argélia. Neste último país a Comunidade tem seis missionários distribuídos por duas casas, uma em Argel e outra em Bejaia. A casa em Argel, onde há um pároco, são responsáveis pela Catedral do Sagrado Coração e da pastoral juvenil em Blida, 45km a sudoeste de Argel. O missionário Jackson Santos conclui pedindo orações em particular por essa missão no norte de África, para que viva a alegria do Evangelho.