Em seu apelo após o Angelus do domingo 20, o Papa Leão XIV pediu uma resposta generosa da comunidade internacional. Seca, fome, deslocamentos, conflitos armados e cortes na ajuda humanitária colocam milhões de somalis em situação de extrema vulnerabilidade.
Vatican News A Somália voltou ao centro das atenções internacionais após o apelo feito pelo Papa Leão XIV neste domingo, 20 de setembro.
Depois da oração do Angelus, na Praça São Pedro, o Pontífice afirmou acompanhar «com grande preocupação» a crise humanitária que atinge algumas regiões do país africano, onde episódios de violência e eventos climáticos extremos estão agravando as já precárias condições de vida da população, «particularmente das mulheres e das crianças».
Leão XIV pediu o «generoso envolvimento da comunidade internacional» para que não falte assistência à população.
O apelo ocorre em um momento particularmente delicado para a Somália.
O país enfrenta simultaneamente seca, insegurança alimentar, desnutrição, conflitos armados, deslocamentos internos, pobreza e redução da ajuda humanitária internacional.
Segundo o plano humanitário das Nações Unidas para 2026, cerca de 4,8 milhões de pessoas necessitam de assistência humanitária, enquanto as maiores necessidades estão concentradas nas áreas de saúde, água e saneamento, segurança alimentar, abrigo e nutrição.
O mesmo documento estima que 3,3 milhões de deslocados internos estejam expostos a riscos de proteção, incluindo violência de gênero, despejos e recrutamento de crianças. [ In Evidence ] Seca e fome: uma emergência que volta a se agravar Um dos principais motivos da atual emergência é a deterioração das condições climáticas.
A falta prolongada de chuvas provocou perdas de colheitas, morte de animais, redução das fontes de água e deslocamento de famílias que dependem da agricultura e da criação de gado.
Em fevereiro, as Nações Unidas advertiram que 6,5 milhões de somalis — cerca de um terço da população — enfrentavam níveis de fome correspondentes à crise ou a situações ainda mais graves.
Mais de 1,8 milhão de crianças menores de cinco anos deveriam sofrer desnutrição aguda em 2026, quase 500 mil delas em sua forma grave.
Em maio, FAO, OCHA, UNICEF e Programa Mundial de Alimentos (PMA) alertaram que aproximadamente 6 milhões de pessoas, ou 31% da população, enfrentariam níveis críticos de insegurança alimentar entre abril e junho.
Cerca de 1,9 milhão de crianças estavam expostas à desnutrição, incluindo 493 mil em situação de desnutrição aguda grave.
A situação é agravada pelo fato de que a capacidade de resposta humanitária diminuiu.
De acordo com a Vatican News, apenas cerca de um terço do orçamento humanitário já reduzido do OCHA havia sido financiado.
O PMA, por sua vez, reduziu drasticamente o número de pessoas atendidas por programas de alimentação, de aproximadamente 2 milhões para cerca de 600 mil em 2026.
Violência e instabilidade política A crise climática acontece sobre uma realidade de décadas de instabilidade.
A Somália enfrenta conflitos internos desde a queda do regime de Siad Barre, em 1991.
O grupo jihadista Al-Shabaab, ligado à rede Al-Qaeda, continua sendo um dos principais atores armados do país e mantém influência sobretudo em áreas rurais.
A violência provoca mortes, destruição de infraestruturas e novos deslocamentos.
Nas últimas semanas, confrontos também atingiram a região de Baidoa, no sudoeste do país, aumentando a insegurança para a população civil.
A situação das crianças é particularmente grave.
Dados das Nações Unidas registram assassinatos e mutilações, violência sexual, sequestros, ataques contra escolas e hospitais e recrutamento e utilização de crianças por grupos armados.
Em 2025, houve aumento de graves violações contra crianças em algumas regiões, associadas principalmente à atividade do Al-Shabaab e de milícias de clãs. [ In Evidence ] Saúde e água também estão sob pressão A emergência alimentar está diretamente ligada à crise dos serviços básicos.
O plano humanitário da ONU estima que 5 milhões de pessoas tenham necessidades na área da saúde e 4,5 milhões em água, saneamento e higiene.
O documento alerta para o fechamento de unidades de saúde, surtos de doenças e dificuldades de acesso à água provocadas pela seca e pela contaminação das fontes durante períodos de enchentes.
A situação é particularmente grave em regiões onde os serviços humanitários estão desaparecendo justamente quando a demanda aumenta.
Na região de Mudug, por exemplo, a organização Médicos Sem Fronteiras informou que mais de 70 unidades de saúde haviam sido fechadas, comprometendo o atendimento primário e os serviços relacionados à desnutrição.
Um círculo vicioso de crises A particularidade da situação somali é que não se trata de uma única emergência.
A seca alimenta a fome; a fome provoca deslocamentos; os deslocamentos aumentam a vulnerabilidade à violência e às doenças; e o conflito dificulta o acesso da ajuda humanitária às populações necessitadas.
Ao mesmo tempo, a insuficiência de financiamento reduz a capacidade das organizações de interromper esse ciclo.
A redução da ajuda internacional chega, portanto, em um momento crítico.
A própria estrutura de segurança do país enfrenta incertezas.
Nesta semana, os Estados Unidos concordaram em conceder às forças de paz da União Africana mais um ano para a retirada gradual do apoio logístico das Nações Unidas, adiando para 2027 parte do processo de redução.
A missão africana depende de apoio internacional para alimentação, combustível, serviços médicos e transporte. [ In Evidence ] O apelo de Leão XIV É nesse contexto que deve ser compreendida a intervenção do Papa.
Leão XIV não se referiu apenas à seca ou à fome, mas apresentou a situação como uma crise humanitária complexa, na qual a violência e os eventos climáticos extremos se somam para agravar as condições de vida.
O apelo também coloca as mulheres e as crianças no centro da preocupação.
São justamente os grupos que enfrentam alguns dos riscos mais graves em situações de conflito, deslocamento e insegurança alimentar.
A mensagem do Papa ocorre, assim, em um momento em que as organizações humanitárias alertam para a deterioração da segurança alimentar e para a insuficiência dos recursos disponíveis.
A preocupação expressa por Leão XIV é, sobretudo, um chamado para que a comunidade internacional não permita que a crise somali desapareça da agenda enquanto milhões de pessoas continuam necessitando de alimentos, água, assistência médica, proteção e condições mínimas para reconstruir suas vidas.