256 anos após a despedida do gênio de Salzburgo de Roma, os instrumentos originais do compositor ressoam no Vaticano, nas mãos dos jovens do grupo "Bella Musica". Neste sábado, 12 de setembro, às 22h do horário italiano, 17h no Horário de Brasília, a Rádio Vaticanao transmite um evento de profundo valor histórico e cultural.
[ Read Also ] Marco Di Battista - Vatican News A última vez que Wolfgang Amadeus Mozart atravessou as portas de Roma para deixá-la foi em 10 de julho de 1770.
Ele tinha 14 anos.
No trono pontifício reinava Clemente XIV e a cidade, encruzilhada cultural da época, já havia reconhecido naquele rapaz vindo de Salzburgo algo que ia muito além do conceito de “prodigioso”: estava-se diante de um músico destinado a transformar a história da música ocidental.
Hoje, 256 anos depois daquela despedida, Mozart volta a percorrer, idealmente, as ruas de Roma.
Ele o faz, naturalmente, por meio da voz acústica mais íntima que já teve: seus instrumentos.
Dois de seus violinos pessoais — o de fabricação Klotz, usado durante a infância, e o Costa de 1764, que o acompanhou na maturidade — foram cedidos, a título totalmente excepcional, pela Stiftung Mozarteum e confiados às mãos dos jovens intérpretes do grupo Bella Musica, a orquestra da Pré-Faculdade da Universidade Mozarteum de Salzburgo.
O concerto ao vivo deles, realizado no último 2 de setembro no coração dos Jardins do Vaticano, será transmitido neste sábado, 12 de setembro, às 22h na Itália, 17h do Horário de Brasília, pela Rádio Vaticano (e posteriormente disponibilizado como podcast).
Um programa com uma simetria histórica particularmente eloquente: em 1770, o jovem Mozart já era um “milagre da natureza” que a Europa admirava.
Em Roma, o pai Leopold apresentou-se munido de cerca de 20 cartas de recomendação, mas a fama do menino já o precedia, abrindo-lhe rapidamente as portas dos palácios da aristocracia e das academias particulares, na presença de príncipes e cardeais.
Os jovens da Bella Musica, por sua vez, estão no início de sua trajetória profissional.
No entanto, justamente nessa aparente distância biográfica, o círculo parece se fechar: a mesma idade, a mesma cidade que os acolhe, a mesma Salzburgo como pano de fundo.
O legado de Mozart não retorna como a epifania de um gênio solitário, mas se manifesta por meio de uma nova geração, chamada a confrontá-lo e, no futuro, a transformá-lo.
Os jovens do Mozarteum vêm de uma geografia diversa, que une Áustria, Itália, Alemanha, Espanha, Eslovênia, Bósnia e Herzegovina, ao lado de talentos da China, Coreia, Tailândia e Irã.
Se no século XVIII a viagem às cortes e cidades italianas era uma necessidade formativa, hoje o nomadismo musical é uma condição estrutural e permanente; em um panorama marcado por audições internacionais, concursos e masterclasses, o talento é apenas o ponto de partida.
O encanto histórico daquela primeira estadia permanece intacto.
Quando Mozart chegou a Roma, era Semana Santa.
No centro espiritual da Europa católica, ele ouviu o famoso “Miserere” de Gregorio Allegri na Capela Sistina e, segundo a lenda, transcreveu-o inteiramente de memória.
Wolfgang era como uma esponja: sua proverbial facilidade de composição não era apenas um dom inato, mas fruto de uma assimilação contínua e de um estudo constante.
Ao retornar de Nápoles, recebeu do Papa a prestigiosa honraria do Speron d’Oro.
Um título de cavaleiro ao qual seu pai, Leopold, dava imensa importância, mas que o jovem Wolfgang, de 14 anos, encarou com leveza, quase como uma brincadeira.
O mundo já o tratava e venerava como um mestre absoluto, mas seu temperamento continuava sendo o de um adolescente.
Esse mesmo frescor juvenil, aliado a um rigor executivo do mais alto nível, ganha vida novamente hoje, demonstrando como o som original de Mozart, confiado às mãos daqueles que representam o futuro, tem um final ainda por escrever.