Dom Herrera: Leão, entre as alegrias e fragilidades do Peru, é para os latino-americanos "um deles"

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Dom Herrera: Leão, entre as alegrias e fragilidades do Peru, é para os latino-americanos "um deles"
Fonte: VATICANO

O prelado, que sucede dom Richard Daniel Alarcón Urrutia, falecido em 30 de outubro, recorda aos meios de comunicação do Vaticano o exemplar ministério de seu predecessor, pastor “próximo das pessoas” e promotor do processo sinodal. Nos últimos dias, ele havia se dedicado à coordenação dos preparativos para a visita de Leão XIV, que estará na América Latina de 6 a 17 de novembro: “Os peruanos o esperam com alegria. Sua presença nos ajudará a ser uma Igreja próxima de todos”.

Tiziana Campisi – Cidade do Vaticano Das costas banhadas pelo Oceano Pacífico à floresta amazônica, das metrópoles coloniais aos Andes, todo o Peru aguarda Leão XIV.

O país será a terceira etapa da viagem apostólica que acontecerá de 6 a 16 de novembro, com início no Uruguai e passagem pela Argentina.

Chega o Papa “peruano”, o agostiniano que, entre as décadas de 1980 e 1990, foi missionário na região de Piura e em Trujillo e que, em 2015, foi escolhido pelo Papa Francisco como bispo de Chiclayo e, cinco anos depois, também como administrador apostólico da diocese de Callao.

Uma nação multiétnica que permaneceu no coração de “padre Roberto”, que jamais esqueceu sua “querida diocese” de Chiclayo, nem mesmo quando foi eleito para a Cátedra de Pedro.

Agora, no Peru, Leão XIV encontrará aquele povo “fiel” que acompanhou seu ministério.

Um povo “feliz” por poder vê-lo nas ruas e praças, desejoso de ouvir seus “ensinamentos”.

Um clima de festa envolve todo o país nestes dias, embora tenha sido entristecido, em 30 de outubro, pela morte do arcebispo de Cusco, dom Richard Daniel Alarcón Urrutia, cujas exéquias são celebradas neste domingo, 1º de novembro.

Quem recorda sua trajetória aos meios de comunicação do Vaticano é dom Lizardo Estrada Herrera, nomeado pelo Papa como arcebispo coadjutor de Cusco em 29 de agosto passado e secretário-geral do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (CELAM).

Religioso agostiniano, natural de Apurímac, o prelado fala do grande compromisso social de seu predecessor, de sua preocupação com os últimos, os mais pobres e vulneráveis, com a formação do clero, a atenção aos jovens e a ampla colaboração com a Conferência Episcopal Peruana, especialmente na promoção do processo sinodal.

Dom Estrada Herrera também descreve a realidade social de seu país, recorda os anos em que padre Robert Prevost foi seu formador e manifesta a fervorosa expectativa pela chegada do Sucessor de Pedro. [ In Evidence ] Dom Estrada Herrera, qual é sua lembrança de dom Alarcón Urrutia?

A morte de nosso querido dom Richard Alarcón Urrutia, arcebispo de Cusco, nos entristeceu profundamente, pois, apesar de estar muito doente, continuou seu trabalho pastoral, já exemplar, com grande entusiasmo.

Lembro-me dele como um pastor muito próximo das pessoas, humilde e austero em seu estilo de vida e no relacionamento com os outros.

Ele se interessava profundamente por todas as dimensões da evangelização integral e estava convencido de que devemos ser evangelizadores alegres, como propõe a Evangelii gaudium.

Não mediu esforços e esteve sempre ao lado de seu povo, em todas as expressões de piedade popular, que tanto apreciava.

Em seu compromisso social, sempre se preocupou para que a Caritas Cusco chegasse aos últimos e aos mais vulneráveis.

Desde o início de seu ministério episcopal, dedicou-se especialmente à justiça, à paz e à salvaguarda da Criação.

Apoiou de todo o coração o trabalho da Conferência Episcopal Peruana, especialmente nas áreas da Pastoral da Saúde, da Caritas, da Liturgia e, mais recentemente, tornou-se um ativo promotor do processo sinodal, apoiando o trabalho da Equipe Nacional do Sínodo.

Também incentivou o vínculo entre paróquias da Alemanha e de Cusco e, em âmbito nacional, com a Arquidiocese de Friburgo, por meio da Partnerschaft, da qual foi presidente durante muitos anos.

Merecem destaque, em seu ministério episcopal, a formação dos sacerdotes e o fortalecimento do clero e da Província Eclesiástica, uma vez que Cusco é uma arquidiocese metropolitana; a promoção da piedade popular e o apoio às comunidades locais; o fortalecimento das paróquias e a manutenção das igrejas; a atenção especial aos jovens; e o apoio aos processos sinodais em todos os níveis.

Nos últimos dias, dedicou-se à coordenação de diversos detalhes preparatórios para a visita do Papa Leão XIV a Cusco, dialogando com a delegação vaticana e com diferentes autoridades governamentais.

Como arcebispo de Cusco, de que maneira dará continuidade ao trabalho iniciado por dom Alarcón Urrutia?

Recolherei o precioso legado de dom Richard Alarcón Urrutia, com quem tive a honra de colaborar como bispo auxiliar e, mais recentemente, como arcebispo coadjutor.

Daremos continuidade ao seu trabalho e às iniciativas por ele aprovadas no Plano Pastoral da Arquidiocese de Cusco, colocando em destaque uma abordagem pastoral atenta à pessoa humana em sua integralidade, nos diversos âmbitos da evangelização, e fortalecendo o processo sinodal na Arquidiocese, que ele apoiou com tanta determinação.

Dar continuidade ao que ele semeou é um desafio.

Confiamos na ajuda de Deus para essa missão. [ In Evidence ] Dom Estrada Herrera, que realidade do Peru o Papa encontrará?

O Peru é um país onde a pobreza ainda existe, sobretudo nas regiões andinas e amazônicas; onde a democracia é frágil; a educação não alcançou todo o território nacional; a assistência médica é precária ou praticamente inexistente nas regiões mais altas e remotas; há muita corrupção e excessiva polarização política; e é necessário fortalecer o cuidado com nossa casa comum.

O Papa encontrará uma nação com seus sofrimentos, mas também com suas esperanças, onde a fé e a piedade popular são fortes, onde se vive a solidariedade entre os mais pobres e a resiliência.

Aqui, as pessoas não enfrentam passivamente as dificuldades e os problemas, mas procuram olhar para frente e construir um caminho de desenvolvimento por meio da solidariedade.

A chegada do Pontífice gerou alegria e esperança em toda parte.

Embora existam diferenças no país, neste momento o Peru está unido, como uma grande família que espera o Papa: um irmão, alguém que conhece sua realidade e que, ao mesmo tempo, é o Vigário de Cristo.

Todos querem ouvi-lo e desejam sua bênção para suas famílias, seu trabalho e seu futuro.

Em quais áreas específicas a Igreja desenvolveu sua atividade pastoral?

A Igreja está presente nas periferias geográficas e existenciais, acompanha aqueles que sofrem, dá voz aos que não a têm, faz-se ouvir na sociedade e promove o caminho sinodal.

Estamos empenhados para que a Igreja escute e dialogue mais, seja mais aberta àquilo que o Espírito Santo sugere e dê mais espaço aos leigos e aos jovens.

Todos os dias, a Igreja se dedica à evangelização integral e se esforça para fortalecer o ensinamento de sua Doutrina Social.

Os bispos se reúnem duas vezes por ano em Assembleia para refletir juntos, decidir o que fazer, trocar opiniões e transmitir uma mensagem sobre a vida social, a pastoral, a liturgia e a catequese.

Em resumo, procuramos nos renovar para responder aos desafios de nosso tempo com o Evangelho e a Doutrina Social da Igreja.

Sem dúvida, as palavras do Papa, sua visita e os eventos que viveremos com ele nos darão um novo impulso.

Somos chamados a desenvolver um programa missionário e pastoral abrangente, em resposta às realidades que nos interpelam, como a migração, a pobreza e a corrupção, mas também a solidariedade.

A presença do Pontífice será importantíssima, porque ele é nosso pastor, nosso guia, e nos ajudará a permanecer unidos, a nos orientar para o bem comum e para a construção da paz com justiça, a melhorar a formação de sacerdotes, bispos e leigos e a ser uma Igreja próxima de todos, pobre e para os pobres, atenta à Criação. [ In Evidence ] Qual é hoje a relação dos leigos com a Igreja no Peru?

Em primeiro lugar, existe uma grande devoção popular, que se expressa de diversas maneiras, mas que é algo que une as pessoas em todo o país.

Por exemplo, no sul, são realizadas grandes procissões ou peregrinações uma vez por ano, embora muitos dos que delas participam não frequentem a Missa todos os domingos.

Para os peruanos, a Igreja é uma instituição na qual se pode confiar.

Eles sentem sua proximidade e valorizam seu trabalho social, especialmente nas áreas da educação e da saúde.

Acima de tudo, veem a Igreja como um lugar de escuta, esperança e oração, que promove o sentido de família e de pertencimento à comunidade.

Embora o ideal que buscamos nem sempre corresponda àquilo que realmente somos e, em alguns casos, circulem nas redes sociais conteúdos negativos que influenciam negativamente o pensamento das pessoas, temos esperança de poder avançar.

Por isso, é essencial cultivar o pensamento crítico e o compromisso com a fraternidade e a solidariedade.

A maioria das pessoas acredita na Igreja, apesar de suas limitações, escuta e aprecia seus ensinamentos e, em muitos lugares, participa das celebrações religiosas anuais, vestindo roupas tradicionais, cantando, dançando ou manifestando-se de outras maneiras.

É evidente que as pessoas têm uma relação com Deus e se dedicam a atividades de voluntariado.

No entanto, a oração ainda é insuficiente e precisa ser intensificada.

Também é necessário aprofundar a compreensão da opção preferencial pelos pobres e da solidariedade para com eles, assim como o cuidado com a casa comum.

O senhor é natural da província de Cotabambas, uma das três províncias de altitude de Apurímac, onde, no final da década de 1960, chegaram os missionários agostinianos italianos.

Que momento essa região vive atualmente?

Nos Andes de Apurímac, a uma altitude de 3 mil a 3.500 metros, os agostinianos italianos chegaram em um período muito difícil: havia o terrorismo, e eles se dedicaram inteiramente aos pobres, à educação das crianças, a garantir, na medida do possível, o acesso à assistência médica e ao desenvolvimento humano integral.

Fizeram muitíssimo.

Hoje, as coisas mudaram.

Sim, houve progressos, e as estradas melhoraram um pouco.

Atualmente, concentramos nossos esforços principalmente na ajuda aos idosos, porque os jovens se mudam para as cidades e muitos deles acabam ficando sozinhos.

Além disso, são necessários outros tipos de serviços e programas sociais para o desenvolvimento humano.

A sociedade peruana mudou.

Estamos progredindo tecnologicamente, mas falta humanidade e senso de comunidade; há mais egoísmo.

Hoje, sobretudo nas cidades, as pessoas têm uma casa, às vezes um carro, mas estão perdendo sua vida social e seu senso de comunidade.

Estão se isolando.

Falta solidariedade e colaboração em favor do bem comum.

Precisamos nos empenhar para que as novas tecnologias, que também têm aspectos positivos, não dividam nem afastem as pessoas, pois apresentam riscos, como afirmou Leão XIV na encíclica Magnifica humanitas.

Ainda há muito a fazer em Apurímac.

Persistem os problemas relacionados à assistência médica, que não chega a todos; a educação ainda não alcançou um nível ideal; faltam serviços de apoio aos idosos; persistem profundas desigualdades sociais e faltam oportunidades de trabalho. [ In Evidence ] Dom Estrada Herrera, o senhor é religioso agostiniano e sua vocação nasceu justamente em Apurímac.

Como ela amadureceu?

Minha família é muito católica.

Meus pais iam à Missa todos os domingos e me transmitiram a fé.

Além disso, onde eu morava, havia missionários agostinianos, os únicos responsáveis pelo atendimento pastoral naquela região.

Uma vocação é um chamado.

Sentia em meu coração que algo estava acontecendo e, por isso, pedi ajuda aos frades agostinianos e a outras pessoas para tentar compreender.

Também rezei muito para entender qual era o meu caminho.

Os agostinianos foram para mim um espelho, um exemplo, também para todos.

Observava seu trabalho, escutava suas pregações, via como ajudavam muitas pessoas, anunciavam o Evangelho e permaneciam ao lado dos mais pobres.

Aquela maneira de dedicar a vida à missão, de se oferecer inteiramente aos outros, me inspirou.

Então pensei que talvez também pudesse fazer o mesmo.

Assim, rezei, minha mãe rezou e minha família rezou.

Decidi, então, entrar no seminário e, graças a Deus, com a ajuda de muitos agostinianos, de muitos italianos, familiares e amigos, continuei meu caminho.

Leão XIV também me ajudou muito no discernimento.

O senhor conheceu o confrade Robert Prevost em Trujillo.

O que recorda daqueles anos?

Quando entrei no seminário, depois dos estudos de Filosofia em Apurímac e de concluir o noviciado, fui para Trujillo estudar Teologia.

Era 1996/1997 e, naquela época, padre Prevost era o responsável pela formação.

Lembro que éramos muitos — de Iquitos, Chulucanas, Piura, Cusco e de várias partes do Peru — estudando e aprofundando cada um a própria vocação.

Padre Prevost foi meu professor e diretor de estudos, e também o vi empenhado como pároco.

Era como um irmão para mim, porque fazíamos parte da mesma comunidade; era um amigo, um guia.

Acima de tudo, sabia sempre escutar.

Interessava-se em saber como eu estava e o que tinha a dizer.

Recordo, em particular, sua paciência.

Juntos, visitamos diversas cidades do país.

Ele nos exortava a ser bons missionários, bons párocos e bons irmãos.

Preocupava-se com o bem-estar geral dos seminaristas.

Muitos deixaram o seminário, mas nós permanecemos, graças ao apoio que recebemos e ao incentivo à oração, ao estudo e ao trabalho pastoral.

Prevost sempre encorajava a todos.

Qual é o ensinamento mais precioso que o senhor recebeu do confrade Prevost?

Em primeiro lugar, o ensinamento agostiniano que incentiva a cultivar a vida interior e a oração.

Uma oração que nos leva a encontrar Deus, não apenas na busca pessoal, mas também nos pobres, nos doentes, nos idosos e nos presos.

Prevost era uma pessoa que escutava sem preconceitos e procurava sempre o bem de todos.

Mas a lição mais importante era aquela que repetia constantemente a todos: onde quer que vocês sejam enviados em missão, não levem Deus, mas encontrem Deus nas pessoas mais pobres.

Atualmente, onde e como está presente a família agostiniana no Peru, tanto masculina quanto feminina?

Nós, agostinianos, estamos presentes em Cusco, Apurímac, Lima, Trujillo, Chiclayo, na floresta amazônica, em Iquitos, na Amazônia, em Chulucanas e em Piura.

No Peru, temos uma província e três vicariatos.

Há também religiosas que seguem a Regra de Santo Agostinho e trabalham em diferentes localidades.

Somos muitos.

Às vezes, nos reunimos todos.

Também trabalhamos juntos e colaboramos entre nós.

As religiosas agostinianas dedicam-se principalmente à educação; estão ao lado dos pobres e dos órfãos e participam do trabalho pastoral e de diversos projetos sociais.

O senhor é secretário-geral do CELAM, o Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho, e, portanto, tem uma visão ampla dos países que Leão XIV visitará: Uruguai, Argentina e Peru.

Qual é o clima de expectativa?

As pessoas estão muito felizes, emocionadas e cheias de esperança com a visita do Papa.

No Uruguai e na Argentina há grande entusiasmo.

Todos estão se preparando com muita fé, por meio da oração, de programas e de iniciativas sociais.

Há muita movimentação e, sobretudo, alegria.

A visita do Papa é um bem para todos, crentes e não crentes.

Aqui na América Latina, as pessoas se sentem muito próximas de Leão XIV, como demonstram as fotografias de Prevost quando vivia no Peru, entre as pessoas de Chiclayo e de outros lugares, que deram a volta ao mundo.

Para os latino-americanos, o Papa é um dos nossos, alguém que percorreu nossas estradas, inclusive nas regiões mais difíceis, alguém que conhece nossa realidade e nossa cultura e aprecia e saboreia a culinária local.

Como a Igreja se preparou para a visita do Papa?

Foram organizados diversos encontros em diferentes países.

No Peru, por exemplo, foi constituída uma Comissão Nacional, composta por bispos, leigos e comissões diocesanas, que trabalhou nas áreas da liturgia, da logística e da organização em vários níveis.

Também estamos nos preparando espiritualmente.

Aprofundamos alguns discursos do Papa, a Exortação Apostólica Dilexi te e a encíclica Magnifica humanitas, para compreender melhor seu pensamento e sua mensagem, aquilo que está dizendo à Igreja.

Além disso, a Conferência Episcopal Peruana publicou diversos subsídios para reflexão e preparação.

Pessoalmente, como o senhor está vivendo este momento de expectativa?

É uma emoção profunda, indescritível, algo que só pode ser experimentado.

Acredito que o Papa está ...

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