O IV Encontro Latino-Americano e Caribenho de Responsáveis pela Cultura do Cuidado realizado em Brasília/DF para fortalecer a cultura do cuidado no continente já tem novo sede em 2027: Honduras. Ao final do evento no Brasil, arcebispo José Domingo Ulloa pediu aos bispos que assumissem pessoalmente a responsabilidade pastoral de prevenir abusos, ouvir as vítimas e garantir comunidades seguras, transparentes e confiáveis.
Marcus Tullius Oliveira* Com um firme compromisso de transitar dos protocolos para uma verdadeira cultura do cuidado, o IV Encontro da Rede Latino-Americana e Caribenha para a Cultura do Cuidado terminou na última quinta-feira, 3 de setembro.
Durante as jornadas finais na Casa Dom Luciano Mendes de Almeida, em Brasília/DF, os delegados seguiram os espaços de diálogo por regiões e organismos (Caribe, CAMEX, países bolivarianos e Cone Sul), orientados a articular ações concretas para fortalecer a rede no continente.
Ao final das sessões, o animador da rede, Pe.
Pedro Brasseco anunciou oficialmente que a zona da América Central e México (Camex) receberá o V Encontro da rede em setembro de 2027.
O país escolhido para ser o anfitrião foi Honduras, celebrado por todos os presentes. [ Photo Embed: A quarta edição do encontro foi realizado em Brasília/DF durante três dias] Dom Diquattro: a prevenção como prova da missão eclesial O núncio apostólico no Brasil, dom Giambattista Diquattro, participou do último dia do encontro e apresentou uma mensagem ressaltando que a iniciativa reflete sobre uma responsabilidade que está no centro da missão eclesial.
O representante pontifício destacou que "a prevenção de abusos coloca à prova a maneira como anunciamos o Evangelho, exercemos a autoridade e zelamos pelas pessoas confiadas a nossas comunidades".
Dom Diquattro revisou a evolução histórica da proteção desde o direito romano até a doutrina atual da Igreja e insistiu que a mudança decisiva exige corrigir a ideia de que os perigos procedem unicamente de indivíduos isolados.
Referindo-se à V Conferência do Episcopado Latino-Americano e Caribenho, sublinhou que o Documento de Aparecida “exige uma ação prioritária por parte da Igreja, da família e do Estado em favor da infância, e menciona a pobreza, a violência doméstica, o abuso sexual, o trabalho infantil, a vida nas ruas, a pornografia e a prostituição forçada”. O arcebispo, em sua intervenção, advertiu que a salvaguarda é uma resposta integrada em um plano mais amplo: “agir antes, através da prevenção e da capacitação; durante a ocorrência do caso, com a escuta e os procedimentos adequados; e depois, por meio do acompanhamento, da reparação e da redução de riscos”.
As vulnerabilidades do ecossistema digital Um eixo central da intervenção do diplomata vaticano foi dedicado à encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV e às vulnerabilidades do ecossistema digital, definindo-o não como um espaço isolado, mas como o ambiente cotidiano onde menores e adultos vulneráveis também se educam e relacionam.
Reafirmando que a pessoa vem antes do dispositivo, o núncio enfatizou que o limite continua sendo claro: “a máquina processa dados, identifica correlações e gera respostas; não tem consciência, nem experimenta a dor, nem tem responsabilidade moral pelas consequências.
O julgamento de uma pessoa não pode delegar-se a ela”.
Em suas conclusões, dom Diquattro propôs cinco critérios mínimos e verificáveis para favorecer a cultura do cuidado: garantir canais de escuta com resposta em prazos definidos; assegurar formação obrigatória e periódica para o clero, a Vida Consagrada, pessoal e de voluntários das instâncias eclesiais; delimitar por escrito a investigação canônica do acompanhamento pastoral e a colaboração civil; auditar anualmente as políticas digitais com especialistas externos e estruturar redes interdiocesanas com universidades, profissionais e órgãos públicos que apoiem as comunidades com menos recursos técnicos e humanos.
Dom Ulloa: "a responsabilidade não se delega" No encerramento do encontro, dom José Domingo Ulloa Mendieta, arcebispo do Panamá e segundo vice-presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam) enfatizou a corresponsabilidade de toda a Igreja com a cultura do cuidado, mas fez um apelo direto e exigente aos bispos: "Esta responsabilidade não se delega.
Podemos e devemos contar com profissionais, comissões e equipes preparados, mas a responsabilidade pastoral última nos cabe.
Não basta aprovar protocolos ou receber relatórios.
Temos que nos envolver, escutar, acompanhar, supervisionar e tomar decisões." O chamado aos bispos, segundo dom Ulloa, é que as equipes precisam contar com o respaldo de seus pastores e que as comunidades de fé precisam perceber que esta é uma necessidade pastoral.
Para ele, “o compromisso episcopal deve se traduzir em fatos concretos: formação permanente, estruturas que funcionem, escuta responsável, transparência, acompanhamento e prestação de contas”. "Sua dor nos importa" O arcebispo de Panamá se dirigiu com especial deferência aos sobreviventes e vítimas de abusos, afirmando com humildade: "sua dor nos importa, sua palavra nos interpela e sua história nos compromete.
Não queremos que caminhem sozinhos.
Obrigado aqueles que tiveram a coragem de falar e nos ajudaram a reconhecer realidades que muitas vezes não soubemos ou não quisemos ver".
Da mesma forma, ressaltou que a liderança pastoral deve se traduzir em transparência, prestação de contas e a coragem de corrigir erros.
Ao convocar os delegados a retornarem às dioceses com o compromisso de transformar as reflexões em ações concretas, o vice-presidente do Celam concluiu lembrando que a autoridade dos pastores encontra seu sentido evangélico no serviço à dignidade humana.
O caminho da rede regional continuará sua atividade de articulação contínua visando a próxima reunião continental em território hondurenho. * ADN Celam com a colaboração do Núcleo Cuidado e Salvaguarda da Rede Eclesial de Comunicação da América Latina e do Caribe (Reclac)