Fernández: todas as religiões são pela paz, jamais pela guerra

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Fernández: todas as religiões são pela paz, jamais pela guerra
Fonte: VATICANO

Entrevista com o cardeal prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé sobre “Um caminho de esperança”, nota publicada por ocasião dos 60 anos da declaração conciliar Nostra aetate.

Em um mundo de divisões, guerras e violências, no qual o componente religioso é frequentemente apontado entre os motivos de confronto, que valor e atualidade tem a Declaração conciliar Nostra aetate?

No número 9 da Nota, recorda-se uma passagem fundamental do parágrafo 5 da Declaração Nostra aetate, segundo a qual: «Não podemos invocar Deus como Pai de todos os homens se nos recusamos a nos comportar como irmãos em relação a alguns dentre os homens, criados à imagem de Deus. [...] A Igreja reprova, como contrária à vontade de Cristo, qualquer discriminação entre os homens e perseguição perpetrada por motivos de raça e cor, condição social ou religião».

Trata-se de uma indicação da máxima relevância também para o nosso contexto atual.

Cada religião e todas as religiões são para a paz.

Nunca para a guerra.

Não é por acaso, aliás, que o próprio Pontífice Leão XIV reiterou com grande ênfase o mesmo princípio em sua encíclica Magnifica Humanitas, no parágrafo 223: «Quem usa o nome de Deus para legitimar o terrorismo, a violência ou a guerra trai o seu rosto: combater em nome da religião significa, na realidade, atingir a própria religião.

O “espírito de Assis”, suscitado por São João Paulo II e continuado no compromisso do Papa Francisco — por exemplo, no diálogo com o grão-imame de Al-Azhar —, mostra que os fiéis podem voltar a beber das fontes mais autênticas das próprias tradições espirituais, nas quais não há espaço para o ódio sacralizado». [ In Evidence ] O que significa, concretamente, hoje, “dialogar”?

Como evitar, de um lado, o risco do fechamento identitário e, de outro, o risco do sincretismo?

Gosto de recordar aqui o que São João Paulo II dizia a respeito do diálogo.

Conta-se, de fato, que, em diversas conversas privadas, destacava a urgência de conjugar a máxima identidade com o máximo diálogo.

Na verdade, o diálogo autêntico é, ao mesmo tempo, “anúncio”, pois, precisamente no diálogo, cada um deve mostrar claramente ao outro a própria identidade e procurar manifestá-la em toda a sua beleza e harmonia.

Tudo isso está relacionado com o que se encontra felizmente expresso em Dilexit nos, onde, nos números 209 e 210, recorda-se que a missão do anúncio do Evangelho requer «missionários apaixonados, que se deixem ainda conquistar por Cristo e que não possam deixar de transmitir esse amor que transformou a vida deles.

Por isso, causa-lhes dor perder tempo discutindo questões secundárias ou impondo verdades e regras, porque sua principal preocupação é comunicar aquilo que vivem e, sobretudo, que os outros possam perceber a bondade e a beleza do Amado através de seus pobres esforços».

E que, em tudo isso, não há ato de proselitismo, pois «as palavras de quem está apaixonado não perturbam, não impõem, não forçam; apenas levam os outros a se perguntar como é possível um amor assim.

Com o máximo respeito pela liberdade e pela dignidade do outro, quem está apaixonado simplesmente espera que lhe seja permitido contar essa amizade que preenche a sua vida». [ In Evidence ] Nostra aetate afirma que o diálogo com as outras tradições religiosas “faz parte da missão evangelizadora da Igreja”.

O que isso significa?

A Igreja é, em todas as épocas, sacramento do imenso amor que Deus tem por todos os homens e mulheres da terra e, por isso, empenha-se concretamente em anunciar a fé em Cristo ressuscitado e em seu Evangelho, para que possa surgir o quanto antes um futuro de paz, fraternidade, justiça, respeito e amor.

Mas, na verdade, são muitos os obstáculos a esse “projeto de uma civilização do amor”, para usar as palavras de São Paulo VI, recentemente retomadas pelo Papa Leão XIV.

De fato, difundiu-se e continua a se difundir cada vez mais um individualismo terrível e uma forma igualmente perniciosa de egolatria, que leva todos, em maior ou menor medida, a se fecharem em si mesmos e a pensar que os outros simplesmente não existem.

Ao se opor a tudo isso, a Igreja, de um lado, ao encontrar fiéis de outras tradições religiosas, quer oferecer um testemunho de amor fraterno; de outro, sente como natural o desejo de dialogar e colaborar com as demais tradições religiosas, para permitir que cada ser humano compreenda a verdade de que somente quem ama o próximo é verdadeiramente capaz de ser feliz. [ In Evidence ] 

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