Da Bienal de Veneza, onde o seu filme “Odju Azul di Yonta”, restaurado pela Cinemateca Portuguesa, foi acolhido na secção dos clássicos, com gritos e aplausos, o cineasta da Guiné-Bissau, Flora Gomes, partilhou com a Rádio Vaticano o entusiamo e a energia que isso lhe transmitiu, e teceu algumas reflexões sobre a Guiné que, a seu ver, perdeu a bússola, mas a pode recuperar. Basta querer. Flora fala ainda do que o anima na arte cinematográfica e do importante projeto em que está a trabalhar.
Dulce Araújo - Vatican News O Filme “Odjo Azul di Yonta” (Olhos Azuis de Yonta), realizado em 1992 pelo cineasta da Guiné-Bissau, Flora Gomes, e recentemente restaurado pela Cinemateca Portuguesa, foi projetado no sector dos clássicos da 83ª Mostra Internacional de Arte Cinematográfica, que decorre de 2 a 12 deste mês em Veneza, no norte da Itália.
Pela terceira vez em Veneza Esta é a terceira vez que Flora vê um seu filme projetado nesta prestigiosa Bienal: em 1988 apresentou na “Semana da Crítica” o filme “Mortu Nega”; regressou em 2002 com “Nha Fala”, em competição, e agora em 2026 com “Odju Azul di Yonta”.
O filme que fora selecionado em 1992 na secção “Un Certain Regard” do Festival de Cannes, no sul da França, chega agora a Veneza em versão restaurada.
Projetado no dia 5, foi acolhido com gritos e aplausos pelo público, deixando Flora surpreendido e feliz - revelou em entrevista à Rádio Vaticano, acrescentando que isto o encorajou muito e lhe fez sentir “um verdadeiro filho de Amílcar Cabral”.
Reencontrar a bússola O filme apresenta, numa ótica positiva, a “geração dos pneus” que sonhava uma Guiné feliz, mas perdeu-se a bússola - afirma o realizador.
Há que dialogar para a recuperar.
Flora diz inspirar-se no surrealismo e quando no enredo do filme tudo parece bloquear-se, percebe-se que basta virar a página para que tudo mude e os sonhos se possam realizar.
São sonhos não apenas de jovens guineenses, mas de todos os jovens e é isso um dos aspetos que faz deste filme, um filme para todos.
Aliás, frisa o autor, “faço filmes para a humanidade”.
Temática e estilo Outro aspeto que faz de “Odjo Azul di Yonta” um clássico para todos, é, para além da temática, o estilo: “é um filme em que se fala pouco, a imagem fala por si só”, som, música, costumes, “isto mexeu com o público” - sublinha Flora Gomes. [ Photo Embed: Flora Gomes, na Bienal de Veneza 2026] Quem sou eu para mandar recados Restaurado, o filme volta a estar disponível e a ter mais visibilidade, mas constitui também um recado às autoridades guineenses, africanas, a valorizar mais o cinema? “Certamente sim, mas quem sou eu para dar recado”, responde Flora Gomes, recordando que grandes cineastas como Ousmane Sembène, Souleimane Cissé e outros tinham grandes projetos que não realizaram por falta de meios.
Mas é claro que “quanto maior atenção se der à cultura, maior visibilidade tem o país.” A nova geração As numerosas mensagens recebidas por ocasião do entusiasmante acolhimento de “Odju Azul di Yonta” em Veneza, deixaram Flora Gomes convicto de que há pessoas com visão clara, capazes de recuperar a bússola. “Basta sentar-se à volta duma mesa” para se encontrar a cara do “Homem Novo” de que falava A.
Cabral, o qual salientava no guião do primeiro filme da Guiné - “somos um povo pacífico” - recorda Flora.
A mensagem que vem do filme é a esperança na nova geração. Projeto de filme documentário sobre Amílcar Cabral E é precisamente Amílcar Cabral o fulcro do filme-documentário “Sou um simples africano” sobre o qual Flora e outros cineastas da Guiné-Bissau estão a trabalhar.
Ele acredita que em breve poderá estar pronto.
Há promessas de fundos.
No país, não tem sido possível, “pois Cabral era um homem limpo” e Flora não quer meter-se em coisas “pouco claras” - sublinha.
Um filme que não deixará de recordar as várias figuras que lutaram pelas independências dos atuais PALOP, sem esquecer a importante audiência do Papa Paulo VI aos líderes dessas independências.
Isso “ajudou a compreender o pensamento” desses líderes - afirma Flora Gomes.
A questão ambiental A conversa com Flora Gomes verte ainda sobre a sua apetência a tratar questões ambientais nos seus trabalhos.
O filme “Pó di Sangui” sobre a relação entre o homem e a natureza é um deles.
A visão cosmogónica da África pode ser uma grande contribuição do continente para a questão ambiental de que tanto se fala hoje, concorda.
Uma chama de energia Por fim, para além do entusiasmo pelo acolhimento de “Odju azul de Yonta” na Bienal de Veneza, Flora Gomes que muitos acreditavam ter-se afastado da realização cinematográfica para fundar um partido, diz: “a minha vinda aqui foi uma chama de energia” para poder continuar a contar história da África para a humanidade, pois que faz filmes não só para africanos, mas para a humanidade toda. [ Audio Embed Oiça aqui a entrevista e partilhe]