Alguns reinos africanos passaram a depender desse comércio para manter seu poder militar e político. Com colaboração ativa de elites locais, chefes de guerra, comerciantes e governantes é que o tráfico atlântico atingiu a dimensão que atingiu.
Padre José Inácio de Medeiros, CSsR - Instituto Histórico Redentorista Antes da chegada dos europeus na África já existia a realidade da escravisão seja acima como abixo do Deserto do Saara. A escravatura não nasceu com os países europeus, mas ganharam com eles dimensões nunca vistas, pois a escravidão ganha uma nova dimensão com comércio transatlântico. Quando os europeus avistaram África pela primeira vez no século XV, encontraram reinos bem organizados, alguns deles envolvidos num sistema de captura, servidão e comércio de pessoas. Estrutura social e comércio de pessoas A África estava inserida em redes de comércio de escravos antes dos europeus. O comércio transaariano e árabe,por exemplo, levou milhões de africanos para o Norte de África, Oriente Médio e Ásia. Alguns reinos africanos participavam da economia baseada na escravidão, trocando cativos por sal, tecidos, ouro e, mais tarde, por armas. Em algumas regiões, a escravatura fazia parte da própria estrutura social e alguns reinos dependiam dela para sustentar a economia e afirmar o seu poder político. Prisioneiros de guerra, devedores, condenados por crimes de natureza civil ou povos considerados de fora podiam ser transformados em escravos,, ou seja, o risco da escravização era um fenómeno que fazia parte da vida política africana. Outro elemento que foi se consolidando com o tempo foi a constituição de algumas cidades como mercados para o comércio de escravos. Cidades como Benim ou Timbuktu tinham praças de venda onde as elites africanas comercializavam pessoas capturadas em guerras ou disputas internas. Quando os portugueses, por exemplo, começaram a negociar, não inventaram nada, entrando num sistema que já funcionava, comprando aquilo que os próprios africanos vendiam. Só mais tarde o tráfico transatlântico transformaria este comércio numa engrenagem global. O que mudou com a chegada europeia não foi a existência da escravatura, mas a sua escala e intensidade. Armas de fogo, tecidos e bens de maior valor oferecidos pelos portugueses e, depois, por outras potências europeias aumentaram drasticamente o número de guerras internas. Alguns reinos africanos passaram a depender desse comércio para manter seu poder militar e político. Com colaboração ativa de elites locais, chefes de guerra, comerciantes e governantes é que o tráfico atlântico atingiu a dimensão que atingiu. Diversificação de formatos A escravatura praticada na África não era uniforme, existindo formas mais brandas em que o escravisado era integrado na servidão doméstica, mas também existiram formas extremamente violentas com trabalho forçado em larga escala, deportações internas, castigos severos e utilização de cativos como moeda diplomática. Houve povos e líderes africanos que resistiram ativamente em relação tanto da escravatura interna como ao tráfico transatlântico. Em certas regiões do Congo, houve tentativas de restringir e mesmo de proibir o comércio de escravos com europeus. Além do mais, pessoas que haviam fugido fundaram comunidades livres em zonas de difícil acesso. A grande responsabilidade europeia esta na industrialização do tráfico de pessoas pela exploração de rivalidades entre tribos, pelo favorecimento a chefes de guerra que lucravam com a venda de prisioneiros. Os europeus ampliaram a sistemática da escravatura e a transformaram num negócio internacional de escala brutal e muito lucrativo. Por isso, a escravidão de pessoas continua sendo uma das chagas mais profundas da história da humanidade em todos os formatos, em todos os tempos e lugares.