A Diocese de Jaffna, em cujo território se encontra a vala comum, mobilizou-se para pedir uma investigação internacional independente e análises forenses precisas que possam esclarecer as descobertas de ossos e esqueletos que poderiam pertencer a pessoas desaparecidas há décadas. Também foram encontrados restos mortais que poderiam pertencer a crianças e recém-nascidos. Padre Augustine Anthonipillai, diretor da Comissão Diocesana de Justiça e Paz: essencial buscar a verdade.
Federico Piana – Cidade do Vaticano Ao final, os especialistas médico-legais e arqueólogos encontraram em suas mãos também restos humanos que, pelas dimensões e características, poderiam ser de crianças e recém-nascidos.
Houve também quem, sob montes de terra, se deparasse com esqueletos com os braços cruzados atrás das costas ou encontrados em posição sentada, com as mãos amarradas.
Na vala comum de Chemmani, localizada na península de Jaffna, no norte do Sri Lanka, essa equipe de especialistas trabalhou até agosto passado, concluindo a terceira campanha de escavações iniciada em 2025 e supervisionada pelo Tribunal de Jaffna.
Grupos de esqueletos e ossos Até agora, os grupos de ossos e esqueletos encontrados totalizam 583, mas isso não significa que tenham sido encontrados 583 cadáveres: podem ser menos.
Ou muitos mais.
A verdade só será conhecida depois das análises forenses, que ainda estão demorando.
O mesmo ocorre com a realização dos exames de DNA, úteis para identificar os restos mortais e reconstruir seus vínculos familiares.
Longo silêncio Desde que foi descoberta, em 1998, após a denúncia de um soldado cingalês que apontou a área como local de sepultamento de homens e mulheres que teriam desaparecido e posteriormente sido mortos durante uma campanha de violência da qual declarou ter participado, Chemmani permanece um mistério.
Depois das primeiras escavações, em 1999, quando foram encontrados 15 corpos, nada mais se soube até 2025, ano em que foram determinadas três novas campanhas de escavação. [ Photo Embed: Participantes na manifestação por justiça e verdade.] Imponente manifestação Antes que a equipe de especialistas tivesse concluído seu trabalho, no último dia 30 de julho, o padre Augustine Anthonipillai permaneceu durante longo tempo, de pé, observando Chemmani.
Junto com cerca de uma centena de pessoas, havia chegado ao local depois de conduzir uma procissão que partiu da estátua de São Judas Tadeu, no bairro de Ariyalai, na cidade de Jaffna. “Paramos nas proximidades das escavações, ao lado do cemitério de Siththuppaththi, e comigo estavam muitos sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos católicos”, conta aos meios de comunicação do Vaticano o diretor da Comissão de Justiça e Paz da Diocese de Jaffna.
Talvez pela primeira vez na história da maior vala comum de todo o Sri Lanka, o padre Anthonipillai conseguiu organizar a mais imponente manifestação pública para pedir verdade e justiça sobre um episódio que ainda apresenta contornos muito obscuros. “Foi um protesto pacífico, marcado pela oração e pelos valores morais, por meio do qual a Igreja pediu que todo o processo — desde as escavações até a atribuição de responsabilidades — seja confiável, independente e centrado nas vítimas.” Apelo às Nações Unidas Ao final da manifestação, o religioso fez questão de ler em voz alta uma carta aberta dirigida ao Alto Comissário das Nações Unidas, Volker Türk.
Nela, solicitou, entre outras medidas, uma investigação internacional objetiva, análises forenses e de DNA independentes, a participação das famílias das pessoas desaparecidas, a proteção de testemunhas e defensores dos direitos humanos, além da recuperação e conservação dos restos mortais de acordo com o Protocolo de Minnesota.
O “Protocolo de Minnesota sobre a investigação de mortes potencialmente ilícitas”, adotado pela ONU em 1991 e revisado em 2016, estabelece não apenas que as investigações devem ser independentes, imparciais e realizadas em tempo oportuno, mas também determina que as evidências sejam tratadas de maneira a evitar alterações ou deterioração. [ Photo Embed: O protesto pacífico organizad pela Diocese de Jaffna] Ponto fundamental Esse é um ponto fundamental para o caso de Chemmani, pois poderá permitir estabelecer, em uma futura instância judicial, quem são as vítimas, como morreram e se suas mortes foram resultado de violência. “A busca pela verdade deve se tornar uma responsabilidade moral nacional”, repete frequentemente o padre Anthonipillai, consciente de que, por enquanto, as mortes de Chemmani não podem ser relacionadas diretamente à guerra civil — que durou 26 anos e terminou em 2009 — entre a maioria cingalesa e os separatistas da minoria tâmil.
Embora a vala comum esteja localizada no centro de uma das áreas mais afetadas pelo conflito, isso não faz automaticamente dela um local de sepultamento das atrocidades cometidas durante a guerra.
Mas as famílias das pessoas desaparecidas durante aquele período de ódio e violência querem saber.
Querem saber se seus entes queridos desapareceram, foram torturados, mortos e depois enterrados sob a terra de Chemmani por uma ou outra das facções em conflito.
Perguntas inquietantes O padre Anthonipillai, que conhece bem essas famílias, revela que “para muitos deles, a pessoa desaparecida nunca se tornou simplesmente ‘morta’.
Não houve confirmação, nenhum corpo identificado, nenhum túmulo, nenhum funeral e nenhuma resposta definitiva.
Isso gera uma forma peculiar de sofrimento: vive-se simultaneamente na dor e na incerteza”.
E então surgem perguntas que se transformam no grito de toda uma sociedade: “Quem é culpado por essas mortes?
Quem ordenou, permitiu ou encobriu os assassinatos?
Por que as investigações anteriores fracassaram?
E como o país pode impedir que crimes desse tipo voltem a acontecer?”.
A dor das famílias A Ared, uma das associações que reúne famílias de pessoas desaparecidas no norte, reiterou diversas vezes a necessidade de não deixar exclusivamente às autoridades do Sri Lanka a tarefa de realizar as investigações, mas ampliá-las para incluir profissionais forenses internacionais e, imediatamente após a identificação das vítimas, garantir a abertura de um processo para responsabilizar os culpados.
Também para o governo a verdade continua sendo uma prioridade, mas deve ser alcançada por meio de uma investigação conduzida por órgãos nacionais, sem excluir a colaboração internacional “se e quando for necessária”, afirmou o ministro da Justiça, Harshana Nanayakkara.
Segundo ele, “foram destinados recursos financeiros suficientes para prosseguir com as escavações e concluí-las no menor tempo possível”.
Não esquecer Em toda essa questão, explica o diretor da Comissão de Justiça e Paz da Diocese de Jaffna, a “Igreja não pede vingança.
Pede a verdade como fundamento da reconciliação.
A reconciliação cristã não pode significar simplesmente levar as pessoas envolvidas a esquecer.
Tampouco a paz pode significar calar diante da injustiça.
Não pode haver verdadeira reconciliação sem verdade, justiça e reconhecimento da dignidade das vítimas”. “A Igreja tem, portanto, uma responsabilidade pastoral especial para com as famílias.
Deve estar ao lado daqueles que estão de luto, ouvir aqueles que foram ignorados e garantir que os mortos sejam tratados com dignidade.” Isso significa que, se ainda for necessário manifestar-se diante da terra escura de Chemmani, sacerdotes, religiosas, religiosos e leigos não recuarão: estarão todos novamente ali.
Mais uma vez.