A liberdade religiosa, o diálogo inter-religioso e a proteção dos direitos fundamentais estiveram no centro do discurso pronunciado em Islamabad pelo secretário para as Relações com os Estados e as Organizações Internacionais, por ocasião do congresso que celebrou o 75º aniversário das relações diplomáticas entre a Santa Sé e o Paquistão.
Stefano Leszczynski - Vatican News A diplomacia da Santa Sé não busca interesses econômicos ou políticos, mas se coloca a serviço da dignidade humana, da liberdade religiosa e da paz.
Essa foi a mensagem central da intervenção pronunciada nesta quinta-feira, 9 de outubro, pelo arcebispo Paul Richard Gallagher, secretário vaticano para as Relações com os Estados e as Organizações Internacionais, durante o congresso organizado em Islamabad para celebrar o 75º aniversário do estabelecimento das relações diplomáticas entre a Santa Sé e a República Islâmica do Paquistão. O encontro faz parte da visita do prelado ao país asiático, programada até 10 de outubro, com o objetivo de fortalecer os laços de amizade e cooperação.
Uma diplomacia fundada em valores Em sua intervenção, dedicada à diplomacia da Santa Sé, com referência particular a alguns países asiáticos, o arcebispo Gallagher destacou a peculiaridade da atuação internacional da Santa Sé, que encontra seu fundamento na missão espiritual da Igreja e na defesa dos direitos fundamentais da pessoa.
Neutralidade positiva A Santa Sé, recordou, mantém atualmente relações diplomáticas com 184 Estados e participa dos trabalhos das Nações Unidas na qualidade de Observador Permanente.
Sua presença na comunidade internacional está orientada para a promoção do bem comum e do desenvolvimento humano integral, por meio de uma diplomacia que mantém uma “neutralidade positiva”, evitando identificar-se com ideologias ou sistemas políticos, sem, por isso, renunciar a intervir nas questões relacionadas à paz e aos direitos humanos. Essa imparcialidade, explicou o arcebispo, permite à Santa Sé desempenhar, em determinadas circunstâncias, um papel de mediação nos conflitos internacionais, privilegiando a proteção das pessoas mais vulneráveis em relação aos interesses nacionais.
Liberdade religiosa e diálogo na Ásia A intervenção do secretário para as Relações com os Estados e as Organizações Internacionais dedicou atenção especial às relações diplomáticas com as nações asiáticas, onde a presença cristã possui raízes milenares. Dom Gallagher recordou que os acordos bilaterais firmados com diversos países do continente contribuíram para proteger a liberdade religiosa, de consciência e de expressão, garantindo às comunidades católicas a possibilidade de desenvolver suas atividades pastorais, educativas e assistenciais. Ao lado da dimensão religiosa, o prelado ressaltou a importância da cooperação cultural e humanitária, citando os acordos relativos ao reconhecimento de títulos acadêmicos, à proteção do patrimônio artístico e ao apoio às instituições de caridade.
São áreas nas quais a presença da Igreja pode contribuir concretamente para o desenvolvimento das sociedades locais.
O vínculo com o Paquistão e o testemunho dos Pontífices Ao se deter sobre o Paquistão, Dom Gallagher observou ainda que as relações com a Santa Sé foram marcadas por gestos significativos de proximidade e fraternidade. O primeiro exemplo recordado foi o de Paulo VI, que, em 27 de novembro de 1970, fez uma escala em Daca, então parte do Paquistão Oriental, após uma devastadora calamidade natural que havia provocado milhares de mortes.
O Pontífice quis compartilhar a dor da população e chamar a atenção internacional para uma tragédia que corria o risco de ser esquecida. “Vim até vocês como um amigo entre amigos, como um irmão entre irmãos”, disse Paulo VI, expressando uma concepção de solidariedade fundada no pertencimento de todos os seres humanos a uma única família, independentemente da fé professada. Onze anos depois, em 16 de fevereiro de 1981, João Paulo II visitou Karachi, reafirmando o respeito da Igreja Católica pelo Islã e recordando a figura de Abraão, comum às tradições cristã, muçulmana e judaica.
Um gesto que, segundo Dom Gallagher, contribuiu para fortalecer o diálogo e a confiança recíproca entre as comunidades religiosas.
Irmã Ruth Pfau e a “diplomacia da vida” Entre os testemunhos mais significativos recordados pelo arcebispo está o de irmã Ruth Pfau, religiosa que dedicou mais de meio século à assistência às pessoas afetadas pela hanseníase no Paquistão. Dom Gallagher definiu seu compromisso como um exemplo de “diplomacia da vida”, feita de serviço silencioso e desinteressado.
A religiosa, observou, não se limitou a tratar uma doença, mas contribuiu para devolver dignidade, visibilidade e um lugar na sociedade a pessoas muitas vezes marginalizadas. Após sua morte, em 2017, o Paquistão lhe prestou funerais de Estado, reconhecendo o valor universal de uma obra capaz de superar as diferenças religiosas, étnicas e nacionais. Um testemunho que, segundo o secretário para as Relações com os Estados, torna evidente que a ação diplomática da Santa Sé não se esgota nas relações institucionais, mas encontra expressão também na proximidade concreta com as pessoas mais frágeis.
A paz como responsabilidade compartilhada Nas conclusões, Gallagher reiterou que a diplomacia pontifícia não pretende perseguir objetivos de conveniência política, mas promover valores universais, na convicção de que o exercício da autoridade deve sempre se fundamentar na lei moral e na proteção da dignidade intrínseca de cada pessoa. Ao celebrar os 75 anos das relações diplomáticas com o Paquistão, o arcebispo expressou a certeza de que a relação entre os dois sujeitos internacionais não se baseia na conveniência, mas em valores profundamente compartilhados: “A dignidade de cada pessoa humana, a liberdade religiosa, a paz e a justiça social”. Princípios que, concluiu, pertencem tanto à tradição islâmica quanto à visão cristã e constituem o fundamento de uma cooperação capaz de contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e pacífica.