O antigo sítio de Hippo Regius, a atual Annaba, que o Papa Leão visita em 14 de abril, não é apenas a cidade de Agostinho: é um organismo urbano que se reconstrói por fragmentos, entre vestígios arqueológicos nem sempre unívocos e fontes que raramente descrevem os espaços, mas os pressupõem. Dessa dupla evidência emerge uma cidade já definida antes da era cristã, que entre os séculos IV e V é habitada e marcada pela presença de seu bispo, que redefine suas práticas e espaços.
Maria Milvia Morciano – Vatican News Hippo Regius já era uma cidade quando Agostinho chegou em 391. O futuro bispo encontrou uma estrutura urbana estratificada ao longo dos séculos: origens fenícias, um longo período númida em que a cidade foi sede real antes de entrar na esfera de influência romana e, finalmente, sua integração ao sistema imperial com tudo o que isso implicava — magistraturas, epigrafia, monumentos, comércio. Sua fisionomia emerge em fragmentos: vestígios materiais atestados, mas nem sempre univocamente identificáveis, fontes escritas que raramente descrevem os edifícios, mas os pressupõem. Reunir esses dois níveis — a voz de Agostinho e a marca revelada pelas escavações — permite-nos aproximar-nos de uma cidade real, sem forçá-la a assumir uma forma que já não possui. Um porto, antes de tudo A evidência mais sólida diz respeito à sua função portuária. Hipona nasceu e cresceu como uma cidade litorânea: o porto não era um apêndice, mas o centro em torno do qual o comércio, o armazenamento e a circulação de mercadorias se organizavam. Lívio menciona Hipona Regius no contexto das operações durante a Segunda Guerra Púnica (Ab Urbe condita XXIX, 3, 2). A arqueologia confirma estruturas diretamente ligadas ao comércio: um sistema organizado, com edifícios dedicados ao armazenamento e à distribuição, o que sugere uma gestão estruturada dos recursos. Os celeiros públicos, também documentados em epigrafias, se inserem neste contexto. Uma inscrição do século II menciona Sabinus, libertus Augusti, custos horreorum e curator cancellorum di Hippo: uma figura responsável pela vigilância e manutenção das estruturas, o que aponta para um sistema urbano capaz de sustentar as funções de abastecimento alimentar. O porto, os armazéns e as áreas de carga e descarga não são elementos isolados, mas partes de um todo unificado. A cidade romana Esta dimensão funcional é acompanhada por uma monumental. As chamadas mansões à beira-mar — voltadas para a antiga costa, recuada em relação à moderna devido à sedimentação — mostram uma arquitetura complexa, com pórticos e cômodos distribuídos em vários níveis: um sinal de um tecido urbano diferenciado, de uma sociedade que investia no espaço e em sua representação. O fórum, as termas e os edifícios públicos indicam que Hipona era um centro estruturado na época imperial, muito provavelmente com status colonial, como sugere a documentação epigráfica. O traçado urbano não é rigidamente regular: desenvolveu-se adaptando-se a fases anteriores, com crescimento por sobreposição, e não segundo um plano unificado. Os vestígios preservam traçados e alinhamentos, em vez de elevações completas. Magistrados locais e formas de administração cívica típicas das cidades romanas na África são atestados: uma inclusão totalmente integrada no sistema municipal do Império. O quadro resultante é sólido em seus aspectos essenciais, mas não isento de sombras. A correspondência entre os vestígios e as fontes nunca é perfeitamente consistente: muitas identificações permanecem como hipóteses fundamentadas, e não conclusões definitivas. A fase cristã Entre os séculos IV e V, Hipona já era uma sede episcopal, atestada pelo menos desde o século III, e tornou-se um dos centros mais importantes do cristianismo africano. Fontes agostinianas mencionam uma grande basílica, geralmente referida como Basílica Pacis, cuja identificação foi derivada da convergência de textos e dados de escavações. A arqueologia revela um complexo coerente dentro da ínsula cristã: uma basílica absidal, um batistério e salas anexas. Falta uma inscrição que permita uma identificação definitiva: o que temos é uma convergência de dados, não uma prova decisiva. Neste lugar, Agostinho exerceu um ministério que ele explicitamente reivindicou como público: ...non enim episcopus sum mihi, sed vobis — Eu não sou bispo para mim mesmo, mas para vós (Sermão 340, 1). A fórmula não é retórica: define uma maneira de estar na cidade, de habitar suas tensões e exigências. O batistério O batistério, ao lado da basílica, introduz um elemento adicional. O batismo não é um gesto oculto, mas um evento que envolve a comunidade e se torna parte da cidade. As referências agostinianas esclarecem a dimensão pública e comunitária do rito. A estrutura — com pia batismal e articulação funcional — é atestada arqueologicamente e confirma um cristianismo plenamente organizado, capaz de moldar o espaço urbano ao se fundir com ele. A casa do bispo Até mesmo a casa do bispo é determinada mais pela função do que pela forma. Na Carta 356, Agostinho descreve uma vida compartilhada com os clérigos: in domo episcopi mecum vivunt clerici… et nemo dicat aliquid suum, sed sint nobis omnia communia — na casa do bispo os clérigos vivem comigo… e que ninguém diga: “Isto é meu”, mas que tudo seja comum entre nós (Epístola 356, 1). Esta é uma das raríssimas passagens que nos permite ancorar firmemente um espaço concreto na vida do bispo: não uma residência no sentido tradicional, mas um lugar compartilhado e regulamentado, quase monástico antes que o monaquismo ocidental tivesse desenvolvido sua fisionomia. As escavações identificaram salas adjacentes à basílica que podem ser interpretadas como parte de um complexo episcopal. Essa é uma hipótese coerente, proposta na literatura, mas ainda não comprovada por evidências diretas. O que resta é a voz de Agostinho, que descreve um espaço habitado com uma precisão que nenhum vestígio material poderia transmitir tão bem. A cidade vivida Agostinho aparece constantemente imerso na vida urbana. Suas cartas revelam o peso de pedidos, mediações e queixas: causas hominum audire compellor — Sou continuamente compelido a ouvir as queixas dos homens (Epistula 213, 6). Sua autoridade é exercida num espaço não separado da esfera civil: o bispo é também um árbitro, um mediador, uma figura pública em todos os sentidos. A arqueologia revela um fórum, termas e bairros residenciais; as fontes retratam uma cidade repleta de tensões, práticas cotidianas e conflitos a serem resolvidos. As duas imagens se sobrepõem sem nunca coincidir perfeitamente — e é precisamente nessa lacuna que algo vivo emerge. Após a morte de Agostinho em 430, o assédio dos Vândalos marcou uma ruptura. A cidade continuou sendo habitada e transformada, mas seu papel mudou e gradualmente diminuiu. As estruturas permaneceram, reutilizadas ou abandonadas, enquanto o tecido urbano perdeu a centralidade que desfrutara na época Imperial e na Antiguidade tardia. É também nessa continuidade interrompida que se mede a distância entre a cidade do passado e aquela que podemos reconstruir hoje. Uma cidade que perdura A visita do Papa Leão XIV alcançou uma cidade com uma longa história e estratificações complexas. Embora cristalizada em seus vestígios arqueológicos, Hippo Regius vive na memória e na voz de Santo Agostinho.