Marija Cacchia, Presidente geral da Ação Católica de Malta foi a anfitriã do 4º encontro da UMOFC, dedicada às Mulheres do Mediterrâneo e do Médio Oriente, realizado de 23 a 26 de outubro 2026. No seu discurso de abertura usou a metáfora do vento para falar do simbolismo de Malta como um porto seguro e aberto que saiba pôr o ser humano no centro das suas ações. Assunto que retoma em entrevista à Vatican News, abordando a questão das mulheres, dos imigrantes e da esperança que deve prevalecer.
Dulce Araújo - Vatican News A República de Malta, é um pequeno arquipélago formado de três ilhas principais: Malta, Gozo e Comino.
A sua superfície total é de 316 quilómetros quadrados e tem uma população que ronda os 600 mil habitantes.
E foi na ilha de Malta, a poucos quilómetros da capital do país, La Valletta, que a União Mundial das Organizações Femininas Católicas, UMFOC, quis organizar o seu quarto encontro dedicado às mulheres do Mediterrâneo e do Médio Oriente sobre o tema: "Mulheres: um refúgio seguro para uma humanidade conturbada”.
Foi para dar continuidade ao esforço que a UMOFC vem fazendo desde há mais de uma década no sentido de estender uma mão amiga às mulheres daquelas duas regiões do mundo a braços com conflitos e guerras que já vêm de longe e que condicionam sobremaneira a sua vida quotidiana.
Assim, mulheres de países como o Iraque, o Líbano, o Egito, Irão, mas também da Palestina e Terra Santa partilharam as suas histórias de vida com outras idas da Argentina, Itália, Estados Unidos, Senegal, Mali, Ghana, Camarões, Nigéria, Austrália, refletiram sobre essas realidades e rezaram juntas por um mundo de paz para todas.
Uma forma de dar visibilidade e apoio a essas mulheres muitas vezes tratadas como estrangeiras e minoras em terras de que são naturais, que amam profundamente e sentem plenamente suas como dos outros cidadãos.
O encontro contou também com narrações de pessoas que trabalham com migrantes na área do Mediterrano.
Ao todo, cerca de 90 mulheres de 35 nacionalidades tomaram parte nesse encontro organizado pela UMOFC em colaboração com a Ação Católica Maltesa e a Conferência Episcopal de Malta.
Um país, Malta, cuja história e denominação carrega um forte simbolismo que muito se coadunava com o tema do encontro.
Foi nisso que se inspirou, para o seu discurso de acolhimento, Marija Cacchia, Presidente da Ação Católica de Malta.
Em entrevista à Vatican News deteve-se sobre o assunto, começando por se apresentar: “Olá, eu sou Maria Cacchia, sou de Malta.
Tenho 40 anos e trabalho como técnica de radiologia no Hospital Nacional de Malta há 18 anos.
Nos últimos 10 anos, tenho desempenhado funções na Presidência Nacional da Ação Católica em Malta e, há quatro anos que sou Presidente Geral, mas há mais de 20 anos que sou membro da Ação Católica.” [ Photo Embed: Marija Cacchia - Presidente geral da Ação Católica em Malta] -» No seu discurso de acolhimento dos participantes no encontro "As mulheres, um porto seguro para um mundo em turbulência", pôs em realce o significado simbólico deste país em relação ao tema do evento.
Poderia explicar melhor o que este simbolismo de Malta como "porto seguro" implica? “Sim, Malta é uma ilha muito, muito pequena, situada no coração do Mediterrâneo; historicamente, todas as rotas mediterrânicas passavam por aqui.
É um porto que muitas nações visitaram e até ocuparam, e isso reflete-se na nossa língua, na nossa arquitetura e nos nossos costumes.
Até o nome "Malta", segundo alguns estudos vem da antiga língua fenícia e significa "porto seguro".
Se aceitarmos esta teoria como origem do nome do nosso país, então o próprio nome carrega este simbolismo do que significa ser um porto seguro.
Naturalmente, a nossa fé também veio através do mar, um mar turbulento: São Paulo naufragou aqui.
E foi assim que chegou ao povo, à civilização maltesa, que acabou por a acolher.” -» Então, o próprio nome do país é símbolo de refúgio.
Contudo, na sua apresentação, trouxe também reflexões sobre como transformar este refúgio histórico e simbólico em algo concreto para o mundo turbulento de hoje.
Utilizou a metáfora do vento.
Poderia falar-nos um pouco mais disso?
É muito bonita essa metáfora! “Sim, quando o Papa Francisco visitou Malta, em 2022, utilizou esta metáfora do vento - das várias direções que o vento pode tomar, conforme o lugar donde sopra - como um símbolo para as diferentes influências por que passamos hoje.
A minha própria reflexão centrou-se na forma como este vento agita o mar, criando movimento nas águas.
Os portos, para se manterem seguros, têm quebra-mares, ou talha-mares, estruturas que funcionam como braços abertos e são elas que garantem a segurança do porto, mantendo-se firmes, contendo as ondas do mar e o vento.
Têm de ser fortes, mas, ao mesmo tempo, devem manter-se abertas; caso contrário, as embarcações nunca conseguiriam entrar no porto.
A minha reflexão centrou-se nesta contradição: nós, enquanto mulheres, somos talvez chamadas a habitar essa mesma contradição, ou seja, a ser fortes, uma vez que vivemos tempos difíceis, e, simultaneamente, permanecer abertas, prontas a acolher, a acompanhar e a cuidar dos outros.
Acho a metáfora do porto — com estas estruturas concebidas para a proteção — extremamente significativa; não podem ser fechadas, pois, se o fossem, o porto já não conseguiria cumprir a sua finalidade, e as embarcações não poderiam entrar.” [ Photo Embed: O Porto de La Valletta, Malta] -» Malta, situada no coração do Mediterrâneo, é também um mar — um lugar que o Papa Francisco, a que se referiu anteriormente, descreveu como um cemitério.
Perante este contexto, em que o país é visto como um refúgio simbólico, um "porto seguro", como deve ser tratada esta questão?
Como malteses, como encaram isso? “ Na verdade, é um problema complexo; a realidade é que Malta é um país muito pequeno, este é o facto fundamental.
O problema reside na atitude predominante: as pessoas que chegam por mar são vistas como um perigo, ao ponto de se negar até a prestação de ajuda humanitária. Nestes casos, deixamos de refletir a beleza histórica de um "porto seguro".
Em vez disso, revelamos a história de uma ilha que se sente impelida a defender-se.
O Papa Francisco veio precisamente por esse motivo, para nos ajudar a abrir os olhos.
Nessa altura, o nosso bispo salientou que tínhamos chegado a um ponto em que não conseguíamos sequer prestar auxílio a quem estava no mar, tudo em nome da proteção da ideia de que o nosso espaço é limitado.
Ao agirmos assim, deixamos de demonstrar a nossa verdadeira essência, o nosso lado positivo.
É uma dinâmica muito difícil, mas, se começarmos por nos focar no aspeto humanitário, talvez consigamos, pelo menos, raciocinar com o coração, em vez de adotarmos uma mentalidade defensiva.
A nível local, foram os jesuítas, que por volta do ano 2000, mesmo antes de qualquer apoio ter chegado da União Europeia, que tomaram a iniciativa de dar refúgio, assistência e apoio.
Pouco depois, a situação tornou-se, naturalmente, avassaladora; contudo, na realidade, foram as estruturas da Igreja as primeiras a agir no plano humanitário.” -» Portanto, se bem percebi, não está satisfeita com a política de Malta a este respeito e, como Igreja, sentem dificuldade em dar, para usar as palavras do Papa Francisco, a nova beleza ao rosto da ilha, quer dizer, ao rosto da humanidade.
Enquanto Ação Católica maltesa, da qual é presidente geral, conseguem incentivar ações, pôr em ato projetos, envolver outras pessoas, manter um diálogo com o governo sobre esta questão? “O papel fundamental começa pela formação dos nossos próprios membros, abrindo as suas mentes às experiências reais que levam as pessoas a empreender uma viagem tão perigosa.
Este é o primeiro passo: o papel da Ação Católica na formação de grupos paroquiais é crucial, pois permite trocas significativas, sobretudo entre os jovens.
Por exemplo, quando o Papa Francisco esteve aqui em visita apostólica, encontrou-se com um frade franciscano, P.
Dionisio Mintoff, que dirige um "Laboratório da Paz" (Peace Lab).
Frequentemente, promovemos intercâmbios através desta iniciativa, porque o mais importante é ter um encontro pessoal com alguém; é assim que se dissipam os medos e os preconceitos que possamos ter construído na nossa mente.
Este é, portanto, a coisa mais importante.
Além disso, em colaboração com outras associações, em Malta, por vezes, fazemos pressão, ou simplesmente lembramos aos governantes a importância da dignidade humana.
Embora os desafios políticos sejam inegáveis, nunca se deve esquecer, nesta ou em qualquer outra situação, que no centro de tudo, está um ser humano.” [ Photo Embed: Ouvindo narrações e sonhando um mundo colorido, em paz e feliz] [ Read Also ] -» Estamos neste encontro organizado pela UMOFC, uma organização com mais de um século de história.
A sua organização, como referiu, existe há cerca de vinte anos, mas apoia-se em mais de um século de trabalho de mulheres na Igreja, que procuraram não só viver a sua fé e dedicar-se à evangelização, mas também desempenhar um papel cada vez mais proeminente e visível na construção de um mundo melhor, com um foco especial na paz.
Mas, ao olharmos para o mundo, e considerando as discussões que já aqui tivemos sobre os conflitos no Mediterrâneo e no Médio Oriente, podemos perguntar-nos: o que foi, de facto, alcançado ao longo deste último século e o que mais, na sua opinião, é necessário fazer? “A história da Ação Católica em Malta conta já com 96 anos.
Ela começou com um grupo de jovens rapazes universitários, orientados por um sacerdote.
Pouco tempo depois, foi criada uma ala feminina.
Portanto, quase desde o início, as mulheres em Malta sentiram um chamamento, o desejo de se unirem e de fazerem parte de algo maior do que elas próprias.
Acredito que, em encontros como este, vivemos verdadeiramente o que significa fazer parte de algo maior do que nós próprios.
Ao ouvirmos relatos como os que foram hoje partilhados, podemos sentir-nos desanimados, chegando à conclusão de que nada realizámos nos últimos cem, ou até mesmo dois mil anos, ou, por outro lado, podemos encontrar um sentido de graça, sobretudo ao observarmos o que estas mulheres conseguem realizar no meio dos conflitos.
Para mim, isso é extraordinário.
É necessário que haja um conflito para que isso aconteça?
O ideal seria que não.
Contudo, é aqui que entra a dinâmica humana.
Nós, seres humanos, somos assim: tendemos a ignorar lições que já devíamos ter aprendido há muito tempo.
Após as grandes guerras mundiais, prometemos a nós próprios "nunca mais" e, no entanto, acabamos por nos esquecer.
Esta é, de certa forma, a história da humanidade; e, no entanto, dentro desta história humana, as sementes, as sementes da graça do Senhor — ainda conseguem encontrar solo fértil.
Para mim, é neste aspeto que nos devemos concentrar.
O solo, uma vez que é o Senhor que lança as sementes, é o solo que devemos preparar.
Creio que se trata de algo diferente; a metodologia de que necessitamos não é a mesma, não porque o que tentámos anteriormente tenha falhado, mas porque o mundo está a mudar.
Nas experiências que têm sido discutidas ultimamente, fala-se muito de "presença", mas há também uma crescente consciência das nossas próprias limitações.
Não podemos fazer tudo; não temos todas as respostas.
Contudo, esta própria consciência das nossas limitações pode tornar-se um momento de encontro.
Acredito que isso marca um distanciamento do que vivemos no passado.
Estamos a vir de um contexto em que, enquanto Igreja, nos sentíamos impelidos a parecer fortes, talvez até imponentes, mas as experiências das Igrejas no Médio Oriente apontam para um tipo diferente de chamamento.
A certa altura, alguém disse: "Se pelo menos o Bispo nos telefonasse...".
Trata-se de presença, de uma proximidade expressa através de pequenos gestos quotidianos, fundamentada no reconhecimento da nossa própria fragilidade.
Acredito que é isso que caracteriza o mundo em que vivemos hoje." Muito obrigada, e muitos sucessos no vosso trabalho. "Obrigada" [ Audio Embed Oiça aqui a entrevista com Marija Cacchia e partilhe] Entrevista realizada, em Malta, por Dulce Araújo, e dobrada em colaboração com Mariangela Jaguraba