Ilia II, Kirill e cinquenta anos de história russo-soviética - Vatican News via Acervo Católico

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Ilia II, Kirill e cinquenta anos de história russo-soviética - Vatican News via Acervo Católico
Fonte: VATICANO

A morte do patriarca que guiava a Igreja Ortodoxa da Geórgia desde 1977 e o quinquagésimo aniversário da consagração episcopal do patriarca de Moscou: duas parábolas exaltadas no "mundo russo" como "o heroísmo da fé que resiste à heresia". Mas também revelam a continuidade entre a Rússia de hoje e a era stalinista.

Pe. Stefano Caprio* Nestes dias, são recordadas duas figuras muito características do último meio século de história, na passagem da União Soviética à Federação Russa e do ateísmo de Estado ao renascimento religioso. Em 17 de março, faleceu o patriarca Ilya II da Geórgia, que ocupava o trono eclesiástico de Tbilisi desde 1977, quando tinha 43 anos, e em 14 de maço foi festejado em Moscou o quinquagésimo aniversário de ordenação episcopal do patriarca Kirill de Moscou, que se tornou bispo auxiliar em Leningrado em 1976, com apenas 29 anos, para depois ascender à sé patriarcal ao lado do Kremlin em 2009. Da colaboração com o regime totalitário de Leonid Brežnev ao soberanismo tradicionalista de Vladimir Putin, da herança do ditador georgiano Josef Stalin ao atual governo pró-Rússia do Sonho Georgiano, os dois patriarcas representaram a estreita relação da Igreja com o Estado, independentemente das variações da política dos dois países euroasiáticos ex-neo-soviéticos. O corpo do falecido patriarca ortodoxo georgiano Ilya II foi exposto na Catedral Patriarcal da Santíssima Trindade de Tbilisi, e o Sínodo reunido sob a liderança do Tlugar-tenente patriarcal Šio Mudžiri decidiu que a cerimônia fúnebre será realizada em 22 de março na antiga Catedral de Sioni, em Tbilisi. Enquanto as condolências chegam também do exterior, a teóloga Mirian Gamrekelašvili explica como o Katholikos "tenha conseguido conciliar a autoridade pessoal com a força institucional da Igreja, criando um culto da sua própria personalidade". Na mensagem de congratulações do Sínodo russo a Kirill, é afirmado que "nas difíceis condições de nossos dias, quando o inimigo da raça humana semeia a divisão e o ódio recíproco, quando com a mente obscurecida e o coração endurecido o inimigo rasga a túnica de Cristo , a fidelidade aos votos episcopais e patriarcais é um autêntico testemunho do heroísmo da fé". O ministério de Kirill é exaltado como a resistência aos cismas, à superstição e à heresia, outra citação pega do rito russo de consagração do bispo, que ressoa segundo as profecias da Terceira Roma que salva o mundo, compostas para as grandes celebrações nos tempos do czar Ivan, o Terrível. A liturgia para o aniversário patriarcal também coincidiu com a proclamação do Triunfo da Ortodoxia, o domingo da quaresma ortodoxa que recorda a vitória da veneração dos ícones contra os hereges "iconoclastas" no século IX, um dos momentos de maior afirmação dos ortodoxos contra todos os inimigos. Assim como no domingo anterior, esta era a festa litúrgica de quando o jovem hieromonge Kirill (Vladimir Gundyaev) foi consagrado bispo de Vyborg na Lavra do santo príncipe Aleksandr Nevsky em Leningrado, a meta conclusiva da grande Avenida Nevsky, a espetacular rua central da capital do norte, com seus grandiosos palácios nobres e as pitorescas igrejas do barroco russo de São Petersburgo. Gundyaev era filho de um dos guarda-costas de Stalin e, pouco depois de sua ordenação ao sacerdócio, tornou-se reitor da Academia Teológica reaberta pelo próprio ditador, imediatamente após a vitória na Grande Guerra Patriótica. Como jovem monge na década de 1960, acompanhava nas viagens ao exterior o metropolita Nikodim (Rotov), o ponto de referência da Ostpolitik vaticana nas relações com a Rússia soviética, com a participação no Concílio Vaticano II, no qual se evitou a condenação do comunismo e se abriu um intenso diálogo ecumênico entre Roma e Moscou. Nikodim e Kirill ficavam regularmente no Colégio Russicum em Roma, inaugurado em 1931 para tentar uma "missão russa" dos católicos para salvar o cristianismo da perseguição ateísta, e como bispo e metropolita, Kirill continuou a frequentar o colégio dos jesuíta até o período da história soviética, quando as relações foram rompidas devido às revoltas na Ucrânia dos greco-católicos, condenadas por Kirill, mas apoiadas pelo Papa polonês João Paulo II. O metropolita mais pró-ocidental e pró-católico da história russa tornou-se, posteriormente, o primeiro patriarca a encontrar e abraçar fraternalmente o Papa de Roma Francisco em Havana, em 2016, mas ao mesmo tempo, foi o primeiro grande inspirador do soberanismo religioso do czar Putin, favorecendo-o na interpretação agressiva e apocalíptica dos últimos vinte anos. O diálogo ecumênico foi oficialmente interrompido em 1997, precisamente por inspiração do patriarca georgiano, que à Assembleia das Igrejas da Europa convocada em Graz, declarou que a Igreja de Tbilisi considerava o ecumenismo "uma heresia", posição posteriormente adotada pelos russos. O próprio Kirill fez interromper as tratativas que levariam ao primeiro encontro entre o Papa e o patriarca em Viena, após a assembleia ecumênica, evitando assim ser precedido pelo então patriarca Aleksij II, que ele próprio fez eleger em 1990 para substituir o metropolita de Kiev Filaret (Denisenko), iniciando, assim, o cisma com a Ucrânia que inspirou a guerra atual. As escolhas de política eclesiástica de Kirill, formado na escola da KGB durante os anos de Brežnev e na mesma geração de Vladimir Putin, atravessou as diversas fases do regime, da estagnação de brejneviana à perestroika de Gorbachev, tornando-se então o "metropolita oligarca" durante os anos de Boris Yeltsin, que traficava álcool e cigarros, e por um dos grandes ideólogos da restauração imperial putiniana. Cinquenta anos de convulsões políticas, econômicas, tecnológicas e sociais na Rússia e em todo o mundo, mas Kirill ainda está montado no cavalo patriarcal-imperial, uma demonstração viva de um "mundo russo" que se transforma constantemente para sempre permanecer o mesmo, suspenso entre o Oriente e o Ocidente. De fato, a Rússia de hoje se assemelha cada vez mais à era soviética de Stalin e Brežnev, com suas intermináveis ​​medidas repressivas expressas não apenas na prisão e detenção de dissidentes e na censura de toda expressão artística e cultural, mas também, e nesses dias na forma mais odiosa e insuportável de imposição às gerações já dependentes das conexões e dos aplicativos digitais. Há meses vem sendo suspensa a internet móvel em todas as regiões da Rússia, e agora a medida também está sendo aplicada nas capitais de Moscou e São Petersburgo e nas grandes cidades "por motivos de segurança". Ainda mais chocante para a população é a decisão de bloquear o aplicativo Telegram, a única "janela de comunicação livre" ainda à disposição para usuários genéricos, em particular para os soldados no front ucraniano, que se lamentam de forma mais exasperada. Como comenta Yevgeny Dobrenko, editorialista da Rádio Svoboda, "os historiadores debaterão por muito tempo como tenha sido possível a Rússia chegar ao estado atual", depois de ter vivido as grandes mudanças e o rápido desenvolvimento dos anos pós-soviéticos, impulsionados pela esperança de uma vida de liberdade e prosperidade sem precedentes na história russa, "ou talvez tenhamos apenas sonhado com isso", questiona o cientista político. Agora, porém, "nos encontramos no mesmo velho atoleiro de escravidão sórdida, lealdade oficial, autocensura e medo opressivo". Recordando vários eventos, ele afirma que "alguns apontarão o fuzilamento no Parlamento em 1993 como o ponto sem retorno, outros para a constituição superpresidencial, outros ainda para as eleições fraudadas e outros ainda para o erro fatal na escolha de um sucessor... Parece-me, no entanto, que a decisão fatídica que determinou todo o curso da história russa moderna foi tomada precisamente no momento do nascimento do novo país, quando a Federação Russa se declarou a legítima herdeira da União Soviética." A escolha de perpetuar a imagem histórica da Rússia foi precisamente a de preservar a imagem de superpotência imperial, inspirada pelo Concílio jubilar de 2000, no qual o então metropolita Kirill fez aprovar o documento sobre a "Doutrina Social da Igreja russa", o verdadeiro programa político do novo presidente Putin. A "vertical de poder" putiniana eliminou, assim, qualquer forma de autonomia social e política, escravizando até mesmo os oligarcas na lealdade à política do Estado, prendendo ou exilando aqueles que não se submetiam. A Rússia foi confiada aos órgãos de segurança e de força, herdeiros da KGB soviética, única estrutura que sobreviveu ao colapso do império, juntamente com a Igreja ortodoxa. A Rússia atual recorda uma velha história dos tempos soviéticos, segundo a qual, qualquer coisa que se tente construir, sempre se acaba com um fuzil de assalto Kalašnikov. Se um historiador da URSS tivesse que compilar uma lista das diversas iniciativas legislativas, proibitivas, políticas, ideológicas, educativas e culturais adotadas na Rússia na última década, e sobretudo nos últimos quatro anos, e as comparasse ponto por ponto com as práticas soviéticas, ficaria surpreso com as semelhanças. Em essência, consciente ou inconscientemente, o sistema atual está recriando o modelo soviético de governança, educação, cultura e assim por diante, quase a partir de células-tronco. Esse processo "agora é irreversível", comenta Dobrenko, pois "o país retornou a um percurso que já atravessou e é previsível". Baseando-se na mitologia soviética da grandeza imperial, da "justiça social" e de um "sentimento de profunda satisfação popular", mal se recorda de como era uma vez, e não há mais nenhum sentido recordar até onde isso levou. Mais um aniversário foi recordado nestes dias, quando há setenta anos, em 25 de fevereiro de 1956, o secretário de partido, Nikita Khrushchev, apresentou seu relatório "Sobre o Culto à Personalidade e suas Consequências" em uma sessão secreta do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), denunciando os crimes de Stalin. Kirill tinha 10 anos na época, e Putin, apenas 4, que mais tarde dedicaria toda a sua vida a restaurar o culto à Rússia. Para recordar esse evento, recentemente reuniu-se o Conselho Supremo Histórico-Militar, presidido pelo ideólogo pró-Putin Vladimir Medinsky, ocasião em que afirmou que as repressões stalinistas foram "necessárias para derrotar traidores e quintas colunas às vésperas da guerra", que depois culminou com a Grande Vitória, reabilitando assim Stalin, o patriarca georgiano do Império Russo. *Pe. Stefano Caprio é docente de Ciências Eclesiásticas no Pontifício Instituto Oriental, com especialização em Estudos Russos. Entre outros, é autor do livro "Lo Czar di vetro. La Russia di Putin". (Artigo publicado pela Agência AsiaNews)

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