Irmãs Dominicanas: o diálogo intercultural na Buriácia, terra russa de povos e credos

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Irmãs Dominicanas: o diálogo intercultural na Buriácia, terra russa de povos e credos
Fonte: VATICANO

A Buriácia é o coração da Ásia siberiana, uma terra de fortes contrastes: às temperaturas que descem até 40 graus abaixo de zero contrapõem-se ao calor e à hospitalidade dos habitantes, enquanto mosteiros budistas e lugares de culto xamânicos convivem ao lado de Igrejas cristãs. Nesse mosaico de povos e credos, a comunidade das Irmãs Dominicanas tornou-se não só um sinal visível da presença de Jesus Cristo, mas inclusive protagonista ativa do diálogo intercultural.

Elena Isachenko As Irmãs de São Domingos começaram a missão nesta terra no ano de 2000. «No início da nossa missão — recorda a Ir.

Bernadetta Gratkowska — éramos uma presença tão incomum para os habitantes locais que as pessoas saíam apressadas das lojas só para ver as irmãs que caminhavam pela rua».

Aqui faz frio, e não só fora Os primeiros passos da nova missão não foram fáceis.

Vindas da Polônia, as religiosas tiveram que se habituar ao rigoroso clima siberiano e descobrir que, nessas terras, o frio não se fazia sentir apenas na rua. «Lembro-me muito bem do meu primeiro inverno na Sibéria, narra a Irmã Bernadetta.

Durante todo o mês de janeiro, as temperaturas desceram até aos 45 graus abaixo de zero.

O sistema de aquecimento da cidade deixou de funcionar.

No apartamento, a temperatura oscilava entre os 12 graus abaixo de zero e os 4 graus acima de zero: tínhamos que ficar em casa com os casacos».

A comunidade católica de Ulan-Ude, capital da Buriácia, partilhou o destino de muitos outros católicos da ex-União Soviética.

A igreja paroquial, construída em 1907, foi destruída durante as repressões soviéticas.

Durante muitos anos, foi negada aos fiéis a possibilidade de professar abertamente a própria fé.

Em 2003, as autoridades da República concederam um terreno para a construção de uma igreja católica, concluída apenas dois anos depois.

Desde então, a cruz que se ergue sobre a igreja voltou a ser um sinal da presença cristã nesta terra. “Khadak”: uma tradição buriate na comunidade cristã Desde o início, o anúncio de Cristo numa região multiétnica com antigas raízes budistas e xamânicas assumiu a forma do diálogo.

À curiosidade inicial seguiu-se, progressivamente, a descoberta de valores comuns.

Com efeito, o mandamento cristão do amor ao próximo encontra eco no princípio budista da não violência.

Por sua vez, a cultura tradicional buriate nutre profundo respeito pela família e pelos idosos.

Num clima de diálogo pacífico, as diferentes confissões enriquecem-se mutuamente, tendendo para um objetivo comum: a salvaguarda da dignidade humana.

Com o passar do tempo, algumas tradições buriates passaram a fazer parte de modo permanente da vida das comunidades católicas.

Uma delas é o “khadak”, uma especial forma de saudação que expressa profundo respeito e prevê a oferta, acompanhando-a com uma vénia, de um lenço de seda e um pouco de “koumiss”, leite fermentado de égua.

É precisamente assim que os convidados são recebidos na paróquia católica de Ulan-Ude e na comunidade religiosa das Irmãs Dominicanas. [ Photo Embed: A cor do “khadak” reveste-se de grande importância e realça o respeito demonstrado ao convidado.

Por exemplo, o azul simboliza o céu e a pureza, o vermelho expressa o calor do coração, e o branco representa as boas ações e a generosidade] Ministério como convite ao diálogo A partir dos primeiros passos da missão, o ministério das religiosas transformou-se num convite ao diálogo sobre os valores do Evangelho.

O seu compromisso em ajudar quantos se encontravam em necessidade suscitava admiração, sobretudo entre as pessoas não religiosas. «Por que ajudar pessoas que nem sequer conhece?», perguntavam.

As religiosas respondiam que viam nos mais pobres o rosto de Cristo.

Uma resposta que suscitava novas interrogações, abrindo assim caminho para conversas sobre a fé, a dignidade humana e o Evangelho.

Desde o princípio, a missão das religiosas centrou-se sobretudo na ajuda às crianças pertencentes a famílias pobres e desfavorecidas. «Não procuravam em nós apenas um pedaço de pão — narra a Ir.

Bernadetta — mas, em primeiro lugar, uma hospitalidade calorosa e uma sensação de segurança.

Organizávamos vários laboratórios para que as crianças pudessem desenvolver os seus talentos, ajudando-as nos estudos».

Ainda hoje, as religiosas cuidam de crianças e jovens, acompanhando-os também na preparação para os sacramentos.

Além disso, a assistência aos doentes e o seu acompanhamento espiritual na unidade de cuidados paliativos do Hospital Municipal tornou-se um âmbito específico do ministério. [ Photo Embed: A paróquia católica de Ulan-Ude conta cerca de 100 fiéis que a frequentam regularmente: metade são buriates, além de russos e descendentes de poloneses e lituanos] A Terceira Ordem de São Domingos na Buriácia Com o passar do tempo, o diálogo intercultural alcançou um nível mais profundo.

Entre os paroquianos, amadureceu o desejo de partilhar o carisma de São Domingos e de o integrar na sua vida quotidiana.

Foi assim que na Buriácia nasceu a Terceira Ordem de São Domingos.

Os primeiros candidatos foram precisamente alguns buriates; mais tarde, uniu-se a eles uma jovem proveniente da Mongólia e, em seguida, homens e mulheres russos.

Na sua vida, procuram encarnar o ideal dominicano: uma contemplação que conduz ao testemunho de Cristo. [ Photo Embed: Todos os meses, os membros da Terceira Ordem de São Domingos reúnem-se para rezar e refletir em conjunto] Buriácia, um mosaico em que cada peça tem a sua importância A Buriácia é um grande e maravilhoso mosaico de culturas e povos criado por Deus.

A comunidade católica desta terra é apenas uma peça deste magnífico desenho. «A minha vida missionária — narra a Ir.

Bernadetta — ensinou-me que cada pessoa tem a sua importância.

Muitas vezes, as pessoas não sabem como dar o primeiro passo em direção à fé.

Por isso é muito importante dedicar-lhes atenção.

Na cultura buriate, dedicar tempo a alguém é sinal de respeito.

A meu ver, é precisamente este o testemunho que a nossa pequena comunidade católica pode oferecer à Igreja universal: cada pessoa conta!». [ Photo Embed: Ir.

Bernadetta Gratkowska e Pe.

Jacek Dudka durante uma cerimônia tradicional do chá, por ocasião do Ano Novo buriate, “Sagaalgan”, elemento central da cultura da hospitalidade local] Fonte de dados: Arquivo OP

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