Desde o início da viagem, o Papa Wojtyla apresentou a visita como um gesto de amizade para com o povo armênio e como uma oportunidade para aprofundar o caminho rumo à plena comunhão entre as Igrejas. O Papa quis confirmar sua presença em uma terra profundamente marcada pela fé cristã, por uma história milenar e pela memória do Medz Yeghern
[ Audio Embed Ouça e compartilhe] Robert Attarian – Vatican News De 25 a 27 de setembro de 2001, João Paulo II realizou uma das viagens apostólicas mais significativas de seu pontificado: a visita à Armênia, realizada por ocasião do 1.700º aniversário da proclamação do cristianismo como religião oficial do país.
Foi uma viagem de forte significado religioso, histórico e ecumênico.
Pela primeira vez, um Bispo de Roma pisava em solo armênio, encontrando-se com o Catholicos de todos os Armênios, Karekin II, e prestando homenagem à tradição cristã milenar desse povo.
A peregrinação teve, além disso, uma intensidade especial, pois a Armênia era uma terra profundamente marcada pelas perseguições e sofrimentos do século XX, bem como pela memória do Medz Yeghern.
Pela primeira vez, o Bispo de Roma na Armênia João Paulo II chegou ao Aeroporto Internacional Zvartnotz, em Yerevan, em 25 de setembro de 2001.
Para recebê-lo estavam presentes o presidente da República da Armênia, Robert Kocharyan, as autoridades políticas e civis, o Catholicos Karekin II, os ordinários católicos presentes na Armênia, o corpo diplomático e o núncio apostólico.
Após as saudações do presidente e do Catholicos, o Papa proferiu seu discurso de boas-vindas, e suas primeiras palavras expressaram imediatamente o caráter extraordinário do evento: “Dou graças a Deus Todo-Poderoso porque hoje, pela primeira vez, o Bispo de Roma se encontra em solo armênio”.
A Armênia, “terra antiga e amada” João Paulo II definiu a Armênia como “terra antiga e amada”, relembrando o poeta armênio Daniel Varujan e citando seus versos sobre a terra armênia.
Explicou ainda que havia esperado durante muito tempo por aquele momento, considerando-o um verdadeiro “momento de graça e de alegria”.
Não se tratou apenas de uma visita diplomática ou institucional.
João Paulo II apresentava-se como peregrino, ansioso por encontrar pessoalmente uma das mais antigas comunidades cristãs do mundo.
Uma saudação a todos os armênios, inclusive da diáspora No discurso proferido no aeroporto, o Papa não se dirigiu apenas aos armênios presentes em sua terra natal, ressaltando a vontade de estender sua amizade “também aos milhões de armênios espalhados pelo mundo inteiro”, a quem ele se referiu como guardiões de seu patrimônio cultural e religioso.
Esse aspecto é importante para compreender o significado da viagem.
A Armênia visitada pelo Papa não era apenas o Estado independente nascido dez anos antes, mas também a pátria espiritual e histórica de uma grande diáspora, formada ao longo de séculos de guerras, perseguições e migrações.
O abraço fraterno a Karekin II O momento central do discurso, porém, foi a saudação dirigida ao Catholicos Karekin II, quando João Paulo II afirmou: “Abraço com amor fraterno no Senhor o senhor e a Igreja que o senhor preside”.
Com essas palavras, o Papa Wojtyla destacou imediatamente a dimensão ecumênica da viagem.
De fato, ele reconheceu na Igreja Apostólica Armênia um testemunho cristão extraordinário, sobretudo considerando as provações enfrentadas ao longo do século XX.
O Papa se definiu como um “peregrino em viagem espiritual”, que havia vindo para honrar o testemunho da Igreja armênia.
E justamente por ocasião do 1.700º aniversário, ele quis ressaltar que a alegria dos armênios era também a alegria da Igreja católica: “Toda a Igreja católica compartilha de sua alegria íntima e da de todos os armênios”.
Tratava-se de uma afirmação ecumênica de grande força: a celebração da história cristã armênia era apresentada como uma festa que dizia respeito a toda a cristandade.
Os armênios, o primeiro povo cristão A terceira parte do discurso foi dedicada às origens do cristianismo armênio.
João Paulo II relembrou a tradição segundo a qual a pregação dos apóstolos Tadeu e Bartolomeu havia chegado à Armênia, apontando depois São Gregório, o Iluminador, como a figura decisiva na difusão do cristianismo.
O Papa proferiu uma das frases mais importantes de todo o discurso: “O cristianismo tornou-se, pela primeira vez, a fé de uma nação inteira”.
João Paulo II interpretou assim o 1.700º aniversário não apenas como uma comemoração nacional, mas como um evento de alcance universal para a história da Igreja.
Segundo as palavras do Pontífice polonês, os armênios foram “os primeiros, como povo, a abraçar a graça e a verdade do Evangelho”.
A fé cristã era, portanto, apresentada como elemento constitutivo da identidade armênia.
A memória dos mártires do Medz Yeghern Logo após relembrar as origens cristãs da Armênia, João Paulo II abordou o tema do martírio.
Ele observou: “Vocês guardam com zelo a memória de seus numerosos mártires”.
E acrescentou que o martírio havia sido uma característica marcante da história da Igreja e do povo armênio.
Essa referência assumia especial importância no contexto da visita; de fato, o Papa não estava apenas celebrando uma história gloriosa, mas encontrando um povo que havia pago um preço altíssimo por sua identidade e por sua fé.
Essa dimensão se tornaria ainda mais evidente no dia seguinte, quando João Paulo II visitaria o memorial de Tsitsernagaberd, dedicado às vítimas da imensa tragédia do Medz Yeghern, de 1915.
Fé e futuro da Armênia O discurso no aeroporto, porém, não se limitou à memória do passado.
João Paulo II também olhou para o futuro da Armênia, que em 2001 celebrava o décimo aniversário de sua independência.
Uma das afirmações centrais foi: “O passado da Armênia é inseparável de sua fé cristã”.
Mas, segundo o Papa, a fé não pertencia apenas à memória do passado: ela também podia contribuir para a construção do futuro da nação.
João Paulo II encorajou, portanto, as autoridades e os cidadãos a construir uma sociedade justa e harmoniosa, fundamentada no respeito aos direitos, na solidariedade e no bem comum.
Sua mensagem assumia, assim, também uma dimensão civil e política: o progresso do país deveria ser colocado acima dos interesses particulares.
A mensagem pela paz Particularmente importante foi a referência à paz na região.
João Paulo II afirmou que a paz só poderia ser construída sobre bases sólidas: respeito mútuo, justiça nas relações entre comunidades diferentes e magnanimidade por parte dos mais fortes.
Era uma mensagem muito atual para o Cáucaso Meridional, uma região ainda marcada por tensões e conflitos.
O Papa associava, portanto, a celebração do 1.700º aniversário a uma responsabilidade concreta: a fé cristã deveria se traduzir na construção da paz e no serviço ao bem comum. “Amar a própria terra” Na parte final de sua intervenção, João Paulo II dirigiu aos armênios um apelo particularmente intenso.
Ele convidou cada um a se empenhar pelo futuro de sua pátria e afirmou: “Cada um deve decidir firmemente amar sua terra”.
A esse amor deveria acompanhar-se a disposição ao sacrifício pelo desenvolvimento autêntico da nação e pelo bem-estar espiritual e material do povo.
O discurso foi encerrado com uma bênção que resumia as esperanças do Papa para o país: “Que Deus abençoe o povo armênio com liberdade, prosperidade e paz!”.
Do aeroporto a Etchmiadzin Terminada a cerimônia de boas-vindas, João Paulo II dirigiu-se a Etchmiadzin, sede da Igreja Apostólica Armênia e residência do Catholicos.
A etapa seguinte foi a visita de oração à catedral apostólica.
Ali, o significado ecumênico da viagem atingiu uma de suas expressões mais elevadas.
Na oração em Etchmiadzin, o Papa Wojtyla proferiu, de fato, palavras que ficariam entre as mais significativas de toda a viagem: “A fé de vocês é a nossa fé em Jesus Cristo”.
Logo em seguida, ele fez referência às palavras da Carta aos Efésios: “Um só Senhor, uma só fé, um só Batismo”.
O gesto e as palavras de João Paulo II mostraram que a visita não era simplesmente uma celebração da antiguidade da Igreja armênia, mas também um passo no caminho rumo a uma comunhão mais profunda entre as Igrejas. Anos depois, a visita de João Paulo II à Armênia ainda mantém um significado que vai além do simples relato de uma viagem papal.
Foi uma peregrinação às raízes do cristianismo, um gesto de proximidade a um povo marcado pelo sofrimento e, acima de tudo, um encontro entre duas Igrejas antigas unidas pelo desejo de testemunhar juntos a Cristo e de prosseguir o caminho rumo à plena comunhão. [ Photo Embed: João Paulo II e Karekin II]