Entrevista com o cardeal prefeito do Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos sobre “Um caminho de esperança”, nota publicada por ocasião dos 60 anos da declaração conciliar Nostra aetate.
Quão importante é para a fé cristã a consciência das raízes judaicas?
Quanto ainda é preciso percorrer para que elas sejam redescobertas? «Perscrutando o mistério da Igreja, o sagrado Concílio recorda o vínculo pelo qual o povo do Novo Testamento está espiritualmente ligado à descendência de Abraão».
Com essas palavras começa o artigo 4 de Nostra aetate; ele coloca assim em evidência que a relação com o povo de Israel, o povo da Aliança, é parte integrante da auto-concepção da Igreja Católica, a qual não poderia compreender a si própria sem uma referência ao judaísmo.
Por isso, Nostra aetate recorda as raízes judaicas da fé cristã e fala de um «patrimônio espiritual comum» entre judeus e cristãos.
Esse patrimônio deve ser recordado e mantido vivo também hoje na catequese e no anúncio do Evangelho.
Para isso, poderá contribuir de maneira essencial o aprofundamento da íntima unidade entre o Antigo e o Novo Testamento no pensamento cristão e na liturgia da Igreja. [ In Evidence ] A Nota reconhece que “os conflitos que irromperam no Oriente Médio nos últimos anos também deixaram sua marca no diálogo judaico-cristão.
Muitas pontes de comunicação vacilaram...”.
Como fazer para que a condenação do que aconteceu e continua acontecendo nos Territórios Palestinos não obscureça a amizade e o diálogo com os judeus?
Enquanto o diálogo entre judeus e cristãos, depois da Shoá, passou por uma profunda transformação graças a Nostra aetate, deslocando a imagem do judeu daquela de “estrangeiro” ou até mesmo de “inimigo” para a de “irmão”, a experiência traumática de 7 de outubro e suas consequências, particularmente a guerra em Gaza como resposta de Israel ao ataque sofrido, representam um sério desafio em relação ao que foi alcançado até agora.
Do lado judaico, cresce a preocupação de que a solidariedade cristã esteja cada vez mais vinculada a condições políticas.
Ao mesmo tempo, muitos cristãos se encontram em uma dolorosa tensão entre seu vínculo com o povo judeu e sua obrigação ética para com aqueles que sofrem em Gaza, sobretudo as vítimas civis.
Devemos falar honestamente uns com os outros sobre essa nova situação.
Pois é justamente em situações como esta que é essencial não permitir que o diálogo seja interrompido, como destacou o Papa Leão XIV: «Também nestes tempos difíceis, marcados por conflitos e incompreensões, é necessário continuar com entusiasmo este nosso diálogo tão precioso».
A Igreja reconhece, portanto, sua obrigação de trabalhar pela paz tanto para o povo israelense quanto para o povo palestino.
A Santa Sé sempre esteve convencida de que somente a criação de dois Estados poderá trazer a paz ao Oriente Médio. [ In Evidence ] O antissemitismo está crescendo no mundo.
Qual é a tarefa dos cristãos diante desse fenômeno, a partir dos ensinamentos de Nostra aetate?
Não se pode ser um bom membro de uma família se não se aprecia e não se ama a própria mãe.
O judaísmo é a terra-mãe da qual brotou o cristianismo.
Por isso, o Concílio condena o antissemitismo não apenas por razões políticas, mas também movido pela «caridade religiosa evangélica».
Isso significa que é impossível ser discípulo de Jesus Cristo e, ao mesmo tempo, antissemita.
Todos os Pontífices que se sucederam desde o Concílio Vaticano II reafirmaram isso com grande convicção, e o Papa Leão XIV voltou a ressaltá-lo.
O povo judeu deve saber que, na Igreja Católica, tem um parceiro confiável na luta contra o recrudescimento do antissemitismo nos dias de hoje. [ In Evidence ]