Koovakad: a fraternidade não permaneça no papel, mas seja vivida nas Igrejas, escolas e famílias

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Koovakad: a fraternidade não permaneça no papel, mas seja vivida nas Igrejas, escolas e famílias
Fonte: VATICANO

Entrevista com Sua Eminência o Cardeal George Jacob Koovakad, Prefeito do Dicastério para o Diálogo Inter-religioso, sobre a Nota "Um caminho de esperança", 60 anos depois da Nostra aetate

Em janeiro de 2027, completam-se dois anos desde sua nomeação à frente do Dicastério para o Diálogo Inter-religioso: qual é sua experiência concreta sobre o estado atual das relações da Igreja Católica com as outras religiões?

Cerca de dois anos após a minha nomeação como Prefeito do Dicastério para o Diálogo Inter-religioso, a experiência concreta que posso testemunhar é a de um diálogo que já possui raízes estruturais profundas e, ao mesmo tempo, precisa se confrontar continuamente com novas tensões.

A Nota “Um caminho de esperança” afirma isso com clareza: a Declaração Nostra aetate não é um texto isolado, mas constituiu um “grão de mostarda” institucional e teológico.

Já em 1964, antes mesmo de sua promulgação, São Paulo VI havia criado o Secretariado para os Não Cristãos, hoje Dicasterio para o Diálogo Inter-religioso.

Esse órgão, juntamente com as Comissões para as relações com o judaísmo e com o islamismo, transformou uma intuição conciliar em uma estrutura permanente da Cúria e da missão da Igreja.

O estado atual das relações é, portanto, marcado, em primeiro lugar, por uma mudança estrutural de perspectiva.

Passou-se de atitudes de rejeição, desconfiança ou simples ignorância para relações duradouras de amizade entre líderes religiosos, para projetos educacionais e sociais compartilhados e para declarações conjuntas diante de guerras e crises humanitárias.

O diálogo se articula agora em vários níveis, segundo o esquema já clássico de Diálogo e anúncio: diálogo da vida cotidiana, diálogo das obras, diálogo dos intercâmbios teológicos e diálogo da experiência religiosa e monástica.

Não se trata mais de uma atividade periférica ou diplomática, mas de uma dimensão constitutiva da missão evangelizadora: um verdadeiro “espaço teológico” onde o Espírito Santo atua por meio do encontro com o outro.

Nestes dois anos, pude constatar pessoalmente a solidez de muitos desses frutos.

Com o islamismo, o caminho da fraternidade continua a gerar encontros, declarações e colaborações concretas.

O diálogo se estendeu também às grandes tradições asiáticas — hinduísmo, budismo, jainismo, sikhismo, xintoísmo, taoísmo, confucionismo — e às religiões tradicionais africanas.

Instrumentos operacionais criados nessas décadas (a revista Pro Dialogo, as mensagens de felicitações para as festas de outras tradições, a colaboração com o Conselho Ecumênico das Igrejas, a Rede de Mulheres para o Diálogo Inter-religioso, os fóruns dos “Jovens em Diálogo”) fazem hoje parte integrante do trabalho cotidiano do Dicastério.

Está-se experimentando uma abertura ao diálogo com os “novos movimentos religiosos” por meio de encontros que não se baseiam em questões teológicas, mas que se concentram na vida social, nos valores e na possibilidade de colaborar para o bem comum.

A esse respeito, o número 42 da Nota esclarece que «Esses encontros fraternos, que não podem ser entendidos nem como diálogo ecumênico nem como diálogo entre religiões, fundamentados na clareza da própria identidade e no respeito mútuo, podem oferecer oportunidades concretas para trabalhar em conjunto na promoção de valores compartilhados e na busca do bem comum.

Além disso, podem contribuir para uma compreensão mais atenta das aspirações espirituais contemporâneas, ampliando os espaços de testemunho, de conhecimento mútuo e de cooperação a serviço da dignidade humana, da paz social e do cuidado da criação”.

O Dicastério é chamado a guardar esse legado e a fazê-lo crescer, especialmente nas Igrejas locais e nas novas gerações chamadas a se tornarem construtoras de pontes, e não de muros.

Ao mesmo tempo, surgem os desafios: fundamentalismos, instrumentalização política da religião e, em não poucos países, um secularismo que reduz a questão religiosa a folclore ou a opinião privada.

Nas sociedades pluralistas ocidentais, o “diálogo” corre o risco de ser confundido com “relativismo”; em outros contextos, corre o risco de ser sufocado pela violência ou pela falta de liberdade religiosa para os cristãos.

No último quarto de século, vimos, por um lado, o aumento da violência e do fanatismo daqueles que matam em nome de Deus, mas também muitos exemplos de diálogo, especialmente por meio do caminho da fraternidade destacado pela Declaração assinada em Abu Dhabi em 2019 e pelos importantes encontros que se seguiram.

Cristãos e muçulmanos podem conviver em paz?

Sim, podem e devem.

A Nota “Um caminho de esperança” afirma isso com clareza, situando a questão em um contexto mais amplo: o diálogo inter-religioso não é uma opção facultativa, mas uma necessidade vital.

O último quarto de século mostrou de forma dramática as duas faces da realidade: por um lado, a instrumentalização da religião para fins de violência e poder; por outro, o crescimento de um diálogo concreto e fraterno que encontrou na Declaração sobre a Fraternidade Humana de 2019 um de seus momentos mais marcantes.

A Nostra aetate já havia indicado o caminho: “a Igreja também olha com estima para os muçulmanos”, reconhece neles um culto do único Deus, a importância da oração, da esmola e do jejum, e convida a esquecer o passado e a empenhar-se sinceramente pela compreensão mútua e pela promoção comum da justiça social, dos valores morais, da paz e da liberdade.

O magistério pós-conciliar desenvolveu essa intuição.

São João Paulo II demonstrou, em Assis e em tantos outros encontros de seu longo e fecundo pontificado, que as religiões não são fonte de divisão, mas atores essenciais de uma paz duradoura.

Bento XVI reiterou que o diálogo islâmico-cristão não pode ser reduzido a uma escolha sazonal, pois dele depende, em grande parte, o nosso futuro.

O Papa Francisco deu a esse caminho o nome e o conteúdo da “fraternidade humana”, assinando em Abu Dhabi o Documento sobre a fraternidade humana para a paz mundial e a convivência comum, e prosseguindo com encontros significativos em Nur-Sultan (Cazaquistão), em Jacarta (Indonésia) e em muitos outros lugares.

A Nota lembra que esses gestos se inserem em uma continuidade que produziu frutos visíveis e silenciosos, aos quais já me referi: colaborações educativas e sociais, declarações conjuntas contra a violência em nome de Deus, redes de mulheres e jovens engajados no diálogo com o objetivo de contribuir para causas concretas, como o cuidado da casa comum ou a prevenção da guerra, experiências de convivência cotidiana em bairros multirreligiosos.

Ao mesmo tempo, o documento não esconde as feridas: as perseguições sofridas pelos cristãos em diversas partes do mundo por parte de grupos extremistas, as tensões ligadas aos conflitos no Oriente Médio, os preconceitos que persistem de ambos os lados, a manipulação política das identidades religiosas.

A convivência pacífica é, portanto, possível, mas não automática.

Ela requer três condições que a Nota destaca com veemência.

A primeira é a clareza quanto à própria identidade: o diálogo não é relativismo nem sincretismo.

Cristãos e muçulmanos dialogam melhor quando cada um conhece e vive profundamente a própria fé.

A segunda é a coragem de aceitar a alteridade: o outro não é uma ameaça a ser mantida à distância, mas um interlocutor e, potencialmente, um aliado e um amigo.

A terceira é a sinceridade das intenções: o diálogo não pode ser instrumentalizado para fins políticos ou diplomáticos de curto prazo.

A experiência destas décadas mostra que, onde essas condições são respeitadas, cristãos e muçulmanos não apenas convivem, mas colaboram de maneira fecunda.

Onde, ao contrário, prevalecem o medo ou a instrumentalização, a religião é distorcida.

A tarefa de quem acredita é demonstrar, com fatos, que a fé autêntica leva a trabalhar pela paz.

Por isso, o Dicastério continua a trabalhar para que o caminho da fraternidade não fique apenas no papel, mas se torne uma pedagogia vivida nas Igrejas locais, nas escolas e nas famílias.

Em particular, o Papa Francisco, durante seu pontificado, havia enfatizado a importância de caminharmos juntos apesar das diferenças, comprometendo-nos a ajudar aqueles que sofrem.

A Nota afirma que “a atenção concreta aos mais vulneráveis é o indicador essencial para avaliar a qualidade de todo projeto” e “a bússola que nos permite saber se estamos seguindo na direção certa”.

O senhor poderia citar alguns exemplos relacionados a essa perspectiva?

A Nota “Um caminho de esperança” coloca essa afirmação no centro do discernimento sobre o diálogo inter-religioso.

Não se trata de um critério genérico ou sentimental, mas de um princípio evangélico e universal: o acolhimento ou a rejeição da pessoa ferida à beira do caminho.

O pobre, em todas as suas formas de precariedade, é a bússola.

Todo projeto — político, econômico, social, acadêmico, religioso ou cultural — deve ser avaliado por esse parâmetro.

O Papa Francisco tornou esse princípio particularmente evidente.

Na Fratelli tutti e em muitos gestos de seu pontificado, como o lava-pés nas prisões durante a liturgia da Quinta-feira Santa, ele mostrou que caminhar juntos não obstante as diferenças não é um exercício intelectual, mas um compromisso concreto em favor daqueles que sofrem.

A Nota retoma e aprofunda essa perspectiva, inscrevendo-a na tradição da Nostra aetate e do magistério pós-conciliar.

Em nível internacional, os grandes encontros inter-religiosos geraram não apenas declarações de princípio, mas apelos concretos e parcerias em favor de migrantes, refugiados, vítimas de conflitos e daqueles que sofrem discriminação religiosa.

O Documento sobre a Fraternidade Humana e a Fratelli tutti relacionaram explicitamente a paz à proteção dos mais vulneráveis.

As declarações conjuntas contra a violência e o ódio, assinadas por líderes de diversas tradições, frequentemente incluíram compromissos de solidariedade para com as comunidades perseguidas e para com as populações atingidas por guerras e catástrofes.

No âmbito das Igrejas locais — indicadas pela Nota como a “linha de frente criativa” —, os exemplos são ainda mais concretos e, muitas vezes, discretos.

Em muitos bairros multirreligiosos da Europa, África, Ásia e América Latina, cristãos e muçulmanos (e, em alguns contextos, também judeus, hinduítas ou budistas) colaboram diariamente em projetos de assistência a migrantes, de apoio a famílias em dificuldade, de educação de crianças e de cuidados aos idosos.

Existem iniciativas de refeitórios comunitários, atividades extracurriculares inter-religiosas e assistência oferecida em conjunto a quem não tem cobertura de saúde.

Em zonas de conflito, comunidades cristãs e muçulmanas criaram, por vezes, espaços protegidos para os mais vulneráveis.

Outro âmbito significativo é a luta conjunta contra o antissemitismo, a intolerância em relação aos muçulmanos, sem ignorar as discriminações contra os cristãos, bem como contra qualquer outra forma de perseguição religiosa.

Quando líderes de diversas tradições se posicionam juntos em favor daqueles que são discriminados ou perseguidos, eles estão avaliando a veracidade de seu diálogo à luz dos mais vulneráveis.

Por fim, a formação à literacia religiosa e à compreensão das dinâmicas culturais e geopolíticas não é um exercício teórico: ela prepara gerações capazes de reconhecer o rosto do pobre e de colaborar concretamente a seu serviço, independentemente de suas afiliações religiosas.

Todos esses exemplos mostram que o diálogo inter-religioso, quando é autêntico, se concretiza e se purifica no encontro com quem sofre.

Se isso acontecer, estamos caminhando na direção certa.

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