Com a notícia da internação dada pelo próprio Pontífice no Angelus, o Pe. Maicon Malacarne reflete sobre "a fragilidade como um lugar de encontro": "falar sobre a dor, reconhecer a vulnerabilidade, permitir-se ser cuidado, tudo isso também faz parte de um caminho de cura". Dediquemos "nossa prece ao Papa Leão. E, com ele, aprendamos também nós a reconhecer a fragilidade do corpo e da alma, sem vergonha e sem máscaras".
Pe.
Maicon A.
Malacarne* A escritora portuguesa Matilde Campilho diz que “a matéria de que somos feitos é o susto”.
Talvez seja justamente por isso que o gesto público do Papa Leão XIV, ao anunciar a necessidade de passar por uma cirurgia para a retirada de um nódulo no pulmão, nos ajude a pensar a fragilidade como um lugar de encontro.
A vida está sujeita aos seus limites, o corpo adoece, e assumir essa vulnerabilidade nunca é fácil.
Vivemos sob a pressão de uma cultura do bem-estar, do tabu da imagem de uma vida perfeita, da necessidade de responder a todas as expectativas, de permanecer produtivos, de apresentar resultados, de manter intocável uma espécie de segurança sobre tudo e sobre todos.
Mas a vida, mais cedo ou mais tarde, assusta.
E sempre de novo precisamos deixar de lado a performance da perfeição para nos deixarmos cuidar.
É por isso que a fragilidade pode tornar-se um lugar de encontro: encontro com um mundo também frágil, verdadeiro, necessitado dos outros.
É quando a vida perde suas máscaras que podemos deixar cair os disfarces de uma perfeição que nunca existiu.
Quando o Papa assumiu que precisará passar por uma intervenção cirúrgica, não estava “exibindo” a sua condição.
Estava tratando os fatos com a verdade necessária, acompanhada de um pedido de proximidade espiritual e da necessidade concreta de cuidado.
Falar sobre a dor, reconhecer a vulnerabilidade, permitir-se ser cuidado, tudo isso também faz parte de um caminho de cura.
Partilhar as próprias fraquezas não significa idealizar o sofrimento, como se adoecer fosse uma bênção.
Há fragilidades que não escolhemos.
Há situações diante das quais simplesmente nos descobrimos pequenos.
E, justamente quando podem ser partilhadas, elas encontram a possibilidade de gerar relações mais verdadeiras. “Quando sou fraco, então é que sou forte”, escreveu São Paulo aos Coríntios (2Cor 12,10).
Jesus Cristo assumiu plenamente a nossa condição humana.
Na cruz, levou a fragilidade até o extremo.
Não se escondeu da dor, não recusou ser encontrado.
E, em cada encontro, abriu a possibilidade de que a Revelação de Deus acontecesse na medida da abertura do coração e da verdade da vida.
Com tudo o que realizou, Jesus testemunha que a fraqueza não é sinônimo de falta de fé.
Talvez, muitas vezes, a falta de fé esteja mais próxima da atitude desumana de querer performar uma perfeição que não existe.
Dediquemos nossa prece ao Papa Leão.
E, com ele, aprendamos também nós a reconhecer a fragilidade do corpo e da alma, sem vergonha e sem máscaras.
Em nossa fraqueza é que Deus encontra espaço para nos visitar e para nos aproximar uns dos outros.
De fato, como escreveu Manoel de Barros, em uma dessas frases que parecem pequenas, mas carregam um mundo inteiro: “a maior riqueza do homem é a sua incompletude”. * professor de Teologia Moral e pároco da Paróquia São Cristóvão - diocese de Erexim/RS