Os líderes religiosos da província sul-africana de Gauteng condenaram os assassinatos de mulheres em Ekurhuleni e apelaram a um esforço contínuo para reconstruir o respeito pela vida humana, começando nas famílias e estendendo-se às comunidades religiosas, às escolas, ao Governo e à sociedade em geral.
Por Sheila Pires, em Joanesburgo O apelo foi feito na terça-feira, 22 de setembro, durante uma reunião do Conselho Inter-religioso de Liderança de Gauteng (GILC), convocada para responder à morte de nove mulheres cujos corpos foram encontrados em diferentes zonas de Ekurhuleni desde julho.
A declaração foi lida pelo Cardeal Stephen Brislin, Arcebispo de Joanesburgo e membro do GILC, na presença de representantes de várias tradições religiosas.
No início do encontro, o Cardeal Brislin mencionou os nomes das mulheres identificadas pelo Serviço de Polícia da África do Sul (SAPS): Busisiwe Mahlangu, Itumeleng Kekana, Nomfesane Mjobo, Gracious Nkomo, Elizabeth Moselakgomo, Dineo Motapane e Jabulile Ntimba.
As outras duas vítimas ainda não tinham sido identificadas publicamente, enquanto se aguardava a notificação das respectivas famílias.
As mortes chocaram comunidades em todo o país e agravaram a preocupação em torno da violência baseada no género e do feminicídio. “Estas mulheres não são estatísticas” “Estas mulheres não são estatísticas”, afirma a declaração do GILC. “São filhas, irmãs, mães, amigas, vizinhas e membros queridos das nossas comunidades.” O Conselho descreveu cada vida perdida para a violência como uma tragédia que afecta toda a humanidade, afirmando que a violência baseada no género e o feminicídio constituem “um profundo fracasso moral e um grave pecado contra a sacralidade da vida humana”.
Inspirando-se no Documento sobre a Fraternidade Humana para a Paz Mundial e a Convivência, assinado em Abu Dhabi, em 2019, pelo Papa Francisco e pelo Grande Imã de Al-Azhar, Ahmed Al-Tayeb, os líderes religiosos reafirmaram a dignidade de cada pessoa humana, dada por Deus.
Apelaram para que as investigações prossigam de forma diligente e que os responsáveis sejam levados à justiça.
Ao mesmo tempo, exortaram as comunidades a colaborar com as autoridades policiais e as comunidades religiosas a intensificarem os esforços de educação e a confrontarem atitudes e comportamentos que perpetuam a violência contra as mulheres.
As religiões unidas na resposta Em entrevista ao Vatican News, o Cardeal Brislin explicou que o GILC foi criado porque as pessoas de fé podem contribuir para o bem comum quando trabalham em conjunto. “Temos as nossas diferenças e não podemos negar que existem diferenças”, afirmou. “Mas o facto é que também temos muitos valores em comum.” Um dos principais objectivos do Conselho, explicou, é fazer com que esses valores partilhados contribuam para enfrentar os desafios que a sociedade enfrenta.
O Conselho reúne representantes de diferentes denominações cristãs e de outras tradições religiosas, incluindo muçulmanos, hindus e a International Society for Krishna Consciousness (ISKCON).
O Cardeal Brislin sublinhou que as comunidades religiosas têm um papel importante no combate à violência baseada no género, mas advertiu que a resposta não pode depender apenas dos líderes religiosos.
Tem de ser “um esforço comum, não apenas dos líderes religiosos, mas de toda a nossa sociedade”, disse à Vatican News. “O respeito começa em casa” Durante a sessão de perguntas e respostas, a discussão voltou repetidamente à família e à formação das crianças, particularmente dos rapazes.
Os líderes religiosos afirmaram que os rapazes e os jovens precisam de aprender desde cedo que a violência, a dominação e a falta de respeito não são expressões de masculinidade.
O Cardeal Brislin destacou o papel dos homens no acompanhamento e orientação dos rapazes e jovens, ajudando-os a compreender o significado de uma masculinidade responsável.
Sublinhou também a importância dos pais e de modelos masculinos positivos no acompanhamento das crianças e na formação da sua consciência moral.
Os líderes salientaram ainda que as famílias precisam de apoio, sobretudo quando as crianças crescem sem cuidados parentais consistentes.
As comunidades, incluindo igrejas, mesquitas e templos, podem desempenhar um papel importante no acompanhamento dos jovens e no reforço dos valores que começam por ser aprendidos em casa. “O respeito começa em casa”, foi uma das ideias centrais da discussão, com os líderes religiosos a apelarem aos pais, às escolas e às comunidades religiosas para trabalharem em conjunto na formação de crianças que respeitem a dignidade dos outros.
Uma resposta que exige compromisso a longo prazo A declaração do GILC termina reafirmando que a vida de cada mulher é “preciosa, sagrada e digna de protecção”. “Uma ferida infligida a uma é uma ferida infligida a todos», declararam os líderes religiosos. «A perda destas mulheres é uma perda para a nossa humanidade comum.” Durante uma conferência de imprensa no domingo, 20 de setembro, o Ministro da Polícia em exercício, Firoz Cachalia, afirmou que as investigações sobre os assassinatos prosseguiam, com uma equipa multidisciplinar a trabalhar para determinar as circunstâncias que envolveram as mortes.