Luiz Gama- um inteletual negro engajado na luta contra a escravidão e o racismo

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Luiz Gama- um inteletual negro engajado na luta contra a escravidão e o racismo
Fonte: VATICANO

Duas importantes datas relacionadas com a escravatura e o racismo marcaram a fase final do mês de agosto: o Dia Internacional de Recordação do Tráfico Negreiro e da sua Abolição, instituído pela UNESCO em 1998 e que ocorre a 23 de agosto; e 24 de agosto, Dia da Abolição da Escravatura no Brasil. A esta data está associada o nome de Luiz Gama, uma das figuras de proa da luta pela igualdade racial no país. Conheça-o na crónica de Filinto Elísio, poeta, ensaísta e editor.

Dulce Araújo - Vatican News O Dia 23 de agosto foi declarado Dia Internacional de Recordação do Tráfico Negreiro e da sua Abolição pela UNESCO nos 150 anos da abolição da escravatura por porte de Paris, em 1998.

Seguiu-se, em 2001, a adoção da chamada Lei Toubira Dellanon (do nome da deputada da Guiana francesa que a promoveu no Parlamento francês) que declara a escravatura, crime contra a humanidade.

A data de 23 de agosto, foi escolhida por ser o dia da insurreição em Santo Domingo, atual Haiti, encabeçada por Toussaint Louverture e que deu origem à primeira República Negra no mundo.

Foi em 1791.

Ao adotar em 1998 o dia 23 de agosto como Dia Internacional Dia Internacional de Recordação do Tráfico Negreiro e da sua Abolição, o então Diretor Geral da UNESCO, Koichiro Matsuura, escrevia que a “Insurreição de Santo Domingo abalou de forma radical e irreversível o sistema esclavagista e esteve na origem do processo de abolição do Tráfico Negreiro Transatlântico.” * O outro evento ligado a esse Tráfico e que se assinalou a 24 de agosto é a Abolição da Escravatura no Brasil, de que Luiz Gama foi um dos grandes promotores.

Mas quem era Luiz Gamos?

A resposta nesta crónica que Filinto Elísio preparou para o programa da Rádio Vaticano “África em Clave Cultural: personagens e eventos” * Crónica  "Luiz Gama – Um intelectual negro engajado na luta contra a Escravidão e o Racismo A morte de Luiz Gama, advogado, escritor e jornalista, ocorrida em 1882, em São Paulo, é lembrada no dia 24 de agosto como o Dia da Abolição da Escravidão no Brasil.

Luiz Gonzaga Pinto da Gama nasceu em Salvador, Bahia, no dia 21 de junho de 1830, filho de um fidalgo de origem portuguesa (cujo nome jamais citou), e da africana liberta Luiza Mahin, da Costa da Mina, que, segundo ele, participou da revolta dos Malês, em 1835, e da Sabinada em 1837 e, como consequência, teve de fugir para o Rio de Janeiro, deixando o filho aos cuidados do pai que o terá vendido como escravo aos 10 anos de idade.

Foi levado para a fazenda de um comerciante em Limeira, no interior de São Paulo, onde permaneceu cativo até os 17 anos, quando provou que havia nascido livre.

Aprendeu a ler e a escrever ainda aos 17 anos.

Em 1848, mudou-se para a cidade de São Paulo, onde se alistou na Força Pública da província.

Em 1850, casou-se com Claudina Gama, com quem teve um filho, e tentou ingressar no curso de Direito do Largo de São Francisco.

Por ser negro, não foi admitido pela instituição, mas acompanhou as aulas como ouvinte e lendo na biblioteca.

Expoente do romantismo no Brasil escravocrata do século XIX, foi um reconhecido escritor que publicou em 1859 uma coletânea de poemas satíricos intitulado “Primeiras Trovas Burlescas”, em que apresentava temáticas raciais e abolicionistas.

Passou a fazer parte da intelectualidade de São Paulo, lançando e colaborando com publicações como o jornal ilustrado “Diabo Coxo”, o semanário “Coimbrão”, no Radical Paulistano e no Polichinelo.

Em 1869, juntamente com Rui Barbosa, fundou o Correio Paulistano, primeiro jornal diário da capital e amplamente popular.

Colaborou com diversos jornais progressistas, entre eles: Ipiranga e A República.

Foi um dos mais notáveis patronos da abolição da escravatura pela sua atuação como advogado, mesmo sem ser diplomado.

Nas suas argumentações, procurava apresentar ilegalidades na relação entre o senhor e o escravizado, justificando a necessidade da alforria.

Fazia-se valer também da Lei de 7 de novembro de 1831, que proibia o Tráfico Negreiro, e da Lei Eusébio de Queirós (1850), que criminalizou de vez a atividade.

Estima-se que Luiz Gama tenha libertado, judicialmente, mais de 700 negros cativos, sem nunca cobrar honorários de advogado.

Gama esteve sempre envolvido nos movimentos contra a escravidão, tornando-se um dos maiores líderes abolicionistas do Brasil.

Em 1873 participou da Convenção de Itu, que criou o Partido Republicano Paulista.

Em 1880 tornou-se o líder da Mocidade Abolicionista e Republicana.

Participava de sociedades secretas, como a Maçonaria, que o ajudava financeiramente.

Após um século e meio de apagamento da sua extraordinária figura histórica, em 2015, a Ordem dos Advogados do Brasil reconheceu Luiz Gama como advogado, corrigindo uma injustiça cometida ao recusar a inscrição do jovem negro.

Em 2017, foi homenageado quando uma das salas da instituição recebeu o seu nome.

Em 2018 recebeu o título de Patrono da Abolição da Escravidão no Brasil, além de ter seu nome inscrito no Livro dos Heróis da Pátria.

Em 2021 recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de São Paulo.

A honraria fez de Luiz Gama o primeiro brasileiro negro a receber o título.

Outro grande reconhecimento aconteceu ainda em 2021, com o lançamento do filme Doutor Gama, que conta a história do personagem desde a infância até sua consagração como advogado abolicionista."  [ Audio Embed Oiça a crónica]

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