Nem sempre andar em cima do acontecimento é virtude. Por vezes, é necessário deixar o pó assentar e dar tempo a uma boa digestão de textos, discursos e eventos, para depois se pronunciar com melhor conhecimento sobre a sua importância simbólica e real impacto pastoral.
Tony Neves, em Roma Comecemos pelo princípio do mês de outubro, que celebra tradicionalmente a Missão e o Rosário.
O Papa Leão XIV, bem antes de detetar o cancro nos pulmões, lançou a feliz iniciativa ‘Rosário pela Paz’.
Foi na sua Visita a Lourdes que pediu que outubro fosse o mês de especial oração pela Paz, através da clássica recitação do Rosário, ‘uma oração simples, que todos podem rezar’.
Deu o exemplo quando, nos Jardins do Vaticano, rezou o Terço com 700 crianças, lançando a iniciativa das ‘50 milhões de Avé-Marias a subir aos céus’, por uma Paz que ele definiu, desde a primeira hora, como desarmada e desarmante.
Leão XIV destacou a existência de uma autêntica corrente de oração pela paz que teve lugar no mundo inteiro ‘para abraçar e unir entre si todos os continentes, as raças e as nações do planeta’.
Eu, incluído!
Bispos de Portugal Em Portugal, os Bispos publicaram uma Mensagem forte para a celebração do Mês Missionário, a pretexto dos cem anos do Dia Mundial das Missões.
Disseram: ‘Este centenário é ocasião de gratidão.
Gratidão por tantos missionários e missionárias que deixaram a sua terra, aprenderam outras línguas, partilharam a vida de outros povos e anunciaram o Evangelho muitas vezes em circunstâncias de enorme exigência.
Gratidão também pelas comunidades cristãs que, ao longo destas décadas, compreenderam que a missão não pertence a alguns especialistas: faz parte da própria identidade da Igreja’.
Depois de insistir na importância da missão fora de portas, os Bispos olham também para dentro de casa: ‘a geografia da missão mudou também diante dos nossos olhos.
Hoje, a missão passa pelas nossas cidades, aldeias, escolas, universidades, famílias e lugares de trabalho.
Passa por aqueles que se afastaram da fé, por gerações que já não receberam o anúncio cristão e também pelo encontro quotidiano com pessoas de diferentes culturas e tradições religiosas.
Não se trata de olhar para esta realidade com medo.
Trata-se de reconhecer nela um apelo.
Portugal é também, hoje, terra de missão’.
O objetivo missionário é claro: ‘gerar homens e mulheres novos, capazes de viver segundo a lógica das Bem-aventuranças e de levar ao mundo a paz, a justiça, a fraternidade e a esperança que nascem do Evangelho’ D.
Pedro Fernandes D.
Pedro Fernandes, Bispo de Portalegre e Castelo Branco, missionário Espiritano, aceitou o desafio lançado pelo Centro Missionário da Arquidiocese de Braga e escreveu uma reflexão profunda sobre a Missão hoje (também publicada na Agência Ecclesia’ com o título: ‘Cem anos de comunhão’).
Diz: ‘não falamos de missão de modo abstrato, com belos discursos retóricos e pouco relacionados com as questões reais das pessoas reais.
Para nós, cristãos, a missão é sempre encarnada e a nossa intervenção faz-se sempre com base na atenção concreta às pessoas concretas, num pressuposto de empatia, solidariedade e compromisso com todos, especialmente com os mais frágeis.
E isso em nome de Deus e do Evangelho que em Jesus Cristo nos comunicou e nos encarregou de anunciar, também com palavras… mas sobretudo com obras, olhar crítico, intervenção assertiva, posicionamentos coerentes com o Amor, de modo sereno e firme’. [ Photo Embed: Crianças associam-se ao pedido do Papa Leão e rezam juntas pela paz no mundo] P.
Mandele, Wenje, Quénia A passagem de uma teoria missionária à sua prática nas complexas linhas da frente da Missão é sempre desafiante.
Bem longe daqui, na Missão de Wenje, na fronteira do Quénia com a Somália, lá onde o islamismo é esmagador e a seca empobrece as populações indefesas, está o P.
Martins Mandele, espiritano angolano ali enviado em Missão.
Convocou as crianças e convidou-as a associar-se ao pedido do Papa Leão, rezando juntas pela paz no mundo.
Interpelado sobre a importância de iniciativa, o P.
Mandele reagiu: Que ninguém diga: ‘São apenas crianças!’.
Não!
São pequenos missionários.
São sementes que Deus colocou no coração da Igreja.
Cabe-nos cuidar delas, acompanhá-las, formar a sua fé e ajudá-las a descobrir que também podem fazer a diferença’.
Em jeito de conclusão A partir de Roma, em Portugal inteiro, em Portalegre e Castelo Branco ou em Wenje nos confins do Quénia, o Outubro Missionário celebrou, de forma original, mas radical, os cem anos da instituição do Dia Mundial das Missões. [ Audio Embed Oiça qui a reportagem e partilhe]