Vinte e três anos depois da minha última visita encontrei um México diferente, mas com os Espiritanos a tentar responder aos mesmos desafios missionários. O que vi, ouvi e vivi nas visitas, nas celebrações e nos encontros, merecem ser partilhados. Vou contar-vos o essencial nesta crónica, e também nas próximas.
Tony Neves, na Cidade do México Aterrei na Cidade do México e, ao sobrevoar, deu para perceber a sua enorme dimensão. Segundo estatísticas, a maior cidade de língua espanhola rondará os 20 milhões de habitantes, se incluirmos as superpovoadas periferias. Estas visitas proporcionam-me sempre um feliz encontro com a história. Andemos mais de 500 anos para trás e tentemos acompanhar Hernan Cortez que, em 1521, tomou Tlatelolco, a cidade Azteca que os espanhóis conquistaram e sobre a qual construíram a atual capital do México. Como sempre faziam, derrubaram as pirâmides (monumentos religiosos aztecas) e construíram uma Igreja. Felizmente, ainda restaram algumas partes das Pirâmides, pelo que temos, hoje, a Praça das Três Culturas, no coração da cidade do México. Pode dizer- se que este é o melhor bilhete de identidade do país. Ao visitar esta zona arqueológica, passeámo-nos, então, por três culturas: as pirâmides levam-nos ao tempo dos Aztecas; a Igreja, construída pelos espanhóis, conduz-nos ao tempo da ‘conquista’; os prédios ultra-modernos mostram-nos os tempos que correm. O século XVI mexicano foi muito investigado a partir desta zona arqueológica. A Praça das Três Culturas ficou ainda para a história por causa do massacre de estudantes feito pelos militares a 2 de outubro de 1968 (depois do maio de 68 de Paris). Por mais incrível que pareça, ainda há processos em curso, mas ninguém acredita que um dia a justiça seja feita. Faço sempre um segundo encontro com a história: a chegada dos Missionários Espiritanos. É verdade – a história ensina – que os começos imprimem uma orientação à Missão a realizar. Há 55 anos, os três primeiros Espiritanos chegaram ao México, vindos dos EUA, e dirigiram-se à Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe. Ali rezaram e pediram à Virgem para os guiar a um lugar onde houvesse um trabalho verdadeiramente Espiritano. Acabaram por ser encaminhados para Tanlajás onde chegaram a 21 de fevereiro de 1971. Era dia de mercado. Encontraram muitos indígenas com cargas pesadas aos ombros. Viram logo que estes homens desprezados seriam os privilegiados da sua missão. E instalaram-se ali numa casa muito simples, feita de barro. Souberam, mais tarde, que o povo tinha rezado muito à Senhora de Guadalupe para terem um pároco. Não receberam um pároco, mas três! O abandono religioso era quase total. Iam a cavalo ao encontro das comunidades espalhadas pela serra. Cada seis meses tinham de sair do país para renovar os vistos de permanência. Assim começou a nossa história Espiritana por terras mexicanas, em meio indígena. Os huastecas da etnia ‘tenec’ eram 92% do total da população local. 55 anos depois, notamos que as motivações missionárias são as mesmas, sempre focados na evangelização integral dos mais descartados da sociedade, seja em ambiente indígena, seja em paróquias nas periferias das grandes cidades. Foi feito um investimento sério na pastoral vocacional e abriram-se casas de formação para enraizar o carisma e a presença Espiritanas. Tive a alegria de visitar o México em 2003 e viver aí a grande festa de Nossa Senhora de Guadalupe. Estive em Tanlajás e confesso que visitar esta Missão foi a experiência de um autêntico regresso às origens e um encontro com a história. Depois, fui a Coscatlan, Tampico, Madero, Pujal e San António. En San António assisti à saída da Antorcha Guadalupana e vivi a Festa da Solenidade em Pujal. Visitei algumas comunidades nas montanhas, celebrei com elas, saboreei a riqueza e a beleza das músicas, da dança, dos trajes tradicionais, dos costumes, da gastronomia, da paisagem, da simpatia, da fé e alegria das pessoas. Tive a graça de viver, em contexto indígena, a grande festa nacional em honra da Senhora de Guadalupe, a 12 de dezembro. Cúmulo de felicidade foi a concelebração da Eucaristia no enorme Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe, na capital mexicana.