O apostolado MedCAl – Médico de Corpos e Almas é um convite a jovens profissionais viverem o cuidado ao próximo como um ato missionário: "não estou buscando só uma doença, é um encontro entre pessoas”. Dr. Clerisson, que fundou o movimento em Brasília, conta sobre o início. Em São José dos Campos-SP, o MedCAl realiza ação conjunta com a Pastoral da Criança.
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Ruth Santana - Vatican News Conciliar a atuação profissional na área da saúde com a vida de fé e os valores cristãos, é um desafio enfrentado por muitos jovens, sejam estudantes nas universidades, ou profissionais recém formados, em um mundo que muitas vezes valoriza a velocidade, o desempenho e a técnica, esquecendo de colocar a dignidade humana no centro.
Buscando uma reposta para essa realidade, ainda como estudante de medicina, em 2009, Clerisson da Silva Pinheiro deu os primeiros passos para começar o que hoje é o apostolado MedCAl – Médico de Corpos e Almas, vinculado ao Regnum Christi e presente em três estados brasileiros, que ajuda os estudantes e jovens profissionais a integrar as dimensões humana e espiritual em seu trabalho e estudo por meio de formações, missões e acompanhamento espiritual. “Seja médico de corpo e alma, e ajude os jovens a serem também” Foi com 27 anos de idade, em 2009, cursando medicina em Brasília, depois de outras experiências profissionais e acadêmicas, que Clerisson enfrentou as primeiras frustrações e conflitos diante do modo como o exercício da profissão lhe era apresentado.
Segundo ele, alguns critérios ensinados no avançar do curso “começaram a desafiar minha posição e valores cristãos”, havia então “um sofrimento, uma necessidade de resposta”.
Relembrando os impasses vividos, ouvia de professores que para ser um bom médico deveria concordar com certas posturas e práticas, como por exemplo recomendar o uso de anticoncepcionais, incentivar laqueadura, ou outros métodos para esterilização, o que para ele “começou a criar um impasse”, e diz: “mesmo de forma respeitosa, eu não perdia a oportunidade de me expressar e defender a fé”.
Uma capela próxima à faculdade foi para ele um refúgio, e diante do sacrário se questionava: “devo ser cristão, como eu procuro ser, ou devo lateralizar minha fé?”.
Em uma de suas adorações diárias, veio de forma clara a resposta: “seja médico de corpo e alma, e inspire, ensine os jovens a serem médicos de corpos e almas”.
Viver a dimensão interior, para servir o próximo de forma integral O nome do apostolado reflete as duas dimensões: primeiro, de modo pessoal, cada um é chamado a dedicar-se ao estudo ou à profissão de corpo e alma.
A partir disso, realizar um atendimento ao próximo atento ao corpo e à alma.
Segundo Dr.
Clerisson, “é um convite ao profissional não utilizar apenas seu intelecto para agir, mas de maneira integral, ter a consciência de envolver na relação profissional, a amizade com Cristo e sua imitação”.
Essa dimensão pessoal foi a primeira atitude de Clerisson na faculdade, após sua inspiração, através da oração pessoal e da maneira de lidar com os estudos.
Aos poucos, conheceu outros jovens que partilhavam do carisma do Regnum Christi e iniciavam, em 2011, o curso de medicina.
O grupo participou, em outubro de 2012, de uma ação missionária em Ceilândia, oferecendo atendimentos voluntários nas casas que eram visitadas, com o apoio de profissionais experientes.
Ao final daquele ano, relembra o Dr.
Clerisson: “com a audácia de querer mudar o mundo e só com um estetoscópio na mão e um coração inflamado de amor a Deus, às almas, a gente iniciou o Medcal.” A primeira ação missionária do grupo foi em Goiânia, reunindo cerca de 50 jovens. [ Photo Embed: Jovens em missão do MedCAL em Ceilândia-DF] Atender o próximo como um ato missionário Durante os atendimentos, seja nas missões ou em outras atividades do apostolado, o mais importante não é a quantidade de pessoas que alcança e o foco não deve ser apenas em encontrar um diágnostico ou dar uma solução médica, mas ter o olhar atento para a pessoa como um todo.
É importante lembrar, segundo o Dr.
Clerisson, de viver o “trabalho como um ato apostólico, um ato missionário”, e de que “a minha medicina serve ao meu próximo, e não o meu próximo serve a minha medicina”.
Apesar de ter surgido no contexto do curso de medicina e levar o termo médico em seu nome, o apostolado desde o início esteve aberto a outros profissionais de saúde, como dentistas, enfermeiros e psicólogos.
Segundo o Dr.
Clerisson, a evangelização se dá no modo como se acolhe, atende e examina o paciente, “por isso essa realidade não é restrita à medicina, ela é inerente a todo batizado que entende a sua missão no próximo como meio seguro para exercer a caridade, o amor, entender a sua profissão como uma graça de Deus”.
Ao longo das atividades missionárias outros jovens, mesmo não sendo da área, manifestaram desejo de participar e também contribuem seja nas visitas às casas, ou atividades de formação e recreação. [ Photo Embed: Atendimento em uma das missões do MedCAl em Ceilândia-DF] Ensinar o que não se aprende nas universidades As atividades do apostolado procuram gerar um ambiente seguro para os jovens desenvolverem sua técnica e também sua espiritualidade, sempre acompanhados de profissionais experientes.
Dr.
Clerisson relata ter ouvido testemunhos de estudantes ou profissionais que, desanimados com a escolha que haviam feito, “foram ao MedCAl, viram a graça fluindo através da sua profissão, alcançando o coração, a vida, a alma daquela pessoa, deu um novo sentido à sua profissão, viram que eram instrumento de Deus”, e assim resgataram a identidade profissional.
Outra experiência frequentementemente relatada é de que o que se vive ali não é aprendido na universidade.
Esse é o caso da pediatra Maiara de Fátima Souza Maia, que concluiu o curso de medicina em 2022, e conheceu o MedCAl ainda como estudante.
Para ela, o que mais complementa a formação é desenvolver o olhar humano: “Aquela pessoa não é somente um número, é uma pessoa muito amada”.
Maiara afirma que “a formação dos profissionais de saúde, pela quantidade de trabalho, pela quantidade de cansaço, tem ficado muito mecanizada, e participar de um apostolado mostra para os alunos que existe algo além do cuidado médico, do cuidado de saúde”.
E conclui, “nós podemos oferecer carinho, nós podemos oferecer compaixão”. [ Photo Embed: Grupo de voluntários do MedCAl em São José dos Campos-SP] Trabalho em conjunto com a Pastoral da Criança Maiara participa do apostolado MedCAl na cidade de São José dos Campos-SP, que recebeu a primeira missão do grupo vindo de Brasília em 2018.
Além das formações, havia duas ações missionárias por ano, com os atendimentos voluntários, visita aos doentes nas casas e evangelização, em diferentes paróquias.
Os contatos prévios com a Pastoral da Saúde e Pastoral da Criança ajudavam a identificar as casas para visitar e divulgar os atendimentos.
A partir de 2023, os convites das paróquias aumentaram, e mesmo aquelas que já haviam sido visitadas, pediram que retornassem, devido à grande quantidade de crianças.
O contato com a coordenadora diocesana da Pastoral da Criança, e a identificação de casos que precisavam de acompanhamento, fez com que o apostolado assumisse atendimentos mensais, que são realizados todo terceiro sábado do mês, na Paróquia Santa Teresinha.
A ação dos atendimentos mensais, segundo Maiara, “não é um voluntariado, é um apostolado”, pois tem também o caráter de evangelização.
O sábado se inicia com o café da manhã, depois um breve momento de catequese com as crianças, e também formação para os pais ou responsáveis.
A seguir, começam os atendimentos, enquanto as crianças seguem em atividades recreativas com voluntários.
Hoje, já possuem uma equipe multidisciplinar, com médico, psicólogo, psicopedagogo, fisioterapeuta e nutricionista, o que possibilita discussão de casos.
Os membros recebem uma formação mensal sobre temas que os apoiarão na evangelização, como bioética e teologia do corpo. “Entender bem o que somos, para alcançar o que Deus quer que sejamos” O apostolado MedCAL está concluindo a etapa de estruturação dos seus estatutos dentro da família Regnum Christi, momento que o fundador Dr.
Clerisson define como “perceber de forma mais madura aquilo que o Senhor havia inspirado”.
Hoje, estão presentes em Brasília, Goiânia, São Paulo e São José dos Campos.
E pequenos grupos já se formaram em Curitiba e Porto Alegre. “O MedCAl tem crescido, estamos na fase de firmar a identidade, entender bem o que somos para alcançar o que Deus quer que sejamos de fato”, afirma Dr.
Clerisson.
Ele acompanha com gratidão este amadurecimento, e segue acompanhando ativamente o apostolado em cada uma das cidades em que está presente, ou iniciando.
Mensagem aos jovens estudantes Para aqueles que iniciam o curso de medicina ou na área da saúde, Dr.
Clerisson aconselha “estudar como um ato de oração”, vivendo uma correspondência ao apelo de Deus através desse dom.
Também orienta a seguirem o que a Igreja ensina e perguntar-se o motivo de seguir essa profissão, que para ele não deve ser apenas descobrir novas técnicas e chegar em diagnóstios, mas ter a consciência de que “a medicina é uma ciência dada por Deus a serviço do próximo”.
Servir ao doente, e não à doença, como conclui o Dr Clerisson, ressaltando a importância da dignidade da pessoa, reflete também o que afirmou o Papa Leão em sua mensagem para o XXXIV Dia Mundial Do Enfermo: “o cristão faz-se próximo daquele que sofre, seguindo o exemplo de Cristo, o verdadeiro Samaritano divino que se aproximou da humanidade ferida.
Não são meros gestos de filantropia, mas sinais nos quais se pode perceber que a participação pessoal nos sofrimentos do outro implica dar-se a si mesmo, supõe ir mais além de satisfazer necessidades, para chegar ao ponto da nossa pessoa ser parte do dom”.