Missão digital e comunhão eclesial: entre a torre e o muro

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Missão digital e comunhão eclesial: entre a torre e o muro
Fonte: VATICANO

Leão XIV escreve que a escolha real não é entre dizer sim ou não à tecnologia, mas entre erigir Babel ou reconstruir Jerusalém, entre um poder que quer dominar os céus e um povo que trabalha junto na presença de Deus.

Padre Marcio Tadeu* Há um trecho da carta aos Gálatas que Paulo escreve indignado porque um povo que já tinha vivido a liberdade do Evangelho se deixou seduzir por vozes que prometiam um conhecimento superior, uma pureza de fé que a pregação original, segundo eles, não entregava por completo(cf.

Gl 1,6-9).

Ele chama isso de outro evangelho, que na verdade não é evangelho nenhum.

Ler esse texto hoje, num tempo em que qualquer pessoa com um celular e uma boa edição de vídeo pode se apresentar como voz autorizada da tradição católica, é atualizar essa indignação paulina.

E aqui não se fala de uma heresia clássica, fala-se de algo mais discreto e, por isso mesmo, mais difícil de nominar.

Perfis nas redes sociais de leigos e também clérigos que constroem grandes audiências, mas que aos poucos vão se afastando da comunhão eclesial sem nunca declarar formalmente esse distanciamento.

A comunhão esfria enquanto o número de seguidores esquenta.

E o problema não é discordar de um posicionamento questionável de algum representante oficial da Igreja.

Isso sempre existiu e vai continuar existindo, faz parte da vida de qualquer instituição feita de gente.

O problema começa quando essa discordância vira espetáculo, vira conteúdo, vira combustível de um algoritmo que se alimenta da distribuição da ira.

O saudoso Papa Francisco, na mensagem para o 58º Dia Mundial das Comunicações Sociais, escreveu que os algoritmos, como tudo que sai da mente e das mãos do homem, não são neutros.

Parece óbvio, mas não é, por vezes a audiência trata o feed como espelho do que a igreja pensa em sua essência, quando na verdade é um mecanismo construído para premiar o que provoca reação, e reação forte quase sempre nasce de raiva ou de desprezo, raramente da caridade.

O mesmo documento fala do risco da câmara de eco, esse fenômeno em que a pessoa só escuta variações da própria voz e confunde isso com discernimento.

Um influenciador católico que vive dentro dessa câmara começa a achar que a bolha dele é a Igreja inteira.

Daí em diante, cada fala de um bispo, cada documento, cada gesto do Papa vira motivo de processo público, com sentença já anunciada antes da razão ser aprofundada.

Na carta encíclica Fratelli Tutti, quando Francisco fala que os fanatismos que levam a destruir o outro aparecem também entre pessoas religiosas, sem excluir cristãos, que participam de redes de violência verbal na internet, e que mesmo na mídia católica se tolera difamação e calúnia como se isso não custasse nada à fraternidade.

Isso posto, seria desonesto permanecer somente na crítica.

Pois,  o mesmo documento que fala do risco dessa poluição cognitiva reconhece que essas ferramentas podem ajudar a romper barreiras de ignorância e tornar acessível um patrimônio de conhecimento que antes ficava restrito a especialistas.

Há leigos que nunca pisaram num curso de teologia e hoje explicam o catecismo com uma clareza que muito professor deveria invejar.

Conheço padres que usam noventa segundos de vídeo para levar uma passagem do Evangelho a alguém que jamais entraria numa igreja por conta própria.

Isso é missão, no sentido mais literal da palavra, ir ao encontro de quem está fora.

A rede social não é o problema.

O problema começa quando quem fala em nome da fé esquece que fala em nome de alguém maior que ele e passa a tratar a própria audiência como medida da verdade.

Essa ideia torna-se mais clara na primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas, publicada agora em maio sobre a custódia da pessoa humana no tempo da inteligência artificial.

Logo no início, o pontífice recorre a duas imagens bíblicas que valem mais que qualquer teoria de comunicação.

De um lado a torre de Babel, erguida por um povo que queria um só nome, uma só língua, uma só direção, e que por isso mesmo terminou disperso.

Do outro lado Neemias, que ao chegar em Jerusalém em ruínas não impõe solução nenhuma de cima para baixo.

Examina o estrago em silêncio, depois reúne as famílias, distribui um pedaço do muro para cada uma reconstruir, e é assim, na cooperação de gente diferente entre si, que a cidade renasce.

Leão XIV escreve que a escolha real não é entre dizer sim ou não à tecnologia, mas entre erigir Babel ou reconstruir Jerusalém, entre um poder que quer dominar os céus e um povo que trabalha junto na presença de Deus.

Um missionário digital católico que constrói sozinho a própria torre, com sua própria língua, seu próprio nicho, seu próprio tribunal, está fazendo Babel mesmo quando cita o catecismo linha por linha, com precisão de rubricista.

Quem reconstrói o muro aceita trabalhar ao lado de quem pensa diferente, aceita que o pedaço do vizinho também importa, e aceita, antes de tudo, examinar em silêncio antes de falar.

E essa palavra, examinar em silêncio, leva de volta a São José.

O evangelho de Mateus conta que ele era um homem justo e que, ao descobrir a gravidez de Maria, decidiu resolver o assunto sem expor, sem denunciar publicamente.

Ele tinha um fato, não uma suspeita, uma gravidez real diante dos olhos, e mesmo assim escolheu guardar aquilo dentro de si até que a vontade de Deus se revelasse com clareza.

Assim, refletindo honestamente, quantos dos nossos influenciadores católicos, leigos ou padres, teriam essa mesma paciência hoje?

Quantos aguentariam ficar um dia sequer sem publicar a indignação, sem transformar a dúvida em vídeo, sem converter um fato comprovado numa sentença já anunciada para a plateia?

O silêncio de José, como o silêncio de Neemias diante do muro caído, não era omissão.

Era espera ativa diante de Deus, o primeiro passo de quem vai reconstruir e não de quem vai apenas apontar o dedo para a ruína.

Os algoritmos não sabem valorizar esse tipo de silêncio, porque silêncio não gera engajamento, não gera clique, não alimenta o sistema.

Só a carne sabe esperar assim.

Só quem vive comunidade de verdade, e não apenas leu sobre ela num feed, entende que a letra sozinha pode parecer correta e ainda assim destruir.

Paulo escreveu aos Coríntios que a letra mata e o espírito vivifica, e essa frase tem feito muito sentido agora, num tempo em que qualquer um cita o direito canônico, cita o catecismo, cita o magistério com precisão cirúrgica, mas continua completamente fora da comunhão a que esses textos servem.

Talvez o convite, no fim das contas, não seja parar de usar as redes.

Seria ingenuidade e também covardia, porque o campo está aí e alguém vai ocupá-lo de qualquer jeito.

O convite é lembrar que a Igreja não é feita de perfis certos contra perfis errados, é feita de homens e mulheres que aceitam, com todas as suas fraquezas, formar comunhão com quem discordam, às vezes com boas razões.

Assim a palavra se faz carne e a letra da lei se torna amor eterno. *Sacerdote na Diocese de Votuporanga(SP), Pároco, Professor, Pós-graduado em Bioética pela Cátedra da UNESCO e Apresentador na RedeVida

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