Uma viagem entre meninos e jovens à mercê das drogas, da fome e do abandono na capital queniana. Vidas que conseguem encontrar uma possibilidade de recomeço graças à ajuda dos agentes da Koinonia, comunidade fundada pelo missionário comboniano padre Renato “Kizito” Sesana.
Guglielmo Gallone – enviado a Nairóbi Não os chamem de zumbis.
As crianças e os jovens de Nairóbi que vivem nas ruas e que entorpecem a fome ou o frio inalando cola, gasolina e outras substâncias escondidas em pequenas garrafas de plástico são tudo, menos os zumbis que tantos documentários retratam.
Sim, é verdade: usam drogas, não frequentam a escola, estão sujos, têm o hálito e as roupas cheirando a combustível de aviação, usam chinelos furados, dormem sobre alguns pedaços de papelão jogados nas calçadas do centro, cobrindo-se com sacos plásticos.
Alguns cometem delitos, andam com facas e podem ser verdadeiros criminosos, com uma arma na mão.
Mas quando se encontram com eles e se caminha ao seu lado, apesar da droga inalada da garrafinha escondida na manga do moletom enquanto conversam, percebe-se que essas crianças e esses jovens são tudo, menos zumbis.
Nos momentos passados com eles, conhecem-se seus heróis: de Lionel Messi a Cristiano Ronaldo, a Kylian Mbappé, até o Papa. “Antes era Francisco, hoje é Leão!”, dizem.
Ouve-se até mesmo suas repreensões a quem usa drogas, mas, sobretudo, conhecem-se suas lembranças, emoções, medos, ausências e corações.
Corações que se abrem em um instante preciso. [ Photo Embed: Padre Kizito com os jovens em situação de rua] “Você tem Facebook?”, perguntam ao ver um smartphone.
Mas não estão interessados no que a rede social pode oferecer. “Quero procurar uma pessoa”, pedem.
E então começa a busca por Jackline.
O terceiro de quatro perfis é o certo: “É minha mãe, quero escrever para ela”.
A única pergunta que surge espontaneamente é há quanto tempo ele não a vê nem fala com ela. “Há cinco anos, desde que ela foi para Dubai, desde que eu moro na rua.” Hoje ele tem 15 anos.
E suas mensagens, traduzidas do suaíli, são simples e ingênuas: “Oi, querida mãe, como você está?
Nada de especial.
Eu só queria cumprimentar você.
A gente se fala.
Estou com um italiano.
A gente se fala”.
Eis os “zumbis de Nairóbi”.
Os zumbis têm mãe?
Lembram-se de seu nome e de seu rosto depois de cinco anos?
Procuram-na entre quatro fotografias no Facebook assim que veem um estrangeiro com um smartphone?
Sentem necessidade de simplesmente dizer a ela: “Eu só queria cumprimentar você”?
Os zumbis sentem saudade?
Têm medo?
Têm memória?
Preocupam-se em informar à própria mãe onde estão e com quem estão?
Esperam que alguém volte para buscá-los?
Sonham em voltar para casa?
Lembram-se da última vez em que dormiram em uma cama?
Sentem falta de um abraço?
Ainda precisam ser chamados de filhos?
E um jovem de quinze anos que vive há cinco anos na rua é realmente um zumbi, ou é, antes de tudo, uma criança que aos dez anos perdeu a mãe e foi obrigada a respirar combustível de aviação para conseguir dormir e não sentir frio?
Nairóbi, às cinco da manhã, ainda está envolta na escuridão, mas começa a despertar.
Partimos do centro de acolhida de Kivuli, fundado pelo missionário comboniano padre Renato “Kizito” Sesana, e seguimos em direção ao coração da capital.
O guia chama-se Jack Matika.
Ele conhece todos e todos o conhecem.
Há vinte anos trabalha como educador de rua da Koinonia, comunidade fundada pelo padre Kizito em 1982, na Zâmbia, que se expandiu para o Quênia, a partir de 1991, e para as montanhas Nuba, no Sudão, a partir de 1995, para apoiar sobretudo crianças e jovens em situação de rua, assim como pessoas em condições de maior vulnerabilidade.
Durante o trajeto, Jack explica o que será feito: procurar crianças em situação de rua e famílias sem moradia que passam a noite no centro de Nairóbi.
É preciso movimentar-se cedo, quando a cidade ainda não engoliu as pessoas que dormem em suas calçadas.
É uma das missões da Koinonia: “Dar esperança e dar vida aos mais vulneráveis”.
Esse é o povo de Jack. [ Photo Embed: Jovens em Nairóbi] Mas ele não havia procurado essa vocação.
Quando chegou a Nairóbi, em 2001, queria ser professor, ganhar a vida e construir um futuro na área da educação.
Mas, prossegue, “Deus tinha um chamado diferente para mim.
Quando conheci o padre Kizito, todo o meu modo de pensar, minha maneira de fazer as coisas, minha abordagem mudaram completamente”. “A missão da Koinonia transformou e mudou todas as ideias que eu tinha sobre aquilo que pensava fazer, sobretudo no que diz respeito à humanidade, ao amor e ao cuidado com os outros.
E esse foi um chamado muito forte.
Então deixei a educação e me uni à Koinonia, ao padre Kizito e à missão da humanidade, à missão de servir aos mais vulneráveis.” “E, naturalmente, quando esse chamado chega, não deixa alternativas.
Mas eu gosto dessa missão, gosto desse chamado, gosto do que a Koinonia está fazendo e do que fez no passado.
Gosto de tocar a vida das pessoas, sobretudo das crianças, dos jovens e das mulheres que vivem em situações difíceis.
Pessoas que vivem nas ruas; mães e crianças que vivem sem comida, sem abrigo, simplesmente sem uma casa.
Pessoas que também morrem por causa de doenças simples, do frio, da cólera e de coisas desse tipo, porque os lugares onde vivem são insalubres.” E, de fato, é o rosto de uma mãe o primeiro que encontramos na rua.
Seu nome é Faith, tem 24 anos e vive nos Jardins Jeevanjee, um pequeno parque público no coração de Nairóbi.
Com ela está sua filha. “Ela se chama Joyce — conta-nos — porque traz alegria à minha vida.” A casa delas, há cerca de dois meses, é ali: “Vivo na rua porque não conseguia mais pagar o aluguel.
Não tinha ninguém que pudesse pagá-lo por mim e, por isso, tive que vir para cá.
Espero que alguém possa me ajudar a encontrar uma casa e então poderei voltar a morar lá”.
Antes ela tinha um emprego.
Depois, perdeu-o.
E quando se tem uma criança, até as necessidades mais básicas se tornam um problema: “É preciso comprar comida, fraldas, algumas roupas”.
Até aquilo que se consegue guardar pode desaparecer de uma hora para outra. “Às vezes a polícia chega e queima nossas coisas, os cobertores e as roupas.
E então é preciso começar tudo do zero.” Faith não fala de grandes projetos, mas das necessidades mais simples. “A primeira coisa que nos falta é comida.
E depois podemos passar até duas semanas sem conseguir tomar banho.
É uma grande dificuldade.” E, de fato, Joyce não para de chorar.
Tem o nariz cheio de secreção, tosse, tenta arrancar o microfone das mãos de Faith, como se quisesse gritar ao mundo a injustiça que está vivendo.
E se perguntamos a Faith o que significa ser mãe, sua própria história responde. “Eu estava no segundo ano do ensino médio e engravidei.
Não era casada, dei à luz uma menina e, desde então, cuido dela.” Depois de acompanhar Faith e Joyce à farmácia, seguimos para encontrar as crianças e jovens em situação de rua.
Jack simplesmente se senta em um bar na praça.
As crianças e os jovens chegam.
Em ondas.
Em cerca de uma hora, passarão por ali pelo menos trinta, com idades entre oito e 25 anos. [ Photo Embed: Faith e sua filha Joyce] Não é fácil dizer quantos são no Quênia.
O último censo nacional sobre famílias em situação de rua, realizado em 2025 e publicado pelo Kenya National Bureau of Statistics em junho de 2026, contabilizou 18.049 pessoas que vivem ou estão “ligadas” à rua em todo o país.
Mais de uma em cada quatro, 26,1%, tem menos de 18 anos; mais da metade, 50,4%, tem entre 18 e 34 anos.
São números muito inferiores aos do censo anterior, de 2018, quando foram contabilizadas 46.639 pessoas, das quais 15.337 somente em Nairóbi.
As organizações que trabalham diretamente com essa realidade, porém, apresentam uma dimensão muito diferente do fenômeno.
Diversas estimativas falam em 250 mil a 300 mil crianças e jovens ligados à situação de rua no Quênia e mais de 60 mil somente em Nairóbi.
Muitos acabam presos nas redes das drogas, também porque os inalantes têm preços bastante acessíveis.
Os próprios jovens contam que, com 180 xelins quenianos, o equivalente a 1,20 euro, é possível comprar duas garrafinhas.
E, no entanto, muitos escondem aquela pequena garrafa de plástico que carregam consigo.
Mantêm-na na manga do moletom, perto do rosto, e levam-na continuamente à boca para aspirar os vapores.
Alguns repetem esse gesto quase sem interrupção, até mesmo enquanto contam suas histórias. “Eles têm medo de serem vistos, de serem julgados — explica o padre Kizito. — Sabem que usar drogas não faz bem, mas é a única maneira que encontram para se proteger do frio e conseguir dormir enquanto vivem na rua.
É a única maneira que têm de não pensar.” [ In Evidence ] “Recebi muitos desses jovens ao longo de todos esses anos.
E jamais poderei esquecer um deles, que chegou ao centro de Kivuli com as costas completamente queimadas.
Antes de usar drogas, havia acendido uma fogueira.
Depois adormeceu e, entre o sono e os efeitos da droga, nem sequer percebeu que seu corpo estava queimando.” Não é um fenômeno novo.
O uso de inalantes entre jovens em situação de rua no Quênia está amplamente documentado: um estudo realizado com 227 crianças e jovens em situação de rua no condado de Meru identificou o uso de cola em 56,4% dos casos.
Pesquisas anteriores no Quênia também haviam registrado a inalação de gasolina.
Ainda assim, é sempre um golpe no coração ter diante dos olhos esses adolescentes de quinze anos que, para sofrer menos com a vida nas ruas, usam essas substâncias, começam a rir sem motivo, giram rapidamente a cabeça, fazem sons estranhos com a voz e depois voltam ao “normal”.
Assim como é um golpe no coração ter de se despedir do adolescente de quinze anos que não recebeu, pelo Facebook, uma resposta da mãe, e perceber seu pedido silencioso para que alguém fique, para que não vá embora, na esperança de que o telefone toque mais cedo ou mais tarde.
No Facebook aparece a mensagem “mensagem entregue”.
Mas será que foi realmente assim?
Jackline viu a notificação?
Será que algum dia a verá?
Ela está realmente em Dubai?
Chegou lá?
Para fazer o quê?
Como é sua vida agora?
Será que ela sabe o que significa para um menino não ver a própria mãe há cinco anos e não saber se algum dia poderá abraçá-la novamente?
São perguntas que se sucedem na mente a ponto de até mesmo esquecer o nome do jovem, mas não seus olhos nem aquele olhar.
O olhar de quem pede ajuda, de quem procura sua mãe — certamente não o olhar de um zumbi.