Caminhada pela periferia do nordeste da cidade, entre assentamentos informais e fábricas, onde os missionários acompanham mais de mil estudantes, mediante a educação, saúde e formação.
Guglielmo Gallone – Nairóbi "Quando éramos crianças, o rio era muito mais profundo.
Pescávamos e nadávamos aqui.
Hoje, isso não é mais possível: os moradores e as empresas vizinhas o poluíram.
A comunidade não precisa mais dele.
O governo está fazendo muito para remediar, mas olha que situação desastrosa!" Edgard e Leonard, 23 e 26 anos, são dois excelentes alunos da Escola Baba Dogo, dirigida pelos Agostinianos.
Eles nos acompanham pela periferia nordeste de Nairóbi.
O rio Ruaraka escorre tranquilo diante dos nossos olhos, passando por aglomeração de casas, pequenas hortas plantadas ao longo das margens, esgotos e dejetos jogados diretamente na água.
Ao fundo, vemos prédios de concreto, que se erguem para o céu.
Um pouco mais adiante, começa a zona industrial, explicam os dois jovens: "Agora a poluição vem diretamente do esgoto e tudo é despejado na água.
A gente vê claramente que o esgoto desemboca diretamente no rio e isso nos entristece muito, porque o rio nasce na floresta de Muthaiga.
O terreno, que vemos do outro lado, é público.
Por isso, os moradores se apoderaram de alguns pedaços de terra para suas próprias necessidades.
Na outra margem do rio encontra-se Kenya Breweries, onde são produzidos cerveja, vinho e outras bebidas alcoólicas, distribuídas por toda a África Oriental". [ Photo Embed: O rio Ruaraka] Assentamento de Baba Dogo Baba Dogo está situada ao lado de Ruaraka, um dos polos industriais de Nairóbi: ali, havia e ainda há grandes fábricas como a East African Breweries, Kenafric, PZ Cussons e outras empresas manufatureiras.
Durante décadas, isso atraiu trabalhadores de baixa renda e migração interna, dando origem a uma densa rede de casas populares, pequenos comércios e assentamentos informais ao redor das fábricas.
Enfim, caminhando pelo bairro, a gente se depara com mundos muito diferentes, a poucos metros de distância: galpões e terrenos industriais cercados, ruas lotadas de traficantes e boda-bodas, para o transporte de passageiros ou táxis compartilhados e mototáxis; prédios de vários andares, pequenas lojas e, no fundo, áreas muito precárias, com casas amontoadas e telhados de zinco, que deixam molhar tudo quando chove, pois o rio transborda.
Esta é uma das áreas com maior densidade de povoação das periferias do nordeste de Nairóbi: segundo o censo de 2019, toda a região territorial tinha mais de 70 mil habitantes.
Ali, há também um assentamento informal consolidado chamado Baba Dogo.
Segundo um recente estudo da Universidade de Nairóbi, entre 2025-26, a área é vista, explicitamente, como assentamento informal, caracterizado por uma grave insegurança fundiária.
Além disso, uma pesquisa feita com 256 famílias revela que sua principal fonte de renda são os pequenos centros de comércio, com alguns empregados, e outros classificados como trabalhadores informais, ou seja, diaristas ou trabalhadores temporários, especialmente em indústrias próximas.
Cerca de 70% dos entrevistados disseram que ganham menos de 10.000 xelins quenianos (cerca de 400 reais) por mês, e outros quase 25% entre 10.000 e 20.000 xelins.
Tais dados de uma pesquisa local descrevem, claramente, a classe social mais vulnerável do bairro. [ Photo Embed: As ruas de Baba Dogo] Serviço agostiniano É precisamente nesta situação complexa que a comunidade Agostiniana atua em Baba Dogo, com a sua paróquia do Sagrado Coração e a Escola Católica do Sagrado Coração.
O sacerdote agostiniano, Padre Daniel Male, que trabalha, sobretudo, com escolas e jovens, explica: "A maioria da população com a qual trabalhamos, cerca de 95%, é composta de pessoas que vivem em favelas.
Ainda hoje, temos um bom número de estudantes, que recebem ajuda financeira.
Um dos maiores desafios dos nossos fiéis é o desemprego, especialmente entre os jovens.
Há também problemas de saúde mental, ligados a essa situação, mas o outro grave problema é a moradia: é comum encontrar famílias, com três ou quatro pessoas, que vivem juntas em um único cômodo pequeno.
Isso complica ainda mais a vida.
Outro grave problema também é a alimentação e, de forma mais geral, as condições de vida bastante precárias.
Tais problemas são típicos das favelas". Enfim, é precisamente nesta situação que o espírito de Santo Agostinho se manifesta, segundo o Padre Augustine Juma: "Educar as crianças e acolher os fiéis significa também cuidar de suas almas, da formação espiritual e do desenvolvimento intelectual e necessidades mais básicas: quando chegam aqui em nossa casa, recebem alimentos para que tenham melhores condições de estudar; graças ao nosso hospital, recebem também assistência médica completa.
Assim, tentamos cuidar primeiro da mente das nossas crianças e depois do corpo e, por fim, da alma, através do serviço pastoral”. Quem chega a Baba Dogo, acrescenta ainda o Padre Augustine Juma, depara-se com uma síntese do espírito agostiniano: “Uma só alma e um só coração voltados para Deus!
Por isso, queremos agradecer a Deus por todos estes anos de serviço pastoral.
A nossa paróquia foi inaugurada em 1998 e, desde então, buscamos ser presença de Deus, inspirados por Santo Agostinho, entre as pessoas que somos chamados a servir”. [ Photo Embed: A Escola Católica Sagrado Coração, em Baba Dogo] Visita do então cardeal Prevost O serviço prestado pelos Agostinianos é comprovado pela visita do então Cardeal Robert Francis Prevost, alguns meses antes da sua eleição papal, como afirma o Padre Daniel Male: "Era dezembro de 2024, mas não a sua primeira vez.
Quando o Papa Leão XIV era Prior geral, ele fazia as suas chamadas visitas fraternas: encontrava-se pessoalmente com todos os confrades, conversava com eles sobre as suas dificuldades e conquistas.
De certa forma, o Prior geral era como um pai para todos.
A última vez que ele esteve conosco, tinha vindo para consagrar uma das capelas da nossa Casa de Formação, ou seja, o Convento de Santo Agostinho em Karen.
Assim, pôde visitar também a igreja e constatar os desenvolvimentos e mudanças que ocorreram desde sua última visita.
Ele também teve a oportunidade de conhecer melhor os membros da comunidade Agostiniana e de demonstrar sua satisfação ao ver o crescimento e o desenvolvimento na região”.
Ao lado dos alunos Hoje, a escola dos Agostinianos conta mais de 1.100 alunos, como explica ainda o Padre Daniel Male: “Na maioria dos casos, acompanhamos as crianças desde o ensino fundamental até ao final do ciclo, que lhes permite continuar no ensino médio.
No passado, tínhamos o chamado de sistema 8-4-4: oito anos de ensino fundamental, quatro de ensino médio e quatro de universidade.
Mas, depois, o governo modificou este sistema, introduzindo dois anos de pré-escola, seis anos de ensino fundamental, três anos de ensino fundamental II e três anos de ensino médio.
Todo sistema educacional também mudou, com a chamada Educação com base nas competências.
Desta forma, a prioridade não era mais dada apenas ao desempenho acadêmico das crianças, mas também às áreas de aprendizagem e habilidades, que cada criança desenvolve.
Portanto, o que tentamos fazer, como instituição educacional, é observar as habilidades específicas de cada aluno e ajudá-lo a seguir o caminho mais adequado”. [ Photo Embed: O logotipo da escola] Prontos para encarar o futuro Os dois jovens alunos, Leonard e Edgar, parecem ter encontrado este caminho: um na Faculdade de Teologia e o outro, hoje, como mentor de alunos, mas amanhã o seu desejo é ser guia turístico.
Em Baba Dogo, o rio ainda carrega consigo os sinais do que não está funcionando.
No entanto, um pouco mais adiante, entre as carteiras da escola agostiniana e das duas escolas públicas, com pelo menos 5.000 alunos, todos uniformizados e sorridentes estão prontos para ajudar, a ensinar outras crianças a encarar o futuro com esperança.
Então, talvez, este seja o verdadeiro significado de ter "uma só alma e um só coração": jamais deixar de acreditar que uma periferia possa ter um futuro e que a amizade, tão central na experiência de Santo Agostinho, seja uma das formas mais concretas de comunhão: alguém caminha ao seu lado, ajudando-lhe a desvendar seu caminho, lembrando que você não foi chamado a percorrê-lo sozinho, tampouco nas favelas de Nairóbi, tampouco em Baba Dogo. [ Photo Embed: Nairóbi, o bairro de Baba Dogo]