Em um país castigado pela guerra, que já provocou mais de 50 mil deslocados, a Igreja está na linha de frente para levar, neste período pascal, mantimentos e apoio espiritual às famílias que vivem em campos de refugiados. Entre as iniciativas, destaca-se a do vicariato de Phnom Penh, que organizou uma marcha com centenas de jovens, aos quais o bispo Olivier Schmitthaeusler pediu que se tornem "embaixadores da reconciliação".
Paolo Affatato - Vatican News A Páscoa dos fiéis cambojanos será de caridade e solidariedade com os mais de 50 mil deslocados que se encontram em 15 campos na fronteira entre a Tailândia e o Camboja. Após o conflito entre as duas nações do Sudeste Asiático, iniciado em julho de 2025 e atualmente congelado por um acordo de trégua que mantém as fronteiras fechadas, a situação humanitária é estável, mas ainda conta com mais de 16 mil famílias sofrendo e vivendo em condições muito precárias, longe de suas casas, sem trabalho e sem qualquer possibilidade de garantir o próprio sustento. Cáritas na linha de frente A resposta da Cáritas Camboja não demorou e, desde os primeiros meses da guerra, assistiu as pessoas afetadas nas províncias de Preah Vihear, Siem Reap, Oddar Meanchey, Banteay Meanchey, Pursat, Battambang e Koh Kong, atendendo às necessidades básicas dos refugiados: abrigos e tendas para dormirem em segurança, kits de higiene e assistência alimentar, além de providenciar serviços de saúde e atendimento móvel, especialmente para crianças, mulheres e pessoas com deficiência. "Também é importante o apoio psicossocial que traz consolo", afirma o jesuíta padre Enrique Figaredo, Prefeito Apostólico de Battambang, que lidera a delegação da Cáritas. Os agentes e voluntários, diz o religioso, "se deparam com restrições de acesso à zona vermelha e com o perigo de artefatos não detonados que comprometem a segurança, mas não desistem". "O deslocamento prolongado aumenta a vulnerabilidade", recorda ainda o padre Figaredo, confirmando que "é importante para nós, católicos cambojanos, prosseguir com esta obra realizada com o espírito de testemunhar o amor de Cristo". Ao lado das crianças e dos deslocados Além de 100 toneladas de arroz que chegaram a mais de 4.000 famílias deslocadas, de 15 pontos de distribuição de água potável em 11 campos e de 7.000 kits de higiene, agora o presente de Páscoa para estas comunidades consiste em iniciativas especiais para a infância. "Organizamos 30 espaços adequados para crianças que acolhem mais de 1.200 menores; 22 bibliotecas temporárias onde 275 crianças podem estudar e 60 salas de aula temporárias para mais de 340 alunos", afirma o Prefeito Apostólico. Jovens e reconciliação Todas essas são medidas que visam levar alívio e conforto às comunidades provadas há um ano do deslocamento. A situação local, estagnada e ainda não normalizada, continua a despertar o engajamento emocional e espiritual dos jovens. Nos últimos dias, mais de 300 rapazes e moças do Vicariato de Phnom Penh e de Battambang participaram de uma peregrinação de três dias focada no tema "Jovens e reconciliação para a construção da paz". Um dos momentos marcantes da peregrinação foi uma caminhada de mais de 20 quilômetros até a paróquia de Maria Mãe de Deus, em Tumpung, para ver de perto as feridas da guerra e rezar pela paz. "A peregrinação teve o objetivo de ajudar os jovens a compreenderem a reconciliação e a construção da paz em seus corações, em suas famílias e em suas comunidades", destacou Sun Saron, leigo católico responsável pela Comissão para a Juventude do Vicariato de Phnom Penh e um dos organizadores. A experiência "convida os jovens a assumirem um papel ativo na construção da paz na Igreja e na sociedade", afirmou a Comissão em nota, incentivando os participantes a prosseguirem em sua jornada de crescimento e responsabilidade pessoal. Seguindo o exemplo dos mártires O bispo Olivier Schmitthaeusler, vigário apostólico de Phnom Penh, ao dirigir-se aos jovens, lembrou que "a paz não é simplesmente a ausência de guerra, mas a presença de harmonia e uma vida de relações repleta da alegria de Deus". Ele os encorajou a se tornarem "embaixadores da reconciliação" em suas comunidades. Para construir a paz, disse, os ingredientes fundamentais são a compaixão, o amor e o perdão. São justamente esses valores que a Igreja cambojana reconheceu na história e na vida do bispo Joseph Chhmar Salas e de seus 11 companheiros, para os quais a Igreja, no último dia 15 de março, encerrou a fase diocesana do processo de beatificação dos mártires do Camboja. São sacerdotes, missionários, religiosos, religiosas e leigos que, recordou Schmitthaeusler, "representam todos aqueles que sofreram nos anos sombrios do regime do Khmer Vermelho e que morreram pedindo ao Senhor que os acolhesse em seu Reino".