No Dia da Mulher, religiosas contam como a fé se transforma em missão - Vatican News via Acervo Católico

  • Home
  • -
  • Notícias
  • -
  • No Dia da Mulher, religiosas contam como a fé se transforma em missão - Vatican News via Acervo Católico
No Dia da Mulher, religiosas contam como a fé se transforma em missão - Vatican News via Acervo Católico
Fonte: VATICANO

O Vatican News conta a história de três mulheres que abdicaram de outros aspectos de suas vidas para se dedicarem ao serviço, à missão e à vocação religiosa da vida consagrada. Da cidade do Rio de Janeiro ao sertão nordestino, do litoral alagoano a Belém do Pará, é diante das várias realidades brasileiras que elas traçaram seus caminhos em função do amor a Deus e da compaixão por aqueles que mais precisam.

Mariane Rodrigues - Vatican News Irmã Jelda Zolzo saiu do Rio Grande do Sul e percorre uma trajetória missionária no Nordeste há quase meio século. A uruguaia irmã Maribel Perez dedica-se às causas sociais em prol de pessoas em situação de prostituição no Rio de Janeiro. Já a irmã Jucélia de Jesus Silva encontrou na educação, em Belém do Pará, um caminho de transformação. Em comum, as três compartilham a mesma certeza: a plena entrega a Deus e à vida religiosa.  Neste Dia Internacional da Mulher, 8 de março, elas compartilham com o Vatican News suas histórias, emoções e percepções sobre o que é ser mulher na vida consagrada: aquela que fez os votos de pobreza, obediência e castidade. Aquela que não poderá gerar vidas no sentido biológico, mas cuja maternidade permanece de outra forma: “gerando vidas” por meio da acolhida, do afeto, da escuta e de gestos concretos de amor e solidariedade junto aos mais frágeis, marcados pela pobreza material e espiritual. O chamado para a vida consagrada “Irmã. Não tem título melhor. Nem superior, nem inferior a ninguém, mas a liberdade de me relacionar com todos como irmã”. A fala é da irmã Jelda, de 78 anos. Ela nasceu no Rio Grande do Sul, em berço católico. Rezava o terço diariamente com a família, na sala de casa, diante de uma imagem do Sagrado Coração de Jesus. Ela conta que foi “bebendo dessa espiritualidade”, como a criança quando “bebe o leite materno”. Aos 19 anos, fez a consagração e integrou-se à Congregação Filhas do Sagrado Coração de Jesus, cujo carisma é viver a caridade do Coração de Jesus por meio da misericórdia, da acolhida e do serviço. “Eu conversava com Deus e dizia que preferia morrer a deixá-Lo”, conta. Irmã Jelda chegou a Alagoas em 1982, colaborando com a equipe do Movimento de Educação de Base em comunidades carentes e com a juventude. As Filhas do Sagrado Coração de Jesus chegaram ao estado nordestino em 1970, realizando um trabalho itinerante pelo litoral norte, construindo maternidades, oferecendo cursos para parteiras, auxiliando pescadores, conseguindo financiamentos para projetos sociais, adquirindo filtros de água e sanitários para as comunidades mais vulneráveis e promovendo a formação religiosa de catequistas e professores. No início dos anos 1990, ela foi enviada para uma missão em Canudos, no sertão da Bahia. “Aprendi muito com a natureza de lá, que ensina sobre resiliência. Ajudei o povo a resgatar sua história e a compreender a geografia local”, relata. Ela acrescenta: “O povo dizia para a gente: ‘Vocês nos ajudaram a inocentar Deus, porque culpávamos Deus pela falta de chuva’”. Irmã Jelda, junto com outras irmãs, mudou realidades ao levar as primeiras cisternas para aquele povo castigado pela seca. “Promovemos mutirões, conseguimos trabalhadores, aprendemos a construir, elaboramos projetos e conseguimos financiamentos”, conta. “Agradeci muito a Deus por ter me levado até lá. Minha vida ganhou ainda mais sentido ”, expõe. Zolzo integrou o governo-geral da congregação, percorrendo a América Latina, a Europa, a África e também a Índia durante 12 anos. Retornou ao Brasil em 2008 e depois voltou para Alagoas, onde permanece até os dias atuais. Ela conta que se inspirou na própria fundadora das Filhas do Sagrado Coração de Jesus, Santa Teresa Verzeri, que foi protagonista em diversos momentos na abertura de caminhos para as mulheres religiosas de seu tempo, no século XIX. A Santa fundou a congregação com o objetivo inicial de educar jovens e prestar assistência social às crianças em situação de vulnerabilidade. “Teresa desejava que a mulher pudesse se movimentar”, enfatiza a irmã Jelda. Atualmente, as irmãs das Filhas do Sagrado Coração de Jesus de Maceió, das quais irmã Jelda faz parte, mantêm um centro educacional que atende mais de cem crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. “Pessoalmente, estou mais numa dimensão de acolhida, de escuta, de colaboração, de retiros e de momentos de espiritualidade”, afirma. Perguntada se já pensou em desistir, ela é enfática: “Em nenhum momento. Eu digo a Deus: ‘Obrigada’. Sinto que dei minha contribuição neste mundo”, reflete. Para ela, as dificuldades são muitas, mas “não há existência cor-de-rosa”. “Enfrentando as dificuldades, a vida ganha sentido e desabrocha em horizontes maiores”, complementa, lembrando que Jesus passou por grandes sofrimentos e alcançou a ressurreição. Quanto a ser mulher na vida consagrada, ela explica: “A maternidade na mulher é algo forte. Para mim, como religiosa, a linha do gerar aprofundou a verdadeira maternidade, que é a que constrói as pessoas. É esse inclinar-se, na maternidade espiritual, sobre o pobre, o fraco, o pequeno, aquele que necessita de vida, que está sufocado. A verdadeira maternidade colabora para a vida, para que as pessoas cresçam na sua dignidade de filhas e filhos de Deus”, finaliza. Para ela, ser mulher na vida religiosa é uma “grande liberdade” e um gesto concreto de garantia da felicidade. “As coisas mais bonitas que fiz foram enquanto comunidade. Para mim, isso dá segurança e uma grande liberdade interior de que estamos buscando o melhor. Acredito que a felicidade não está em buscar apenas para mim. Se me fecho em mim, é egoísmo”, conclui. A força feminina no cuidado e na acolhida A uruguaia Maribel Perez, de 42 anos, sentiu sua vocação para a vida religiosa aos 14 anos, ao ver Madre Teresa de Calcutá na televisão. Já na fase adulta, sempre teve o perfil de trabalhar na defesa da dignidade da pessoa humana em contextos de periferias existenciais. Ela chegou ao Rio de Janeiro, por meio da Ordem das Virgens Consagradas, destinada a uma missão: acolher e evangelizar pessoas em situação de prostituição, trabalho que realiza até os dias de hoje. “Cheguei aos 22 anos, sem saber falar português, para atuar em um bairro marcado pela prostituição e pelo tráfico. Recebi muitas críticas: ‘Será que isso daria certo?’. Mas era algo muito claro para mim e para o meu coração: Deus queria isso.” Outras irmãs também atuam em diversas áreas sociais e profissionais, mas Maribel se dedica totalmente a essa missão. “São 20 anos dentro de um bairro de prostituição. Amo o que faço e aprendo ali o verdadeiro Evangelho”, afirma a irmã, que fundou uma associação chamada Talitha Kum. “Não agimos para tirá-las da prostituição, mas para que elas se encontrem com Jesus, que é o mais importante. Depois, que elas mesmas descubram seus próprios valores, sua dignidade e seu fortalecimento pessoal por meio do encontro com Deus. Deixar a prostituição é uma consequência”, pontua irmã Maribel. Ela conta que o trabalho de evangelização é discreto, como um “trabalho de formiguinha”, auxiliando principalmente as mulheres a terem acesso aos seus direitos mais básicos. “E temos a oração como centro de todo o nosso trabalho. O Santíssimo Sacramento sempre fica exposto em todas as atividades que fazemos”, conta. Antes de conhecer a história de Madre Teresa de Calcutá, irmã Maribel não imaginava que, fora de sua realidade, existiam pessoas que se dedicavam integralmente às causas sociais e ao serviço de Deus. “Vê-la me chamou muito a atenção. Foi como uma flecha que me atingiu e nunca mais consegui tirar”, reflete. Mesmo reconhecendo a vocação aos 14 anos, ela diz que só respondeu ao chamado aos 17. A família nunca soube dos pensamentos que preenchiam sua vida. “Contei para eles que iria me dedicar à vida religiosa quando já estava com a passagem comprada para a França. Não dei muita opção para eles. Eles não queriam, mas eu estava decidida. Foi a primeira vez que vi meu pai chorar”, relata. Irmã Maribel também encontrou no esporte um pilar essencial para vencer o cansaço e sustentar a rotina acelerada que os trabalhos sociais exigem. Ela é triatleta e compete no Rio e em outras cidades. A religiosa explica que o esporte proporciona saúde física e mental para viver melhor a missão. “Como religiosos, a gente cuida muito pouco de si. Amar o outro como a si mesmo. Muitas vezes deixamos de lado o ‘si’ e preservamos apenas o ‘amar ao outro’. Então o esporte ocupa um espaço importante na minha vida.” Ela reforça que a presença da mulher em todos os setores da vida é um elemento essencial e também divino, e exemplifica com a própria presença da Virgem Maria. “Os homens são importantes, mas a mulher tem algo próprio, específico, dessa maternidade que está em cada uma de nós, de acolher, de cuidar. A presença da mulher é muito importante; senão, não teríamos a Virgem Maria”, complementa. Vocação que nasceu na comunidade A vocação religiosa da irmã Jucélia de Jesus Silva começou a tomar forma ainda na juventude, entre os 18 e 20 anos, quando participava ativamente da comunidade católica onde vivia, no interior do Pará. Ela recorda que o primeiro contato mais profundo com a fé veio por meio da música e dos grupos de jovens da paróquia. Até então, a ideia de ser consagrada nunca havia passado pela sua cabeça. Aos poucos, convivendo com outras jovens e escutando histórias de religiosas, nasceu nela a curiosidade de conhecer melhor esse caminho. Jucélia conheceu congregações e participou de encontros vocacionais. Por ser tímida, imaginava que o caminho ideal seria em uma congregação mais reservada, dedicada sobretudo à oração. Por isso, inicialmente resistiu à possibilidade de se tornar salesiana, cujo carisma é a educação e a evangelização de crianças e adolescentes. “Eu achava que para ser irmã precisava ter uma vida mais distante do povo, mais reservada. E via as irmãs salesianas muito ativas, falando com muita gente, animando atividades. Pensava: isso não é para mim”, recorda. A mudança de perspectiva aconteceu quando uma religiosa salesiana lhe apresentou com mais profundidade o carisma da congregação. Ao descobrir a dimensão social da missão - com escolas, obras sociais, abrigos e comunidades inseridas - algo fez sentido dentro dela. “Vi que era muito mais do que eu imaginava.” A religiosa aceitou o desafio de fazer uma experiência em Manaus. Em 2001, iniciou a caminhada que a levaria definitivamente à vida consagrada. Para a mãe, nos primeiros dias após a partida da filha, a sensação era de perda. Com o pai, o apoio veio rapidamente. “Ele me incentivou, disse para eu seguir se fosse isso que eu sentia.” Neste ano, Jucélia completa duas décadas de missão religiosa. Hoje, a mãe vê a escolha da filha com serenidade e orgulho. “Ela dizia que pedia a Deus para consolá-la e para que fosse feita a vontade d’Ele, não a dela. Aos poucos foi entendendo e hoje diz que está muito feliz com essa decisão.” A mudança para uma cidade grande trouxe saudade e insegurança também para Jucélia. “Eu chorava muito, sentia muita falta da família.” Com o tempo, a missão foi preenchendo os espaços deixados pela distância. O trabalho pastoral, o contato com jovens e comunidades e os novos vínculos ajudaram a transformar a saudade em sentido. “A missão exige da gente. Quando chego a uma realidade nova, procuro viver bem aquilo que me foi confiado. Os alunos, as pessoas… você cria laços.” Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória aconteceu logo no início da vida religiosa, quando trabalhou em um abrigo para meninas em situação de vulnerabilidade social, em Manaus. “Ali eu via realidades muito difíceis. Eu me questionava, mas aquilo também me fortaleceu para continuar.” Para aprimorar sua missão pastoral, cursou Pedagogia, fez pós-graduação em gestão educacional e também se especializou no acompanhamento juvenil. Hoje, aos 44 anos, a religiosa atua como diretora institucional da Escola Salesiana em Belém e também já exerceu funções de liderança na Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), na regional Pará e Amapá, onde foi coordenadora por três anos e atualmente é conselheira. “Ser religiosa não é alguém que não deu certo para casar. Pelo contrário. A gente precisa amar as pessoas, entender os valores da família e acolher”, considera. Ao refletir sobre o significado de ser mulher dentro da vida consagrada, ela afirma que a missão feminina está profundamente ligada à capacidade de gerar vida, no sentido humano e espiritual. “Ser mulher é gerar vida nas pessoas. É acolher, escutar, ser presença.” Essa presença, segundo a religiosa, não busca visibilidade, mas significado. “Você não precisa se expor. O importante é que sua presença seja um sinal de acolhida.” Para sustentar essa missão no cotidiano, a rotina inclui oração pessoal, momentos comunitários e silêncio para meditar a Palavra. Ela cita um versículo bíblico que resume sua experiência vocacional: “Não fostes vós que me escolhestes; fui eu que vos escolhi”. “Não somos nós que escolhemos Deus primeiro. É Ele que nos alcança”, afirma. Mesmo reconhecendo que hoje os jovens enfrentam muitas dúvidas diante de uma decisão como essa - especialmente as mulheres -, Jucélia acredita que a vocação religiosa continua sendo um caminho possível. “O desafio para as jovens é maior, mas é possível. É preciso coragem para descobrir o projeto de Deus.” E completa: “Quando você escolhe essa vida, não escolhe o lugar onde vai viver. Mas, onde chega, é chamada a ser sinal de felicidade.”

Siga-nos

Acervo Católico

© 2024 - 2026 Acervo Católico. Todos os direitos reservados.