O 'Velho Ano Novo' de uma Rússia 'congelada na guerra' - Vatican News via Acervo Católico

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O 'Velho Ano Novo' de uma Rússia 'congelada na guerra' - Vatican News via Acervo Católico
Fonte: VATICANO

O Golem, atolado na lama pantanosa do "servir, rezar e dar à luz". É impossível acreditar em pesquisas sociológicas com dados estatísticos cada vez menos acessíveis. A fissura entre a maioria otimista e uma minoria pessimista significativa, mas prevalece a visão de que "tudo permanecerá como hoje". A perspectiva apocalíptica de Kirill e a luta contra o "demônio" Bartolomeu.

Pe. Stefano Caprio* No dia 14 de janeiro, a Rússia festejou o Staryj Novyj God, o "Velho Ano Novo" do Ano Novo segundo o Calendário Juliano, duplicando assim as ocasiões para esquecer o passado e prever o futuro, ou — segundo o espírito russo ao contrário — para esquecer o futuro, voltando ao passado. Sob as enormes nevascas dos últimos dias, que enterraram Moscou, em particular, sob um manto impenetrável de gelo líquido, para não ver o que está acontecendo em muitos países ao redor do mundo devastados por tumultos e invasões, os russos aguardam a conclusão solene do período Svyatki, as festas com máscaras que vão do Natal ao Batismo de Jesus, em 19 de janeiro, quando as máscaras são retiradas para mergulhar na cruz das águas abertas no gelo dos rios e lagos congelados, para afastar os demônios que ameaçam o futuro. A dupla euforia do novo ano multiplica as possibilidades de expressar os próprios sonhos e desejos, e os sociólogos e analistas russos mergulham nas pesquisas e enquetes para entender a imagem formada entre as pessoas ao observar o curso dos acontecimentos. A sensação mais difundidaque se percebe disso é que atualmente na Rússia não existe uma verdadeira "imagem do futuro", já que, há quatro anos, desde a invasão da Ucrânia, tem sido impossível compreender as verdadeiras intenções dos líderes políticos e religiosos, focados apenas na destruição do presente em nome de mitologias do passado. O curso da guerra russa oscila entre a completa destruição do maléfico Ocidente e a ocupação militar de alguns quilômetros de zona rural na devastada Ucrânia, entre a "guerra santa" e a "operação militar especial". A economia do país é alardeada como próspera e inovadora, mas os cidadãos são forçados a apertar cada vez mais os cintos e a desembolsar todos os seus rublos restantes para impostos cada vez maiores, a fim de sustentar os gastos militares. E ainda que se conseguisse concluir aneste ano a sagrada operação especial, não está claro o que poderia acontecer após a tão esperada Vitória de Pirro-Putin. A impressão, a partir do que dizem os cidadãos comuns e os próprios dirigentes da casta no poder, é que se a ação militar for interrompida, a Rússia permanecerá congelada, como nestes dias de neve e vodca entre as comemorações de Ano Novo e os sagrados mergulhos em temperaturas abaixo de zero. Ela se aprisionará em uma nova realidade de uma estrutura demográfica alterada à força, uma economia voltada para a guerra e leis duras e repressivas. E, como se isso não bastasse, encantará os países vizinhos com guirlandas de "valores tradicionais" e ogivas nucleares. O Golem, atolado na lama pantanosa de "servir, rezar e dar à luz", na realidade dificilmente avançará com qualquer vigor particular. Da mesma forma, não é garantido que os russos, mesmo aqueles que, por um motivo ou outro, seja por fanatismo ou dinheiro, se dedicaram à guerra contra seus primos vizinhos, realmente queiram passar a vida inteira em uniformes cor cáqui. A única coisa em que todos os especialistas e analistas concordam é que é impossível acreditar em pesquisas sociológicas na Rússia de hoje, mesmo que, em raros casos, elas coincidam com dados estatísticos cada vez menos acessíveis de agências oficiais ou com as observações em primeira mão de pesquisadores. Os editores da Novaya Gazeta decidiram então evitar previsões sobre o novo ano ou a próxima década, perguntando aos entrevistados como eles imaginam a Rússia daqui a cinquenta anos, quando os líderes atuais certamente não estarão mais no poder e o mundo poderá ser radicalmente diferente em geral. Os resultados desta "pesquisa extrema" não acrescentam sentimentos particularmente favoráveis, permanecendo focados em imagens retóricas de uma "grande Rússia liderada pela mão forte de um autocrata e povoada por famílias numerosas". Ao redor, robôs pintados como cerâmica russa Gzhel e uma rede artificial soberana, formada nos textos de Dostoiévski, Dugin e no Domostroy medieval, o "código de conduta moral" dos tempos da Terceira Roma, um futuro no qual o passado mais sombrio resplandece. De acordo com os resultados publicados pelo site, 56% da população acredita que a Rússia continuará a expandir seu território, 53% acreditam que sua população aumentará significativamente, 59% acreditam que sua influência global crescerá e 73% estão confiantes de que o país experimentará um enorme crescimento tecnológico. No entanto, um sinal de preocupação é expresso pelos 23% dos entrevistados que acreditam que a Rússia do futuro terá uma população muito menor do que a atual. As proporções entre uma maioria otimista e uma significativa minoria pessimista também são encontradas em relação ao futuro padrão de vida da Rússia, que 49% acreditam que será mais alto, 25% que não ultrapassará o nível atual e 14% imaginam um empobrecimento contínuo. Entre os mais céticos estão os empresários, devastados pelas políticas militares dos últimos anos. A questão mais desafiadora levantada pelos pesquisadores diz respeito às liberdades civis e políticas da Rússia em meio século, para a qual mais de 20% disseram que "não sabiam o que responder". Dos que responderam, 34% acreditam que haverá mais liberdades, a mesma porcentagem diz que serão as mesmas de hoje e 12% acreditam que haverá ainda menos. Os mais otimistas são os jovens em idade acadêmica e os mais pessimistas — coincidentemente — são os empresários. No geral, entre as várias tendências, prevalece aquela de que "tudo permanecerá como está hoje", o Estado continuará sua política belicosa e repressiva e a população continuará a se submeter e se adaptar. Seria estranho, afinal, se houvesse hoje uma crença generalizada de que mudanças radicais poderiam ocorrer a curto e longo prazo: a impressão é de que a Rússia não apresentará sua nova face até o final deste século, e o "congelamento" será o típico inverno interminável antes de possíveis "descongelamentos" repentinos e primaveras muito breves. O fato de a maioria dos russos não enxergar um futuro brilhante para o país, no entanto, não significa que o que eles imaginam coincida com o que desejam. Nos últimos anos, e como legado de tradições seculares, os russos aprenderam a guardar seus desejos mais autênticos para si mesmos, ou a expressá-los com muita cautela; a última pessoa a falar explicitamente de uma "Rússia feliz do futuro" foi Aleksej Naval’nyj, que foi aniquilado no frio congelante do campo de concentração há quase dois anos, em 16 de fevereiro de 2024. A esperança no futuro é, de fato, um tema primordial das crenças religiosas, e muitas das previsões são influenciadas pelas ameaças da Igreja Ortodoxa de acabar no inferno, acompanhados pelo "diabo em pessoa", personificado por declarações de ortodoxos russos nestes dias na figura do patriarca de Constantinopla, Bartolomeu (Archontonis).  A perspectiva apocalíptica pregada por seu grande adversário, o Patriarca Kirill (Gundyaev) de Moscou, acompanhou todas as visões do presente e do futuro desde antes da ascensão do Czar Putin, como observou a especialista em assuntos religiosos Vita Tatarenko, conselheira da presidência ucraniana. Ela lembra que a propaganda de uma "guerra santa" já estava em curso na década de 1990, embora de maneira suave e implícita, mas já voltada para uma futura agressão. Uma das previsões mais dramáticas para o futuro da Rússia diz respeito ao choque entre as duas Igrejas Ortodoxas na Ucrânia, a pró-Moscou UPZ e a autocéfala PZU. A primeira deveria ser eliminada por lei, mas, não obstante a passagem de aproximadamente 1.500 comunidades para a Igreja opositora, ela mantém uma proporção duas vezes maior que a da segunda, e essa comparação destaca a dimensão simbólica do choque de civilizações e dos cenários futuros. A Ucrânia demorou a responder, não tanto no terreno em 2022, mas nos altares em 1992, quando o seu Metropolita Filaret (Denisenko) se iludiu ao pensar que poderia resolver a questão proclamando-se Patriarca de Kiev, um título que mantém como "honorário" no seu palácio da era soviética aos 97 anos, um exemplo supremo de um passado contraditório que se recusa a desaparecer. A "desnazificação" ideológica da Ucrânia, a justificação oficial para a guerra, é um derivado da "desortodoxificação" decidida em conjunto com o agora demonizado Patriarca de Constantinopla, e as visões do futuro não podem ignorar a visão religiosa que alimenta previsões e esperanças com motivações "superiores". Que ortodoxia, que cristianismo haverá daqui a cinquenta anos na Rússia, na Ucrânia, na Europa e em todo o mundo? Esta questão não faz parte das sondagens de vários especialistas e agências, mas diz respeito verdadeiramente à coerência e identidade dos povos do futuro. *Pe. Stefano Caprio é docente de Ciências Eclesiásticas no Pontifício Instituto Oriental, com especialização em Estudos Russos. Entre outros, é autor do livro "Lo Czar di vetro. La Russia di Putin". (Artigo publicado pela Agência AsiaNews)

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